Quem ainda quer mudar o mundo?

Quem nunca acreditou ser grande o suficiente para mudar o mundo? Mas será que “mudar o mundo” é realmente o que queremos?

Alisson Vale
Nov 9, 2016 · 6 min read

Tudo era descoberta quando eu, ainda muito novo, comecei a escrever meus primeiros programas de computador. Não demorou muito pra eu entender que programas poderiam se transformar em produtos; que produtos poderiam resolver problemas reais de pessoas; e que, se o problema fosse vivido por um número suficiente grande de pessoas, meu produto poderia mudar o mundo.

Esse é o caso da minha amiga Ana. Provavelmente você conhece a Ana, ou uma Ana. Ela tem uma ideia fantástica. Acha que sua ideia poderia mudar o mundo.

Ah, se eu tivesse os recursos…, diz ela.

Ana é uma lutadora. Mas, hoje, depois de colocar o negócio no ar e começar a empreender, sofre com a necessidade de manter uma vida plena à partir do próprio negócio. Apesar de inovador e muito bem intencionado, o negócio ainda não se sustenta financeiramente e os recursos disponíveis não dão conta do que precisa ser feito para o negócio crescer, o que a deixa frequentemente frustrada e desmotivada.

Quem nunca acreditou ser grande o suficiente para mudar o mundo, não é mesmo? Alguns o fizeram: Google, Uber, Facebook, Twitter, Airbnb e outros tantos ajudaram a tornar o mundo o que ele é hoje: diferente do que ele poderia vir a ser caso tais inovações não viessem a existir.

Mudar o mundo parece ser algo para poucos, entretanto. Mais do que isso, parece ser uma bandeira cada vez menos levantada por empreendedores e fundadores de startups. Será que “mudar o mundo” é realmente o que queremos? ou há uma forma melhor de enxergar o que nos motiva a empreender nossas ideias? Nesse texto eu coloco minha perspectiva sobre esse fenômeno e te ajudo a refletir sobre como se posicionar em toda a contemporaneidade que hoje nos cerca.

Mudar o mundo não é ambição exclusiva de empreendedores e entusiastas da tecnologia. Na verdade, essa ideia nasceu junto com o que chamamos de “Era Moderna” ou simplesmente modernidade.

À partir do final do século XV o mundo se via no início de um processo de transformação. O Humanismo, a Renascença e as grandes descobertas marítimas marcaram a nossa transição para o mundo moderno e também para uma nova forma do homem se relacionar com o mundo: a racionalidade.

Foi Descartes que inaugurou a era moderna para a filosofia. “Cogito ergo sum”, o famoso “penso, logo existo”. A razão — e sua ferramenta: a ciência — eram a nova salvação da humanidade. No século XIX, o grande entusiasmo em torno da revolução industrial, do domínio da conversão de energia em movimento, das grandes descobertas sobre eletricidade e magnetismo, nos fez acreditar em um futuro glorioso pela frente.

A era moderna afirmava o poder do ser humano em transformar o ambiente ao seu redor. Com o poder do pensar ele podia criar, mudar, remodelar o mundo em grande escala. Tudo isso graças ao método científico e a busca pela inovação. O progresso se tornou a nova esperança de um mundo melhor, e para isso era preciso continuar transformando o mundo. Mudar o mundo se tornou projeto de ambição de muitos, nossa grande obsessão. A felicidade, a justiça social, o bem estar humano poderiam ser alcançados sem que precisássemos esperar por Deus, o paraíso seria aqui na Terra mesmo, no futuro criado pela racionalidade.

Mas não foi bem assim…

O século XX chegou levando o projeto modernista para seu ápice. Ao contrário do prometido paraíso, nos deparamos com algo muito mais parecido com o inferno. Guerras de âmbito global, extermínio em massa de minorias, tiranias cada vez mais autoritárias e repressivas, fome crônica em vários pontos do mundo, armas capazes de extinguir a própria espécie humana. A Guerra Fria finalmente marcou o fim desse projeto e a queda do muro de Berlim foi talvez o grande momento de encerramento dessa era.

