Oito dificuldades de viver a Não Monogamia

Observo que a maioria das pessoas que estão iniciando sua jornada na não monogamia têm curiosidade a respeito das principais dificuldades que as pessoas que já vivem nessa perspectiva encontram. Acho que quando a gente se depara com algo desafiador, nossa primeira reação é pensar no que vai ou pode dar errado e não nas vantagens que isso vai ou pode trazer.

Pensando nisso, resolvi escrever esse texto, que vai repetir algumas das coisas que já disse em outros, mas aqui vou sistematizar as principais dificuldades que tive e tenho na vivência da não monogamia.

Sair do armário

Eu vivo relações não monogâmicas desde fim de 2012, mas desde 2008 eu queria viver e mantive vínculos, ao menos sexuais, com outras pessoas além do meu namorado da época. A gente teve uma conversa só (em 2009), durante pouco mais de 6 anos de namoro, na qual falamos sobre poder ficar com outras pessoas e só contar se mudasse alguma coisa no sentimento (famoso relacionamento aberto “don’t ask don’t tell”).

Isso na época era a única coisa que eu tinha de repertório, as pessoas que eu conhecia que tinham relações não mono eram nesse esquema e no geral eu considerava que eram relações com pouca ou nenhuma responsabilidade afetiva. Não conhecia quem estivesse vivendo anarquia relacional/relações livres de forma real, nem poliamor.

Quando anos mais tarde eu entrei em contato com a “teoria”, lendo blogs e publicações anarquistas sobre o tema, me senti mais respaldada pra iniciar uma relação não monogâmica mais madura, com responsabilidade, com conversa sobre tudo que deve ser conversado e com a coragem de dizer que eu me relacionava assim e explicar abertamente como era.

Foi muito importante ler relatos, principalmente de mulheres, sobre suas experiências e mesmo que não as conhecesse pessoalmente, me senti mais confortável para sair desse armário e não só construir meu caminho, como estudar sempre mais sobre o assunto.

Encontrar pessoas

Depois que me senti confortável para assumir minha escolha pela não monogamia, percebi que isso não ia resolver todo o problema, porque por mais que estivesse iniciando uma relação legal com uma pessoa, era difícil achar outras pessoas (para além de coisas casuais) que topassem viver afetos nessa perspectiva. A maioria não se importa de ficar, mas acabam surgindo questões quando você mostra que quer estabelecer uma conexão maior. E tem quem se interesse e não chega, porque sabe que você já tem uma relação.

Teve também o mal sucedido trisal, que esbarrou em incapacidades diversas de construir relações não hierarquizadas entre outras mazelas da heteronormatividade.

Mudanças de acordo

Quando comecei a viver de verdade a não monogamia, o primeiro acordo não continuou sendo “don’t ask don’t tell”, mas era um primo descolado dele rs.
Como a gente morava em estados diferentes, conversamos que não precisávamos contar tudo, só se quisesse. Eu até acho que isso fazia sentido dado o contexto da distância, e também não acho que honestidade tenha a ver com falar absolutamente tudo o que se sente e faz, às vezes tem coisa que a gente quer guardar ou pelo menos amadurecer até dividir. Isso não significa mentir ou esconder coisas importantes, mas saber diferenciar questões da sua individualidade que não precisam ser partilhadas.

Apesar de fazer sentido naquele momento, depois não fez mais, porque a gente foi morar junto e não tivemos de cara a maturidade de entender que o acordo devia mudar. Dividir uma casa significa ter que saber se a pessoa vai dormir em casa ou não, por exemplo. E se ela estiver com alguém, é melhor que se fale, para todo mundo ficar bem e despreocupado.

Tivemos que passar por uma treta tensa para entender que era necessário para nossa situação falar sobre nossos sentimentos e envolvimentos. Mas depois disso, vimos que era muito melhor e isso nos aproximou muito mais.

Ciúmes

Esse é o item que todo mundo procura nesse tipo de lista! O conjunto de sentimentos que unificamos no ciúme é o que atormenta nossa cultura, justifica a defesa da monogamia e atribui a não monogamia uma aura de evolução espiritual. Mas ao contrário do que muita gente pensa, todo mundo, seja em relações mono ou não mono, sente insegurança, medo de perder, inveja, inferioridade, quando outra pessoa surge no horizonte. Algumas mais, outra menos e isso tem muito a ver com quem se é, como está a relação e com o que a gente quer fazer com esses sentimentos.

