O Pragmatismo Desmistificado: como a filosofia pragmática pode nos posicionar melhor no mundo

Alisson Vale
Jul 19 · 9 min read

“O Pragmatismo é um relato de como as pessoas pensam — da forma como elas têm ideias, formam crenças e chegam a decisões. O que nos faz decidir uma coisa quando deveríamos fazer outra? A pergunta parece irrespondível, dado que a vida nos apresenta muitos tipos de escolha e não se pode esperar nenhuma explicação simples que cubra todos os casos.”

Diferente do dicionário, não é? Tanto no dicionário, quanto no nosso dia-a-dia, o pragmático é “aquele voltado para ações práticas, realistas, objetivas”.

A filosofia pragmática, entretanto, conta uma história um pouco diferente…

A definição que eu usei acima está na seção 4 do capítulo 13 do livro “The Metaphysical Club: A Story of Ideas in America”, do Louis Menand. Esse livro ganhou um prêmio Pulitzer em 2002 contando a história de como os EUA participam do debate intelectual e filosófico na virada do século XIX para o século XX com nomes como William James, Charles Pierce e, mais tarde, John Dewey.

O Pragmatismo é a única escola filosófica que nasce e se desenvolve nos EUA, e a sua influência no mundo contemporâneo passa frequentemente despercebida.

Agile, Lean, Kanban, Lean Startup e tantos outros métodos e práticas que adotamos no século XXI sustentam certos postulados pragmáticos que já haviam sido definidos no final do século XIX. Não porque as pessoas envolvidas com as formulações desses métodos estudaram filosofia pragmática. Certamente que não. Mas porque tais métodos são manifestações de modos de agir em cenários onde precisamos que as coisas funcionem, mesmo transitando em situações de extrema incerteza, e é o modo de pensar pragmático (não como adjetivo, mas como filosofia) que dá coerência para esses modos de agir.

O DILEMA DO AGIR PARA SABER

Hoje, mais do que nunca, não sabemos o que vai acontecer com as ações ou decisões que tomamos em nossos projetos (ou na nossa vida de forma geral).

Segundo Menand, “ ‘Fazer a coisa certa’ e ‘dizer a verdade’ são apenas sugestões sobre critério, não respostas para dilemas concretos.”. O dilema real, segundo ele, é saber o que realmente significa fazer a coisa certa no caso específico que você está vivendo. Embora você tenha alguns critérios-guia como os acima definidos, a ação concreta que você tomará dependerá de circunstâncias presentes que dificilmente podem ser inteiramente previstas.

O pragmatismo nos ensina que vivemos em uma posição de ignorância. Somos ignorantes simplesmente porque os fatos e informações que precisamos para realizar ações ou tomar decisões só vão se manifestar no momento em que a situação se desenrola. Muito pior do que isso é o fato de que só saberemos se fizemos a coisa certa depois que os fatos se desenrolam, ou seja, teremos tomado uma boa decisão se o que se seguir a ela for o que gostaríamos que acontecesse.

Assim, o fato é que não sabemos se entregaremos tudo que prometemos quando planejamos um trabalho. Não sabemos se o que planejamos é o que realmente precisa ser feito. Não sabemos o que o cliente vai achar do que fizemos. Não sabemos se o problema que ele tem vai ser de fato resolvido com a solução que projetamos. Não sabemos quanto tempo de fato teremos para trabalhar no projeto, ou o quanto seremos interrompidos, ou até se estaremos lá até o final. Enfim, não preciso mais de exemplos. Somos ignorantes sobre a realidade em que vivemos e a nossa única certeza é a incerteza.

Mas a falta de certezas não nos impede de avançar. Os pragmatistas nos explicarão então o que fazemos para lidar com isso: estabeleceremos a cada instante de incerteza uma espécie de “teoria de verdade”, uma espécie de crença formada por fatos, histórias e ideias que o mundo nos traz, acrescida das nossas próprias experiências. Tal teoria nos guiará durante a ação. Se, uma vez concluída a ação, conseguimos o que queríamos, a nossa “teoria de verdade” é então validada e podemos dizer que ela foi “suficientemente verdadeira” para que alcançássemos seja lá o que alcançamos.

