Pães com trigo, tempo e tradições

Casal unido pela migração faz panificação à moda antiga

Oscar e Claudine: valorização dos pães portugueses (foto: álbum de família)

Na árvore genealógica da engenheira de alimentos Claudine de Sá Botelho, há mais estrangeiros que brasileiros. O marido Oscar é uruguaio e os quatro avós e o pai Antonio Julio nasceram na região lusitana de Bragança. E seus laços com Portugal e Uruguai vão além da família. Pães feitos como nesses países têm feito sucesso desde 2012 na La Panoteca e Panfolia Slow Bakery, padaria do casal em Curitiba — também Claudine experimentou de perto a migração, por ter deixado São Paulo rumo a Nova Iorque e depois a Curitiba.

Duas gerações de imigrantes convergem na família de Claudine. O avô materno Antonio Augusto era jovem quando deixou a penúria e o alistamento militar rumo ao Brasil (com escala na Espanha) no porão do navio. Considerado desertor, não poderia voltar ao país nas décadas de 1920 até 1950 — quando voltou, foi com a família e ali moraram poucos anos. No Brasil, tinha sido estivador no porto de Santos até dores na coluna o levarem a trabalhar em São Paulo. Foi lá que conheceu a esposa, que deixara Bragança aos 12 anos com a mãe viúva e quatro irmãos e trabalhara como doméstica, e que abriu uma indústria de produtos químicos para tecidos e automóveis e um bar-mercearia, onde vendia pães de uma padaria próxima (a Carioca, cujos donos eram portugueses). Seu genro veio a ser um bragantino morador da mesma rua da família no Belém.

Claudine com avós maternos e, abaixo, com pais (fotos: álbum)

O pai de Claudine, por sua vez, desembarcou em 1961 em São Paulo, onde se instalou na casa de um casal amigo do pai que obteve a carta de chamada para ele (também seu pai migrara até a cidade anos antes). Seu primeiro trabalho foi de balconista da loja de departamentos Mesbla. Uma lembrança de sua imigração foi a longa travessia do Atlântico; a viagem de volta duraria menos.

La Panoteca: foco exclusivo em pães e acompanhamentos (foto: Lis Vilaça)

O casal radicado em Curitiba valoriza a diversidade regional de pães em Portugal. De acordo com eles, o país tem mais de 70 tipos de pães e algumas receitas têm sido resgatadas na padaria, que só vende pães e bebidas para acompanhá-los — nem pense em encontrar cigarros lá. As trocas trimestrais na linha de pães à venda reflete a diversidade das tradições panificadoras lusa e uruguaia. Tão valorizados quanto as origens dos sócios são dois ingredientes de que não abrem mão: farinhas integrais (de trigo, centeio, cevada e milho) e a fermentação natural. Aberta quatro horas diárias entre 2as e sábados, a padaria forma filas que parecem consagrar essa panificação tradicional.

Claudine Botelho e Oscar Luzardo (La Panoteca) foram entrevistados em julho de 2016, aos 44 e 46 anos.