Porque a anarquia relacional deve ser o princípio da não monogamia

Quando escrevo sobre relações não monogâmicas, parto da minha experiência pessoal, mas também de leituras e diálogos com outras pessoas que também se dedicam a pensar sobre o tema. Nesse sentido, a maioria dos meus textos aborda questões a respeito de vivências dentro do poliamor não hierárquico, mas também já trouxe pontuações sobre relacionamentos abertos, anarquia relacional e relações livres, inclusive de passagens que tive por elas.

Percebo que há dentro do grupo de pessoas que produz conteúdo sobre não monogamia, visões diferentes, que culminam ou em centralizar o debate nos formatos de relação ou em questões sociopolíticas que permeiam o rompimento com a estrutura monogâmica. Eu pessoalmente acho que há demanda para ambos, embora creia que o primeiro possa apenas reforçar a “não monogamia liberal” e na minha produção, tanto escrita quanto em debates em lives e entrevistas, eu tente unir as duas coisas, por acreditar que seja mais produtivo que as pessoas consigam agir politicamente com suas emoções, entender que o pessoal é político e que as revoluções começam (e talvez só existam de fato) dentro da sua própria vida.

Esse pensamento eu tenho desde que, há uns 13 anos, comecei a estudar sobre anarquismos e o pensamento libertário. Coloco no plural, porque o que podemos chamar de pensamento anarquista e libertário, como não são pautados em um autor ou em uma bibliografia específica, são amplos, se ligam a diversas outras filosofias e movimentos sociais como os feminismos, o sindicalismo, a cultura punk, lutas étnico-raciais, o veganismo/antiespecismo, movimentos LGBTQIA, entre outros.

Apesar de não haver autoria nem liderança intelectual do pensamento anarquista, existem princípios como a autonomia, a autogestão, a não existência do Estado, o anticapitalismo (ancap nem existe), a recusa da burocracia, a horizontalidade, o respeito à individualidade e rechaço ao individualismo, que são fundamentais para construir qualquer experiência anarquista. No percurso dos meus estudos, logo me deparei também com a perspectiva libertária das relações amorosas e da vivência em família. E foi a partir disso que eu me interessei em buscar mais sobre o tema e me lançar na empreitada de viver a não monogamia.

Considerando-me anarquista, desde que li “Os grandes escritos anarquistas” organizado pelo George Woodcock, toda minha ação política é orientada em menor ou maior grau por esses conceitos norteadores. A escola é um espaço que nem sempre consigo agir como gostaria, porque como professora de rede pública estou atada muitas vezes pela burocracia estatal, mas já tive experiências numa escola libertária e tento trazer o máximo dela para as escolas estaduais por onde passo. Da mesma forma, com outros espaços e âmbitos, e dentro das relações afetivas, passei a construir minha trajetória na não monogamia, a partir das relações livres (na época no Brasil não se falava muito em anarquia relacional) que enxergava ser a materialização do pensamento libertário no campo das emoções.

Estou falando tudo isso para dizer que, apesar de não me colocar atualmente como uma pessoa que pratica anarquia relacional, eu considero ser impossível desassociar a não monogamia dos princípios libertários dela. Com isso estou querendo dizer que formatos de relação que nem ao menos interrogam a norma monogâmica não são de fato não monogâmicos.

Uma relação aberta que preserva o casal como núcleo intocável e cria mecanismos de proteção do afeto para que ele não corra louco pelos campos infinitos da pegação não está rompendo com a estrutura monogâmica. Uma relação poliamorosa que, apesar de trabalhar com a ideia de amor compartilhado, permanece alimentando a ideia de que existem pessoas que merecem mais ou menos atenção e cuidado, de acordo com a hora em que chegaram, com o seu gênero, ou qualquer outra categoria, não está rompendo também. Uma relação poliamorosa que, apesar de não ser hierárquica, continua separando com limites muito bem definidos quem é amor, quem é amizade, quem é família, quem não é, também não está fazendo tudo que podia fazer por si mesma.

E é nesse ponto que quero me ater, porque, na minha condição de mulher-cis-mãe eu não me vejo uma real praticante da anarquia relacional, porque de fato existem, na minha condição material, diferenças entre quem eu chamo de amor e quem eu chamo de amigue, existe quem compartilha comigo a criação da minha filha e quem não compartilha, eu não estou inserida numa rede horizontal, embora poderia se os caminhos da vida tivessem sido outros.

No entanto, eu continuo considerando que os princípios da anarquia relacional de entender que todas as relações devem ser iguais; de que a ideia de amor deva ser estendida ao máximo até se esgarçar e deixar de carregar consigo o peso do amor romântico burguês, passando a adquirir mais contornos de solidariedade e companheirismo; de que a partir disso possamos considerar que todas as pessoas de que gostamos são nossos amores e nossa família, sem as implicações tradicionais que isso envolve na nossa sociedade; sejam o melhor caminho e ando por ele o máximo possível.

Nesse sentido, não entendo a pertinência de questionamentos comuns do tipo “como falar para filhes que sou não monogâmico?”, “como apresentar metamores para filhes?”, “como lidar com términos quando filhes conviviam com a pessoa?”. Oras, você vai lidar como lida com qualquer outra pessoa que convive com suas crianças!

Por que haveria diferença entre uma parceria e outra? Por que uma chegou primeiro? Por que tem vínculo biológico? Até onde estamos indo na não monogamia se quando pensamos numa convivência em família continuamos presos nessas categorias de parentalidade? Não seria melhor entender que qualquer adulto que conviva com a criança tenha que se responsabilizar igualmente por ela, da mesma forma que pode e deve amá-la, independente da relação que tenha com a pessoa que trouxe ela ao mundo?

Defendo então que, por mais nos vejamos dentro do espectro do poliamor, que a anarquia relacional seja nosso princípio, pois seria até uma contradição falar que existe alguém que viva dentro de uma “anarquia relacional estrita”. As experiências libertárias são múltiplas e nossa compreensão sobre nossas emoções também muda com o tempo, com a maternidade/paternidade e mais inúmeros fatores.

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Gabrielle Dal Molin

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escrevo, dou aula, faço bruxarias.

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