Então vamos lá… planejamos uma sprint. A teoria é “faremos isso, isso e isso dessa forma, durante esse tempo, e, no final, o cliente vai gostar do resultado”. A sprint começa. Descobrimos que não era bem assim, fatos novos surgiram, informações que não existiam se revelaram. A coisa, de fato, não foi como planejamos. Precisamos nos adaptar. Mas, no final, o cliente demonstra que gostou do resultado, ou seja, funcionou!

O mundo se manifestou a cada instante da sprint, mas repare bem… o mundo só se manifestou porque agimos!

Como dizia William James: “A verdade acontece com a ideia. A ideia torna-se verdadeira, é feita verdadeira pelos eventos, pela ação.” A verdade é fruto do sucesso da experiência. Primeiro vem o sucesso, depois a história que conta o sucesso. Primeiro vem a ação, só depois é que vem a verdade sobre a ação.

E porque isso é relevante? Porque costumamos achar que a verdade já existe antes da ação; que a verdade está no método, na fórmula, em algum jeito de fazer definido a priori. Achamos que o jeito certo vale mais do que a coisa certa, e aí topamos de frente com um mundo que espera um compromisso com o resultado, não uma subordinação cega à conformidade.

Enfim, enquanto é comum acharmos que a verdade é uma “descrição de como o mundo é” ou “de como o mundo deveria ser”, para o pragmatismo, a verdade é “um acordo com o mundo”. E essa distinção faz toda a diferença.

EPISTEMOLOGIA

Na filosofia, chamamos de Epistemologia o estudo do “como conhecer” do “como sabemos que algo é verdade”.

Se você segue o realismo como escola filosófica, por exemplo, a verdade está nos fatos e observações que definem leis e métodos capazes de descrever o mundo de forma certa, precisa e previsível. A verdade é obtida de experimentos concretos que demonstram sua teoria. Já seguindo uma linha opositória ao realismo, temos o idealismo. Para o idealismo, a verdade é definida por um conjunto de ideias, ou uma visão de mundo que representa um futuro ou estado ideal na qual se acredita ser superior e para qual nossos esforços devem ser direcionados.

Tanto no realismo, quanto no idealismo, a verdade vem antes da ação. É definida a priori. Nosso papel seria de buscar conformidade a ela.

O mercado se apresenta assim de certa forma. Ele te dá fórmulas, métodos e ideais que oferecem uma descrição do mundo a qual você não está adequado. A princípio, não há nada de errado com os métodos e fórmulas. De fato, precisamos deles para organizar a nossa “teoria de verdade”. Para os pragmáticos, o que realistas e idealistas geram são fatos e ideias que vão nos alimentar, compor nosso repertório para que possamos ter um ponto de partida e assim darmos conta dos desafios de convivência com o mundo. Para eles, ideias são apenas ferramentas para resolver problemas.

A questão é que compramos o livro, anotamos a receita e aplicamos os passos, como se diz, by the book. Mas nem sempre funciona ou, quando funciona, voltamos aos mesmos problemas depois de um tempo. Por que? Em parte porque tratamos aquilo ou como “uma descrição de como o mundo é” ou “de como o mundo deveria ser”. E aí tentamos nos adaptar a essa descrição, que o mundo particular que vivemos insiste em rejeitar. Na verdade, o que o nosso trabalho hoje nas empresas requer são “acordos com o mundo”, encaixe com uma realidade que se apresenta única para nós.

Se você é um pragmático, a verdade não é uma descrição do mundo, como acreditam os realistas, nem uma ideia de mundo melhor, como acreditam os idealistas. A verdade é um acordo com o mundo. A verdade é o que funciona.

Portanto, as fórmulas, os métodos, as estruturas conceituais são só repertório para que possamos estabelecer as “teorias de verdade” que vão nos guiar na hora de realizarmos nossa ações. O que vai fazer as coisas funcionarem, ou em outras palavras O QUE SERÁ EFICAZ, será a forma como agimos e reagimos enquanto tentamos chegar onde queremos. Métodos e fórmulas não geram resultados. O que gera resultado são pessoas tomando boas decisões (fazendo a coisa certa) enquanto apoiadas por métodos e fórmulas (fazendo do jeito certo).

E esse é um modelo epistemológico que faz muito mais sentido para nós que lutamos dia após dia nas empresas pra fazer as coisas funcionarem. Se você pensar que “o que funciona” implica em “alcançarmos o que queríamos dentro das restrições que temos”, tá aí a conexão com a eficácia e com a necessidade de fazer a coisa certa que articulamos no Software Zen.

