De refém do tempo a agente 007: como usar Sprints para trocar tarefas por missões.

“ — O que são esses cartões brancos rodeados de post-its na sua parede?” É o que me perguntam os visitantes que eventualmente recebo no meu home office.

Esses cartões brancos representam minhas sprints de geração de valor. Sprints? Sim, há algo mágico em trabalhar com sprints e é sobre isso que quero falar nesse artigo.

A nossa mente busca, de forma natural, organizar as coisas em uma cadeia sequencial de causalidades. Se eu fizer isso, depois isso e mais aquilo outro, terei o resultado esperado. Uma sequência linear de causa e consequência planejada para obter um dado resultado.

Resultados são alcançados de sprint em sprint.
Resultados são alcançados de sprint em sprint.

Tentamos linearizar tudo. Entretanto, o universo não é linear. Ele pulsa. Tudo pulsa em eterna alternância entre atividade e descanso: as ondas, os átomos, as estrelas. O universo é oscilatório, assim como nossas vidas o são. Nosso coração pulsa, nossas células. Vivemos em ritmos pulsantes que se entrelaçam. O ritmo do dia, da semana, do mês, do ano. O ritmo do acordar e dormir, do salário na conta, das férias anuais, do período letivo na escola.

“Somos seres oscilatórios em um universo oscilatório. A ritmicidade é nossa herança”. Tony Schwartz

Mesmo assim, o que fazemos é linearizar nossos planos, nossas agendas, em busca de uma cadeia de causa e consequência que coloque ordem e segurança no mundo caótico que vivemos. Infelizmente, o mundo não dá a mínima para nossas tentativas artificiais de controlá-lo. Quando linearizamos nossos planos, somos sumariamente atropelados pela realidade que não se deixa prever. É preciso abandonar as pretensões de exatidão do relógio e esquecer qualquer analogia na qual nos comparamos a máquinas ou fábricas. Sem dúvida máquinas e fábricas funcionam bem com o modelo linear. Quanto ao restante, hmmm…

Estamos acostumados a tentar gerenciar o tempo. Encaixamos nossas atividades na agenda, da mesma forma que fazemos quando alimentamos uma máquina com matéria-prima esperando por produto acabado do outro lado. Quando fazemos isso, criamos planos que desconsideram os sujeitos inseridos nele. Nosso planos são feitos para máquinas que não oscilam em performance, em interesses, em paixões. Nós, ao contrário, mudamos. O mundo com a qual interagimos muda.

Todos os dias precisamos de um novo plano, por que todos os dias nos tornamos seres diferentes, explorando um terreno diferente, com informações novas. Assim, usar o mesmo modelo industrial para gerir nossas vidas ou projetos é como usar um martelo para apertar um parafuso. O instrumento não tá nem aí para a natureza do problema que tem nas mãos.

Para se encaixar com a vida, é preciso deixar pulsar — e pulsar tem a ver com energia. Pare de gerenciar seu tempo e comece a gerenciar sua energia! É ela que oscila em nós: para fazer, para descobrir o que fazer, para descartar, para pensar em caminhos alternativos, para corrigir o que foi mal feito, para ser firme e não fazer o que não precisaria ser feito. Gerenciar sua energia significa parar de pensar que você está correndo uma maratona sem fim, e entender que você precisa correr uma série de sprints.

No dicionário uma sprint é definida como “uma corrida de curta distância a toda velocidade”. Para o nosso contexto essa definição precisa de um ajuste: Sim, é uma corrida de curta distância, mas, não, não é a toda velocidade. É uma corrida com o máximo do seu foco; ou, fazendo referência à teoria descrita por Tony Schwartz no livro The Power of Full Engagement, com o máximo da sua energia:

”Energia, não tempo, é a moeda fundamental da alta performance.”

Nesse livro, o que o autor faz é desconstruir a noção de que você precisa viver a sua vida — ou fazer o seu trabalho -, tentando definir e depois encaixar as atividades que você tem pra fazer em um dado tempo disponível um dia após o outro. Ele desconstrói um modelo cujo princípio é nos manter ocupado; mantendo-nos ocupados haverá produção; havendo produção, haverá resultados. Sério?

O fato é que nos acostumamos a trabalhar sem um rumo, sem uma linha de chegada. Tá bom, eu sei… na maioria das vezes há alguma referência sobre onde queremos chegar, mas isso normalmente é completamente arbitrário:

— Preciso terminar isso até o dia x para poder dar início a tarefa y.
— E amanhã?
— Amanhã eu termino a tarefa y para poder dar início a tarefa z.

Um loop infinito.

Os nossos objetivos acabam se diluindo nas tarefas do dia-a-dia e terminamos nos acostumando com isso. Entramos em uma zona de conforto de estagnação da qual será difícil sair no futuro.

Ter um ponto de partida e uma linha de chegada é o que leva os corredores a percorrerem o caminho de uma ponta a outra totalmente engajados. A linha de chegada deve ser uma missão, com resultado concreto, benefício tangível ou uma nova capacidade que está sendo criada para o todo que você está inserido (sua própria vida, sua empresa ou seu time).

É preciso migrar do modelo task-based para mission-based. Fugir da servidão das tarefas encaixadas no calendário para uma postura do agente que recebe uma missão (im)possível.

Parece cansativo, né? Não será se você estiver intencionalmente gerenciando sua energia. Cada ciclo de total engajamento deve ser seguido de uma impreterível fase de recuperação. Como um tenista que, após jogar um ponto com total engajamento, retorna em completo estado de relaxamento para o fundo da quadra ajustando as cordas de sua raquete. Ajustar as cordas da raquete é um ritual de recuperação para a próxima sprint. Segundo Schwartz, a fase de recuperação é tão importante quanto a fase de engajamento:

“Temos que aprender a viver nossas vidas como uma série de sprints — totalmente engajados durante certos períodos de tempo, e totalmente desengajados e buscando restauração antes de se engajar novamente. Para manter um pulso poderoso em nossas vidas, nós temos que aprender como ritmicamente gastar e renovar energia”.

Como não somos atletas, é importante não confundir engajamento, com esforço, velocidade ou produtividade. Engajamento, para o nosso contexto, tem muito mais a ver com foco, com ausência de distrações, com “olho na bola”. O esforço não é físico, mas de concentração e criatividade.

A data final, a linha de chegada, não é uma meta arbitrária e tirana, mas uma restrição para nos forçar a considerar alternativas. Uma vez que fazer muito bem feito o que não deveria ser feito é o maior de todos os desperdícios, é muito mais importante saber o que fazer, do que fazer — Peter Drucker certamente concordaria comigo nesse aspecto. Eficácia vem antes de eficiência. Chegar a um bom resultado dentro do tempo disponível é mais importante do que concluir todas as tarefas.

Em resumo, fica a reflexão, qual estratégia você acha mais adequada para aumentar as chances de sucesso nas suas iniciativas? Gerir sua ocupação para realizar tarefas ou sua energia para realizar missões? A resposta para essa pergunta pode fazer toda a diferença tanto para você, quanto para a sua empresa, o seu negócio ou o seu time.


Alisson Vale fundou o Software Zen para, entre outras coisas, ajudar as pessoas a organizarem seus projetos como um fluxo de sprints orientados a valor. O Software Zen ajuda profissionais da área de software a vencer difíceis desafios nos seus projetos. Saiba mais em http://softwarezen.me