A sabedoria de Kent Beck e o que ela nos ensina sobre o valor econômico das ideias que você tem

“Primeiro você aprende o valor da abstração, então você aprende o custo da abstração, e só então você estará pronto para construir” (Kent Beck).

Essa declaração do Kent Beck é sobre design de código e arquitetura de software, e é de extrema importância para programadores. Mas estou certo de que ele pensava muito além do código quando a publicou. Com um pouco mais de reflexão em cima do que está dito, podemos extrair toda a sabedoria da frase e tirar lições muito valiosas para que gestores, líderes, designers de produto e demais profissionais do conhecimento entendam melhor o mundo, e como se relacionar com ele.

A frase do Kent Beck contrapõe dois conceitos econômicos (valor e custo) em um contexto filosófico existencialista (“você estará pronto para”). Para a análise ficar mais curta, ao invés do filosófico, vou focar no econômico, no histórico e no antropológico para integrar tudo com gestão, negócios e desenvolvimento de software. Tudo isso usando o conceito de consiliência que descrevi em um texto anterior que escrevi.

Pensar em termos de abstrações é um dos traços mais importantes do comportamento humano. É uma habilidade que envolve a capacidade de sintetizar fatos particulares para o estabelecimento de uma certa teoria sobre algo. O oposto de “abstração” é “especificação”, que é a quebra de uma ideia ou teoria em seus fatos e eventos concretos.

O economista Tomás Sedlacek foi quem me proporcionou a melhor explicação sobre o valor que podemos extrair desse processo de abstração. Ele conta que em algum momento da história, um dos nossos antepassados resolveu usar essa habilidade. Ele abstraiu de um objeto específico, uma pedra com bordas afiadas, o conceito de “instrumento cortante”, usando-o para criar inúmeros outros objetos “da mesma classe” (para usar um termo da área de programação) ou “da mesma categoria”.

Enquanto que o objeto “pedra com borda afiada” resolvia um tipo de problema específico e de forma específica, a categoria “instrumento cortante” poderia resolver uma infinidade de outros problemas usando infinitas formas diferentes. Como se pode ver, há muito valor naquela “pedra com borda afiada” que nosso antepassado encontrou por acaso, mas a ideia de “instrumento cortante”… ah, essa ideia tem muito mais valor.

Muitas vezes, quando damos saltos de valor econômico na história humana, o fazemos porque criamos abstrações, novos conceitos que revolucionam a forma como vivemos e como interagimos uns com os outros. Por exemplo, Sedlacek nos ajuda a refletir um pouco mais nos contando sobre a transição tecnológica dos grandes players mundiais na área de TI dos últimos 50 anos.

Primeiro veio a IBM. A IBM fabricava computadores, máquinas. Coisas que você toca, sente e carrega de um lado para o outro — coisas concretas.

Depois veio a Microsoft. Ela superou a IBM em volume de negócios e em capacidade de transformar o mundo, mesmo considerando que seus produtos ainda dependiam das máquinas produzidas pela própria IBM para funcionar. Mas era um tipo novo de produto. Você ainda podia comprá-lo e levá-lo pra casa — ainda existiam as caixinhas do produto, os CDs, DVDs ou os antigos disquetes — , mas não havia nada concreto no produto em si. Apenas padrões de pensamento encapsulados em um algoritmo comportamental descrito em um tipo especial de linguagem capaz de ser interpretada pelas tais máquinas produzidas pela IBM. Nada poderia ser mais abstrato do que isso… Será mesmo?

O terceiro saldo de abstração foi a Google. E lá ficou a Microsoft para trás. Com apenas uma tela, uma caixa de texto e um botão, a Google superou a Microsoft, eliminou tudo que restava de concreto e mudou o mundo. A Google abstraiu o próprio conceito de produto. Este não é mais algo que você compra. O produto da Google são os próprios consumidores que usam seu software. Não há mais caixinha pra comprar. Diferente de um produto concreto, como um computador, ou um carro, cujo uso vai depreciar o valor do produto; quanto mais você usa um produto da Google, mais valor ele tem.

Uma mudança de entendimento econômico sem precedentes. Causada por saltos de abstração.

Tudo indica que os saltos de abstração continuarão. Veja o seu antigo e concreto relógio despertador que antes ficava no criado mudo ao lado da sua cama. Era uma coisa, com um corpo. O smartphone o fez retornar para o mundo das ideias abstratas. Agora é só uma ideia implementada por um algoritmo em seu celular. Podemos dizer o mesmo da câmera fotográfica, da filmadora, da calculadora, da agenda, do bloco de anotações. Gradualmente, os objetos estão sendo sugados de volta para o mundo das ideias. O mundo da qual um dia nasceram.

Essa é só mais uma expressão da nossa incansável capacidade de abstração agindo concretamente no mundo.

Bom, e o que isso tem a ver com você?

O valor cada vez mais se move do concreto para o abstrato (sintetização). Quanto melhor for sua capacidade para formar boas ideias abstratas, maior será o seu valor como profissional, como realizador, como agente de mudança real no mundo. Como diz o Kent Beck: “primeiro você aprende o valor da abstração”.

Por exemplo, se você é programador, tudo muda quando você aprende sobre o poder de extrair conceitos em interfaces e estabelecer indireções para que você possa adicionar uma nova variação de comportamento sem mudar o código existente.

Se você é um outro profissional do conhecimento, tudo muda quando você aprende a extrair os conceitos dos fatos e eventos a sua volta de forma a sintetizá-los em novas ideias que o ajudarão a agir e a se posicionar concretamente no mundo. É a integração entre o pensar e o agir: um ‘ethos’.

É nesse momento que você entra em contato com o alto valor da abstração.

Agora, essas abstrações precisam servir de base para gerar novas ações concretas no mundo (especificação). É nesse momento que “você aprende o custo da abstração”. Ao mesmo tempo que as abstrações nos dão o poder da potencialidade, elas nos distanciam dos problemas reais. Se você é programador, você sabe que os problemas nunca são resolvidos em uma classe abstrata ou em uma interface no seu código-fonte, mas sempre em uma implementação concreta. Para resolver problemas, para agir no mundo, é preciso tocar o concreto.

A sabedoria está no caminho do meio, no correto balanceamento entre o pensar e o agir, mas especificamente, pensar para agir e agir para pensar.

Em resumo, primeiro é preciso enxergar e aprender sobre o valor do abstrato. Depois é preciso entender que há um custo alto no uso inadequado da poderosa habilidade que você tem para abstrair. Esse custo se revela quando:

  • Você fica no mundo das ideias e não desce para a terra (para o concreto) com a frequência adequada para aferir sua validade quando postas à prova no mundo real;
  • Há confusão e falta de clareza nas suas abstrações, o que torna tudo mais complexo e difícil de se converter em valor concreto.

Isso é válido para o seu código, para sua carreira, para seus projetos e para sua vida.

Fora do mundo do código-fonte e das máquinas, para balancear o valor das abstrações com o seu custo, é preciso ter um “ethos”, uma filosofia que conecte o pensar com o agir. Isso vai evitar que você viva no mundo de ideias que nunca se realizam. É preciso também buscar clareza, um dos atributos mais valiosos de quem busca por sabedoria, de quem busca potencializar sua capacidade de articular ideias e de entender como integrar o abstrato com o concreto na medida certa.


Se você acha que o mundo das ideias tem valor, que sabedoria é o caminho para se tornar quem nós podemos ser, e que conectar o pensar e o agir é condição para isso, talvez seja interessante conhecer o 'The Wise Manager'.