Retratos da imigração portuguesa no Brasil: entrevistados do projeto “Sonho e pão”

Portugueses do Brasil e valor da imigração

Algumas palavras sobre projeto “Sonho e pão” e suas histórias de imigrantes

“Por isso hoje eu acordei/ com uma vontade danada/ (…)/ de beijar o português da padaria”. Em vez de beijar o imigrante, como na letra de Zeca Baleiro, tive tempos atrás vontade de entrevistar portugueses donos de padaria para ouvir suas histórias, que tendiam a ter algo em comum — ou nem tanto, eu sabia — com a saga da minha família materna, que, no início dos anos 1950, trocou a Bairrada, região conhecida por um prato típico de leitão, por Bangu, bairro carioca mais famoso pelo calor e seus presídios.[1]

O que estaria por trás de mudanças como essa? E o que encararam por aqui tantos e tantos portugueses?

Para se ter uma ideia, Portugal é a pátria do maior grupo imigrante daqui no século XX. Na virada do século, mais de 1/3 dos 510 mil estrangeiros no país tinham nascido lá, mais do que o triplo de japoneses (10,3%).[2] Devido ao idioma comum, sua presença pode até ser menos perceptível que a de outros imigrantes… e, justamente por razões como essa, vale saber mais sobre tais imigrantes “camuflados” pelo idioma (nem tanto pelo sotaque). Quis então partir dessa imagem associada há muito a portugueses: dono de padaria.

Fiz as entrevistas com panificadores em Belém, São Paulo, Curitiba, Niterói e Rio de Janeiro e publiquei 15 miniperfis de portugueses (ou seus filhos) neste blog Sonho e pão: sagas da imigração portuguesa no Brasil. O projeto de site e livro sobre o tema me fez obter a bolsa Criar Lusofonia, do governo de Portugal, o que foi decisivo para levar a ideia adiante (e a outras cidades). A seguir, resumo essas vidas reinventadas após a imigração e narradas pelos próprios protagonistas (ou pelos filhos, em alguns casos).

Apresento os perfis como episódios de uma temporada de seriado (cada um pode ser lido no link do título dos “episódios”):

1. Sobre meu avô — chefe de família e dono de fábrica de licor imigra aos 27 anos para evitar serviço militar. Troca vida de patrão pela de ajudante de padaria em Bangu, onde o casal começa dividindo o lar com outra família. Suas estórias incluem a festa de aniversário sem aniversariante presente e os cochilos sem colchão.

2. Nos passos do pai — menino de 7 anos troca norte de Portugal pelo do Brasil, para conhecer e morar com o pai, que há 12 anos trabalhava em Belém e se tornara dono de mercearia. Frustrado no início por sentir saudade dos avós e muito calor, ele passa a avaliar a imigração com outros olhos depois de um romance.

3. Uma fuga, um diploma e pasteis de nata — filho de imigrante clandestino fixado em Belém conta história do pai desde a fuga no convés do navio e fome morando na rua até os vários negócios na capital paraense. No presente, o filho, que cursa doutorado em universidade lisboeta, faz de sua pastelaria um tributo ao pai.

4. Empreendedorismo com versatilidade — membro da última leva de imigrantes a entrar no Brasil via carta de chamada não assinada pelos pais (restrição criada pelo regime militar, em 1964), um hoje bem-sucedido panificador narra as agruras do início e investidas em vários ramos do comércio, como roupas e autopeças.

5. Em busca da “árvore das patacas” — português que veio jovem para o Brasil por não ter a altura mínima para migrar para o Canadá conta como seu país de adoção, onde o pai vivera décadas antes, era visto como capaz de garantir a quem viesse muita prosperidade, afinal a terra prometida seria a “árvore das patacas”.[3]

6. Dinastia de panificadores em São Paulo — neto e filho de portugueses panificadores segue a trilha familiar e narra história do avô, que dormiu em saco de farinha ao chegar ao Brasil depois de sua família empenhar ovelhas para pagar viagem de navio. Herdeiro da tradição hoje vende seu pão com codinome “rei da broa”.

7. Saudades e promessa de futuro — paulistano conta que sua mãe, do norte de Portugal, embarcou grávida dele para reencontrar o marido com quem recém-casara. O pai dele e os 11 irmãos deixaram a lavoura da família, onde produziam azeite, vinho e bagaceira. No Brasil, ele foi de balconista e cocheiro a panificador.

8. Imigração na maioridade — para fugir da fome e penúria, jovem do Minho imigra prestes a completar 18 anos. Fixado a princípio em Recife, ele acordava às 3h da manhã para vender pães de porta em porta, como narra o filho, que conta da mudança para São Paulo após doença e casamento com a namorada por cartas.

9. Imigrante e panificador acidental — jovem desiste de serviço militar em territórios portugueses na Índia ou África e, nos anos seguintes, prospera no comércio em Curitiba, após período em São Paulo. Sua saga inclui abertura de padaria com ajuda de moinho, se desfazendo de estoque de sapataria que ficou no papel.

10. Pães com trigo, tempo e tradições — filha e neta de portugueses e seu marido uruguaio fazem pães com receitas típicas dos países de suas origens. Ela diz que o avô materno teve indústria química em São Paulo e teve bar-mercearia que vendia pães de terceiros. Seu pai começou vida no país como balconista da Mesbla.

11. Trazendo doçuras de além-mar — casal lusitano renova receitas de doces e pães de seu país em Curitiba, após dificuldade para adaptar a ingredientes como o açúcar de cana e farinha dos trigos latino-americanos. A história inclui o casamento mantido via Skype e a decisão de migrar em meio a recente crise em Portugal.

12. Quatro décadas de pão e um recorde — ex-líder sindical da indústria da panificação no Paraná lembra da inauguração de sua padaria pelos antigos donos e na presença de estrelas da novela de TV Antônio Maria. Filho de portugueses, ele conta histórias dos pais e da ousadia que colocou seu nome no livro dos recordes.

13. Uma vida entre pães e versos — alfaiate e clarinetista em Arouca emigra para o Brasil, embora preferisse os Estados Unidos e Angola. No país, ele dá guinada na carreira e se torna dono de uma tradicional padaria em Niterói após ser balconista e revendedor de alimentos importados. Manteve amor à poesia desde cedo.

14. Um veterano da panificação — jovem de 15 anos deixa Portugal para não ser soldado e reencontrar o pai no Brasil, onde vinha trabalhando como pedreiro. Ele vai de funcionário de uma leitaria no Rio a dono de padaria em Niterói. A saga inclui o casamento à distância e um turbulento primeiro voo de volta a Portugal.

15. Casal de comerciantes unidos na imigração — portuguesa conta como ela e o marido só casaram porque emigraram para o Brasil. Se tivessem ficado em Portugal, ele teria entrado no exército salazarista e ela teria sido enfermeira, carreira então exclusiva de solteiras. No Rio, eles criaram família com ganhos do comércio.

O que essas 15 histórias têm em comum? Elas mostram que imigrantes e não imigrantes podem até enfrentar desafios distintos onde quer que vivam, mas, se encontrarem oportunidades iguais, todos estarão aptos a fazer diferença. Origens não devem importar tanto quanto o vigor para trilhar seus destinos.

[1] Desde 2004, a região do complexo penitenciário passou a se chamar Gericinó, mas o nome desse bairro não vingou.

[2] IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2000. Rio de Janeiro: IBGE, 2001.

[3] Antiga moeda brasileira de prata.