ÉTICA

Um dia desses explicava toda essa coisa da filosofia do Pragmatismo para um colega, e ele me perguntou:

— Mas o pragmatismo então não é perigoso? Afinal, tem que funcionar, mas a custa de quê? A gente não vê toda hora políticos fazendo “alianças pragmáticas” para ganhar eleições. Isso não é uma coisa ruim no fim das contas?

Assim como a epistemologia, que vimos a pouco, a ética seria uma segunda componente de um sistema filosófico. E o pragmatismo, como tal, também responde bem a essa questão. Sobre ética, a discussão é longa, mas de forma bem sucinta e simplificada, é preciso entender que “o que funciona” não pode funcionar só pra você. Tem que funcionar para quem está a sua volta também (seus funcionários, seus clientes, seus colegas de trabalho), e além disso, tem que funcionar para a sociedade como um todo. Mais do que isso, tem que funcionar hoje e no futuro.

Ser pragmático é, assim, dar soluções não só eficazes no aqui e agora, mas sustentáveis no tempo, e no impacto social positivo que geram. Está aí um grande desafio ético que precisamos vencer todos os dias. Mas não é isso que estamos tentando fazer quando unimos as pessoas em torno de objetivos comuns, removemos silos, e nos aproximamos dos clientes e do negócio?

METAFÍSICA

A próxima pergunta foi:

— Mas será que isso vale para qualquer situação?

Aí entramos no terreno da metafísica. A metafísica define qual é o tipo ou natureza de mundo para o qual se aplica um dado sistema filosófico. No final do século XIX, os estudos de Charles Darwin surgem para mostrar um novo tipo de mundo, e é esse tipo de mundo que o pragmatismo imediatamente se apropria para estruturar sua metafísica. O mesmo tipo de mundo que vivemos hoje nas empresas.

No livro Adaptive Software Development, o Jim Hightsmith nos lembra:

“As práticas de negócio hoje parecem estar particularmente casadas com as teorias de Darwin com relação a seleção natural e sobrevivência do mais adaptado.” J. Highsmith

Ele tem razão. É só consultar o Arie de Geus para saber mais sobre isso.

Assim, usando a terminologia do Wise Manager chegamos a uma das nossas perguntas fundamentais:

Dado que o mundo é do jeito que é (ou seja, dada uma certa metafísica), o que fazer?

A resposta vai girar em torno de algo como: seja pragmático!

QUAL É O SIGNIFICADO DISSO PRA MIM?

Finalmente chegamos a pergunta final do meu colega:

— Alisson, me diz aí então, você é um realista, um idealista ou um pragmático?

Minha resposta foi: — Depende, em que momento?

O problema de ser um “ista” está na confiança em um único sistema de entendimento e ação no mundo pra te guiar em todas as horas. É você se colocando a serviço da ideia, ao invés de você a incorporando no seu projeto de construção de si mesmo. Cada sistema filosófico tem uma estrutura mais ou menos coerente com esse projeto. Para responder a pergunta do “o que fazer dado que o mundo é do jeito que é”, eu ainda não encontrei nada melhor do que o pragmatismo. Para outras perguntas igualmente importantes, outras discussões serão necessárias.

No Wise Manager vamos conhecer mais a fundo a epistemologia, ética, metafísica e visão sobre a natureza humana do pragmatismo e dos sistemas filosóficos que são instanciados de forma mais frequente hoje pelas pessoas.

Sim, como dizia William James “todo mundo segue uma filosofia”. A grande pergunta é: Você é dirigido pela filosofia que segue? ou você usa uma ou mais filosofias para viver melhor no mundo que se apresenta pra você?


Em um artigo anterior, eu falei sobre a necessidade de dar um zoom out e olhar o mapa de pontos A e B no mundo. O pragmatismo explica uma parte do jogo que é jogado, a parte relacionada “ao que fazer dado que o mundo é do jeito que é”. Mas o jogo é bem maior, e se você quiser saber que jogo é esse e como jogá-lo, o Wise Manager pode te dar algumas respostas.

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Alisson Vale

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Fundei o Software Zen para desvendar a "Arte da Gestão de Software" para aqueles que querem fazer a coisa certa | Encontre-me em: http://softwarezen.me

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