Precisamos falar de She’s Gotta Have It

Na minha timeline estava cheia de mulheres falando da ansiedade por essa série, já que era uma mulher negra como protagonista de uma série sobre poliamor. Difícil mesmo não ficar no mínimo entusiasmada.

Mas confesso que estou muito frustrada com essa série.

A sinopse na NetFlix:

Nesta série baseada no primeiro sucesso de Spike Lee, Nola Darling corre atrás de seus sonhos enquanto faz verdadeiros malabarismos para conciliar seus três amantes.

A minha sinopse sincera:

Nola Darling é uma mulher egoísta que não tem nenhuma responsabilidade afetiva com suas parcerias sexuais/amorosas e amizades e usa a liberdade sexual feminina como álibi para sustentar suas atitudes escrotas.

A primeira coisa que temos que deixar claro aqui: É uma série de autoria de um HOMEM MONOGÂMICO. Isso é muito importante e faz toda a diferença.

E que comecem os Spoilers

Nola tem relações sexuais quase nada afetivas com 3 homens. No meio da série aparece uma mulher, mas o foco da série são esses 3 homens.
Esses 3 tem tantas problemáticas que cabe aqui falar de cada um.


  • Mars Blackmon

Ex namorado de uma das melhores e mais antigas amiga dela. A amiga saiu bem machucada dessa relação porque o cara foi escroto com ela. E mesmo assim Nola cagou tanto para os sentimentos da amiga quanto pro fato dele ser um escroto.

É aquela coisa né migs, o fato do cara não ser escroto com você e sim com outras não significa que você é especial, mas que você será a próxima.

  • Jamie Overstreet

Um homem CASADO MONOGAMICANTE.

Eu preciso repetir isso: Ele é um homem casado monogamicamente.

Sabe aquele esquerdomacho poeta? Então, é o Jamie Overstreet.
O cara faz poemas de amor e fala sobre alma gêmea.

Em um episódio a esposa dele pergunta se Nola era mais uma alma gêmea, se ele também fazia poemas para ela. Ou sejE, ele fazia isso com todas.

A série não problematiza isso, e sim romantiza a situação.

Semana passada ocorreu um debate em grupos poliamoristas no facebook sobre mulheres que saem com homens casados monogamicamente. A pergunta era: Um cara casado te chama para sair e você aceita, quem esta errado, quem aceita ou quem convidou?

O que choveu de relativações e mulheres responsabilizando APENAS o cara casado, não está no gibi. Eu fiquei muito chocada.

E um comentário fez meu coraçãozinho voltar a ter esperança:

Eu sinceramente acredito que exatamente por ser não mono assumida, é necessário recusar uma proposta dessas. Não digo que seja fácil (no caso de vc gostar da pessoa), mas há uma militância a zelar. E para que a sociedade entenda que poli não é bagunça, é mais do que necessário haver esse senso de responsabilidade afetiva com o terceiro na prática, mesmo que este (ou esta) seja mono.
Cecilia R. Nóbrega

Acredito que esse comentário fala por si e toda a problemática sobre o tema.
Obrigada de novo Cecilia por esse comentário maravilhoso.

  • Greer Childs

Olha, esse cara… Eu sinceramente odeio esse personagem. Sério.

O cara é narcisista assumido. 
Em um episódio que conta como eles se conheceram, ele fala que o que fez ele se interessar por Nola foi o fato dela não ter demonstrado interesse por ele.

Ai mano, na moral, eu não tenho mais paciência pra esse tipo de omi não, mandando a real aqui. Esse tipo de cara me cansa muitíssimo.


Nola se frusta com os caras e seus machismos e resolve dar um tempo de todos eles.
No começo desse episódio ela começa falando sobre isso, dizendo que quer dar um tempo e quer um tempo para ela. E ai vem a frase: “Mas isso não significa que eu vá ficar sem sexo.”

E aí quem entra na jogada? Opal Gilstrap, uma mulher que Nola saiu tempos atras, mas Opal se apaixonou e queria firmar a relação e aí Nola meteu o pé.

Ou sejE, Nola procurou ela por puríssimo egoismo, como um homem cis hétero faz, sabe?

Sabe aquele cara que te procura as 11 horas da noite, quando claramente ele tentou sair com todas as outras mulheres mas não rolou e ai foi até vc?
Ou aquele cara que você era apaixonada mas aí ele disse que não queria nada sério, mas vai até você as vezes pra sexo?
Então, temos a versão feminina dele aqui: Nola Darling.

Esse foi um dos momentos da série que mais me incomodou. Usar uma mina que gosta dela foi o fim da picada.

Ela até leva pra terapia como ela se sente segura com Opal e toda a problemática e dificuldade dela em confiar em homens. Mas isso nem de longe da o direito dela usar uma mina que gosta dela. É usar o machismo como desculpa para reproduzir o mesmo de forma romantizada.

Com a graça da deusa Opal se impõe e não deixa Nola continuar a ser escrota com ela.

E o episodio final… GEZUIS

Ela simplesmente chama os 3 para um almoço de ação de graças, sem eles saberem que os 3 foram convidados.

A série colocou isso como a forma que ela encontrou de ser sincera com os caras.

Porque conversar individualmente com cada relação sobre como ela se sente, em vez de colocar os 3 para conversarem entre si sobre a relação que cada um deles tem com ela não era possível, não é mesmo?

Quero deixar claro que o que Nola Darling vive NÃO É POLIAMOR.

Ela não fazia nenhum acordo com os caras, ela imponha as regras dela. Isso não é acordo. Isso nada mais é que aquele cara que faz sexo com você e diz que não quer nada sério.

Estão, She’s Gotta Have It é mais uma série que tem nada de Poliamor, mas usa essa nomenclatura porque dá ibope.

Se você quer saber mais sobre Poliamor, busque textos escritos por mulheres que já estão a um tempo no rolê.

Indico Laura Pires e Sharlenn Carvalho para começar.

Beijas.

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