Banalizando o casamento

Resolvi escrever sobre esse tema que permeia meus textos, mas que nunca foi o tema central, por três motivos: duas conversas com amigas e um texto do Instagram @pessoasnaomono sobre términos.
Em uma das conversas, a amiga estava dizendo que ia morar junto com o namorado e, quando eu brinquei que ela ia casar, ela disse que não, que aquilo não era um casamento, que nem estavam comprando coisas juntos. Falei que pra mim morar junto e casar era a mesma coisa e que independente dessa questão de aquisição conjunta de objetos, o mais importante era a decisão de viverem juntos na mesma casa.
Ok, eu sei que o conceito de casamento na nossa sociedade está ligado à Igreja e/ou ao Estado, mas partindo do pressuposto de que tanto eu quanto essa minha amiga não queremos envolver essas duas instituições nas nossas relações, viver junto com alguém que você escolheu para ter uma relação amorosa, já se configura como um casamento. Eu igualo as coisas mais pra diminuir o peso das instituições do que pra tentar elevar essas relações a esse nível de comprometimento contratual, porque pra mim é desnecessário, ainda mais tendo relações não monogâmicas.
No caso dela, que vive uma relação monogâmica, ir morar junto ao namorado significa pra mim um casamento, mas não porque agora eles vão ter que se chamar de esposo e esposa, ou porque exista a partir de agora uma união indissolúvel ou que se pretenda assim, mas porque vão estar dividindo o espaço e o cotidiano de forma que hoje não fazem.
E pra mim se existe algum valor na ideia de casamento, esse valor é o companheirismo, a possibilidade de facilitar a vida em coisas práticas, a companhia.
É certo que se pode ter isso com alguém que seja amigue (família não porque não pressupõe escolha) e isso não será um casamento. Mas vamos guardar essa primeira chave.
A segunda conversa foi com outra amiga que estava comentando sobre uma crise em seu casamento, este concretizado pela assinatura de contrato entre ela e a parceira, motivada pelo reconhecimento de ambas de que ela não vive sua individualidade da forma como gostaria quando estão juntas.
A não monogamia é um assunto que vem sendo considerado por elas, mas durante a conversa, percebemos que a maior dificuldade da parceira talvez nem seja a aceitação de que ela possa se interessar por outras pessoas e eventualmente ficar com elas, mas uma mudança na ideia de casal que ela tem, pautada numa unidade de comportamento e projetos.
Nesse sentido, reconhecemos que a estrutura da monogamia é antes a forma como você se relaciona com aquela pessoa parceira do que com as demais. E esta é a segunda chave.
No texto que eu citei no começo, ao falar de términos de relações, o pessoal do IG @pessoasnaomono salientou a importância de que a ideia de que um relacionamento deu errado se ele acaba (um traço fundamental do amor romântico) seja repensada por quem está vivendo relações não mono. Porque afinal, é preciso negar essa falácia de “alma gêmea”, de que o amor só dá certo se for eterno, de que a pessoa que é hoje “ex” automaticamente não tem mais valor, só porque não representa a mesma coisa que já representou. Essa é a terceira chave.
Agora vamos começar a abrir as portas.
Quando minha amiga disse que não achava que aquilo era um casamento e que apesar do namorado não ser seu amigo somente, ela estava encarando viver com ele como se fosse mais parecido com isso, ela evocou uma questão financeira. Deu o meu exemplo de quando eu estava sem trabalhar, entre acabar o mestrado e ser chamada no concurso, período no qual meu companheiro segurou as pontas nos boletos sozinho. Para ela esse nível de pacto entre duas pessoas é o que definiria um casamento.
Na minha visão, não diferenciar tanto seu parceiro amoroso de um amigo, e mesmo dentro de uma relação monogâmica, se aproximar um pouco da proposta da anarquia relacional (no sentido de não enxergar um vínculo afetivo/sexual como mais importante que amizades ou outros vínculos) é algo positivo, porque garante a manutenção da sua individualidade frente ao perigo da unidade casal passar por cima de tudo, seja material ou emocionalmente.
No entanto, considerar que compartilhar a vida com a pessoa que você escolheu para ser parceire necessariamente vá te roubar a individualidade e ficar sempre se defendendo disso não é tão bom (mas não estou dizendo que a minha amiga esteja fazendo isso). Porque as vezes acaba se transformando num medo de envolvimento e criando barreiras que dificultam o relacionamento, em nome de uma individualidade que também precisa aprender com outres.
No sentido oposto também vejo questões. Se doar para a formação do casal, deixando de manifestar seus desejos individuais, sejam eles sexuais ou não, vai podando o ser de forma que mais dia ou menos dia, mesmo havendo amor, vai haver descontentamento.
Por isso é importante que em relações não mono a gente não só negue as hierarquias, os poderes de veto e coisas do tipo, mas aprenda a lidar com as pessoas na totalidade da sua individualidade, entendendo que estamos imbricades, que levamos coisas de uma relação para outra, e que por isso, formas paralelas de se relacionar a gente deixa pra monogamia.
Eu vivo esse casamento não assinado, não abençoado e não monogâmico com o pai da minha filha faz quase 6 anos e o que define essa última condição é muito mais a nossa recusa das convenções do que a quantidade de pessoas que ficamos/gostamos/amamos ao longo desse tempo.
Morar na mesma casa, ter uma filha, ter projetos conjuntos, podem ser o que faz com que sejamos lides como um casal, contudo, sempre estamos atentes para que não haja dentro dos caminhos de cada ume interferência tão grande de outre que faça com que vire uma coisa só.
Sair e viajar sozinhes, manifestar opiniões divergentes, ter projetos individuais e, mesmo quando estando no mesmo ambiente, socializar separadamente são coisas simples, mas que já fazem grande diferença.
Por fim, o importante é não esquecer da teoria da escada rolante, nós não estamos esperando sempre que nossas relações subam ao topo e lá permaneçam indefinidamente.
O casamento, seja ele como for, não é o auge das relações, a vitória máxima do amor, ele é uma decisão apenas, que pode acontecer ou não. E que pode acabar ou não.
Então quando eu digo que tudo é casamento é porque eu quero banalizar a ideia e destitui-la desse poder que move mercados e sonhos que se pode dividir em 12 vezes. A partir disso fica mais fácil compreender que a gente, se quiser, pode casar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo ou que também pode não casar com nenhuma e que isso não tem a ver com não amar.
Para se comunicar comigo, inbox para @gabspaceoddity no Instagram 😊

