Uma fuga, um diploma e pastéis de nata

Filho de emigrante clandestino celebra pai com doces de sua terra natal

José Cardoso, na Casa dos Natas

“É como um tributo ao meu pai”. Nesses termos que José Cardoso resume uma razão para abrir a pastelaria Casa dos Natas no fim de 2015: homenagear um transmontano (natural de Trás-os-Montes) que cruzou o oceano como clandestino em um convés de navio para evitar o alistamento no Exército salazarista. Cardoso se orgulha por seu pai ter trocado a fome e a vida nas ruas pela morada inicial nos fundos da oficina onde foi de mecânico a dono. Os negócios de José Gomes Pessoa incluíram uma empresa de ônibus, posto de combustível, supermercado e quatro padarias. Seu último ano foi marcado por uma perda irreparável: ele sofreu de amnésia após revidar um assalto a uma das panificadoras.

Só em 2015 que Cardoso conheceu o país de origem do pai, que tinha estudado até o segundo ano primário e emigrou sem planos de voltar. O engenheiro aposentado pela Embratel mantém outro laço com Portugal: vem cursando doutorado em sua área na Universidade Nova de Lisboa. Em viagem à capital portuguesa, ele logo se impressionou com as semelhanças entre a cidade e Belém, como seus edifícios, que o fizeram se sentir em casa. Certa falta de familiaridade ficou por conta de pistas cobertas de neve ou gelo que fizeram o Mercedes alugado que ele dirigia derrapar numa estrada no norte.

Ao voltar para Belém, Cardoso abriu a Casa dos Natas, cujo carro-chefe são os pastéis de Belém (um par de sócios portugueses deixou a casa meses depois). À frente da pastelaria estão hoje dois filhos de Cardoso. Na ainda curta história da Casa dos Natas, um imigrante deste século lidera a cozinha: o pasteleiro Hernani Francisco, que atuara na cozinha do Hotel Figueira, na Belém lisboeta, antes de pousar na Belém brasileira.

José Cardoso (Casa dos Natas) foi entrevistado em junho de 2016, aos 60 anos.

José Cardoso e seu filho Diego, no balcão da pastelaria