De fato levamos um bom tempo para entender que não há uma essência intrinsicamente boa no progresso. Criamos o transporte aéreo rápido e com ele o desastre aéreo, criamos a energia nuclear e com ela, Chernobyl. Criamos as redes sociais e com elas novas formas de crimes, de exploração infantil e de bullyngs virtuais. E é na descoberta da senha do smartphone do cônjuge onde nascem muitos dos divórcios que vemos por aí.

A inovação em si não está em julgamento aqui, mas a relação que temos — ou que precisamos ter — com ela. O projeto moderno se ancorava na razão e, com isso, no poder do sujeito (o ser humano) de transformar o objeto (o mundo) para que esse objeto se tornasse aquilo que o sujeito via como necessário para cumprir a sua própria agenda de progresso. Nessa relação, o sujeito vê e considera o mundo como mero espaço para implementação de suas ideologias, idealidades ou interesses. Nessa relação, apenas estamos no mundo.

Agora vivemos em um cenário pós-moderno. Nesse cenário, o presente é mais importante que o futuro, tornando a jornada tão ou mais importante do que o destino. As relações são líquidas. A próxima verdade é só mais uma perspectiva; e sujeito e objeto se fundem para criar uma perspectiva individual de conexão com o mundo. Tudo afeta a todos. Não estamos mais no mundo, somos o mundo.

Assim, nessa perspectiva contemporânea o sonho de “mudar o mundo” se esvai na medida que entendemos que o mundo não é mais aquele objeto inerte que serve de receptor para a implementação das nossas idealizações. O mundo é o próprio viver do sujeito. Formamos com ele uma relação de entrelace que vez ou outra escapa e se desconecta do que queremos.

O esforço reside, dessa maneira, em se manter esse encaixe enquanto ambos se movimentam e se transformam de forma interdependente a cada dia.

Assim, para nos sairmos bem no mundo contemporâneo, é preciso uma nova maneira de se relacionar com ele. É preciso se conectar com ele. É preciso encaixar o que você quer com o quê o mundo precisa. Encaixar-se com ele, não tentar mudá-lo. Ao invés de se perguntar “como mudar o mundo”, pergunte-se “como viver melhor nele”. As respostas a essa pergunta te surpreenderão.

Reflita:
Como a sua empresa, ou o seu negócio ajuda a você e a todos os envolvidos na sua cadeia de valor a viver melhor no mundo que existe hoje?

O erro da nossa amiga Ana está em colocar a sua ideologia de salvação do mundo acima do próprio viver. É preciso se apaixonar pelo problema que se tenta resolver, não pelo produto ou pela ideia! E então constantemente modelar a solução de forma que não se perca esse encaixe entre você, seu negócio e o mundo.

Assim, é necessário um esforço contínuo de encaixe:

  • psicológico: o que você faz se encaixa com o estilo de vida que você quer viver? você vive uma vida boa fazendo o que faz?
  • econômico: a receita gerada supera o custo total? você sabe no centavo qual o custo total para operar? o negócio sustenta o estilo de vida que você quer ter?
  • social: você ajuda as pessoas na sua cadeia de valor (equipe, clientes, etc) a viver melhor? você as ajuda a resolverem problemas concretos? você as ajuda a economizar ou ganhar tempo ou dinheiro?
  • profissional: você busca superar os seus níveis de excelência produtiva para fazer o melhor dentro das restrições existentes?
  • existencial: você tem um porquê capaz de sustentar as dificuldades e desafios do seu “como”?

Quando for começar o seu negócio (ou enquanto tenta melhorar o que você já tem) tenha certeza que o que você faz é motivado pela necessidade de se encaixar melhor com o mundo, pela necessidade de viver melhor. E aí vamos deixar que o mundo mude positivamente porque vivemos melhor nele; e não porque ele supostamente precisaria ser tornado diferente só para atender aos nossos desejos, por mais bem intencionados que eles sejam.

Isso já tentamos… e não deu certo.


Quer saber mais? Assista a esse talk correlato:

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