A treta tensa que motivou a mudança de acordo foi um grande ciúme que senti. Na época do trisal mal sucedido também senti e mais várias outras vezes, com outras relações também.

Já escrevi em vários textos questões que tive na relação que comecei depois, e na maior parte das vezes, meu ciúme veio de coisas minhas, questões sobre a minha sexualidade, identidade e inseguranças em relação ao caráter de comprometimento do relacionamento. Nunca neguei, apesar de me culpar, mas tento racionalizar e deixar passar.

Energia da nova relação

Esse conceito é mais ou menos novo pra mim, durante boa parte do tempo que li sobre (acho que porque lia mais textos pessoais e/ou com caráter político e menos com um viés da psicologia), não ouvi falar disso, mas acho bem importante falar disso.

Esse novo vínculo que se forma traz coisas novas, empolgação, desejos irrefreáveis, aquela paixão dahora. Todo mundo gosta de sentir isso e não significa que isso seja ruim pra quem já está ali, mas quem já viveu sabe que as vezes pode gerar alguns problemas. Dar muita atenção pra alguém e deixar outre mais de lado, focar sua energia sexual em quem está conhecendo agora, passar a priorizar essa pessoa em algum sentido, entre outras coisas.

Tenho consciência de que já fiz tudo isso, de que não foi legal pra quem estava recebendo menos atenção, mas também sei que é normal e que as coisas vão se ajeitando se todo mundo comunicar suas necessidades.

Quebrar hierarquias

Essa dificuldade é uma que ainda tenho, porque por mais que eu esteja convencida de que Não Monogamia é sobre isso, eu não tenho poder de decidir a vida das outras pessoas e mudar condições materiais que impedem que essa hierarquia de alguma forma ainda permaneça.

Nada disso parte de mim, não priorizo a relação que tenho com um homem, nem gostaria de não viver com a mulher que amo e muito menos acho que registro civil e material genético digam mais sobre afetos do que eles próprios. Mas sou obrigada a lidar com elas dessa forma, pelo menos agora.

Maternidade

Eu comecei a escrever seriamente sobre minhas experiências na Não Monogamia quando fiquei grávida, pois logo entendi que viver a gestação e a maternidade nesse contexto seria complexo.

Ter filhes joga a gente pra toda estrutura familiar mais normativa possível e é uma luta constante se desvencilhar disso e construir o que a gente quer, tanto aos olhos de quem está fora, como conciliar os anseios de quem está dentro.

Não vou me alongar muito, porque todos os meus textos anteriores falam sobre isso, se você ainda não leu, pode acompanhar minha jornada até aqui nesse mesmo Medium. Mas o que dá pra dizer é que, assim como todas as dificuldades anteriores, as coisas podem ser solucionadas com paciência, boa comunicação e terapia.

Isolamento social na pandemia

Por último, vem essa situação bizarra atual. Tema dos meus dois últimos textos, esta dificuldade ainda estou passando, está bem doído e não sei nem quando nem como resolver.

Acredito que outras pessoas que vivem a não monogamia estejam passando por isso, longe de suas parcerias, ou de pelo menos parte delas. As consequências vão desde estarem isoladas e sem muito amparo emocional, até sobrecarga física e psíquica por não estarem compartilhando os cuidados e afetos dos seus amores com seus metamores.

Isso traz a tona toda a configuração da nossa sociedade, como nos organizamos em nossas habitações, o que chamamos de família, o que entendemos por casa e segurança, várias coisas que já falei nos últimos textos.

Enfim, espero conseguir reencontrar em breve quem sinto falta agora, espero que todes possam.

Se quiser se comunicar comigo mande um inbox para o Instagram @gabspaceoddity 😊

Sororidade Não Mono

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Sororidade Não Mono

primeira revista online em português voltada para todas as formas de não monogamia, feita por e para nós mulheres ❤

Gabrielle Dal Molin

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escrevo, dou aula, faço bruxarias.

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