Light speed / X.Lin Design & Photography

Uma longa viagem multi-dimensional a bordo de um double decker vermelho

Um sonho psicodélico com enigmas de trigonometria e Mavericks turbinados


Estava deitado numa rede à sombra, de férias em Guriri, quando num instante me dei conta que estava em outro lugar.

Estava de pé num gramado verde, próximo a um palco baixo com púlpito e cadeira brancas enfileiradas a sua frente. O clima, as árvores e a arquitetura dos prédios do local pareciam com a do campus de uma universidade norte-americana, com gente do mundo todo conversando em inglês animosamente. Presumi que estava em Stanford ou mesmo na sede do Google.

Encontrei por lá algumas pessoas conhecidas e fiquei sabendo que iria acontecer um pronunciamento importante e por isso eu fora chamado para lá, apesar de não lembrar como.

Uma palestra em italiano havia acabado de começar e decidi que precisava de tradução para acompanhá-la. Logo atrás de mim, duas mulheres distribuíam aqueles rádios para tradução simultânea. Ao pedir um aparelho notei assustado que eu estava sem o meu passaporte. Curiosamente a moça pediu apenas a minha identidade. “Tá ótimo”, ela respondeu. Foi então que percebi que eu não havia chegado lá de avião ou outro meio de transporte convencional, afinal, como eu conseguiria viajar até os EUA sem meu passaporte.

Depois do pronunciamento percebi que as pessoas começaram a ir embora. Notei que algumas delas carregavam uma espécie de folheto estranho no qual um desenho esquemático do edifício da universidade estava impresso.

Numa parte do folheto um disco de papel-cartão girava, fazendo com que parte do desenho não se encaixasse com o restante do desenho do cartão.

Pontos marcados no desenho e um enigma de trigonometria escrito ao seu lado indicavam que seria preciso solucionar uma problema para descobrir como posicionar corretamente o círculo para que o desenho se encaixasse corretamente. Noutra parte do folheto uma tabela complicada dividia em cerca de 12 intervalos as horas do dia.

Resolvendo ambos os enigmas a pessoa saberia exatamente onde e quando apareceria o próximo transporte para casa: um Maverick turbo amarelo e outro azul com listras vermelhas nas laterais.

O tempo ia passando e eu não conseguia de jeito algum resolver o mistério. Percebendo que nunca conseguiria chegar a tempo em casa numa viagem dessas de carro uma revelação me veio a cabeça: os carros eram na verdade máquinas do tempo e eu seria levado de volta exatamente no mesmo horário no qual eu havia sido levado.

Me separei do grupo e caminhei para outra parte do campos. Vi que alguns ônibus circulavam pelas ruas do lugar mas um em particular me chamou a atenção: um double decker vermelho.

Imagine viajar no tempo num double decker vermelho desses?

Eu sabia que havia algo de especial nele.

Sai disparado quando o vi virar a rua para tentar pegá-lo ainda em movimento. Estranhamente, o ônibus não era do tipo com “mão inglesa” e a sua porta ficava na frente ao contrário do normal, que é atrás. Assim que subi o motorista me cumprimentou e pediu que me sentasse logo e apertasse o cinto. “A passagem é de graça”, avisou.

Atravessei a catraca rapidamente. O ônibus acelerava desviando-se dos carros e corria em direção a uma ponte.

— “Vamos pular”, gritou o motorista.

No mesmo instante o ônibus saltou, pairando no ar por alguns segundos, quando pude sentir meu corpo flutuando sobre o banco para logo em seguida cairmos no nível inferior da ponte.

Os carros desapareceram e deram lugar a luzes multi-coloridas em feixes que se contorciam junto com a ponte que agora era uma imensa espiral que girava até desaparecer na noite iluminada agora apenas pela lua.

E foi assim que eu consegui chegar a tempo em casa depois de uma longa viagem multi-dimensional.


Este é meu primeiro texto publicado aqui no Medium. Depois de muito tempo pensando sobre o que escrever, nada melhor do que começar com um sonho psicodélico fresquinho.

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