Sereias urbanas em águas podres

“Dentro da água, estamos sentindo um cheiro de fossa”

O modismo sereísta espalha suas caudas nas areias digitais, com acessórios de conchas, unhas brilhantes e cabelos coloridos. Ao mesmo tempo, muitas das praias que servem de cenário aos ensaios fotográficos das sereias, tritões e seapunks do Instagram estão pedindo socorro. Pior, em muitos locais, a qualidade da água do mar está colocando em risco a saúde de todos os tipos de seres marinhos.


Enquanto sereias montadas capricham na pose com a hashtag #sereísmo, o simples contato com a água em praias como São Conrado, no Rio de Janeiro, pode ocasionar danos diversos à saúde. É preciso tomar cuidado para que a photo shoot de verão não vire uma dor de cabeça, uma dor de barriga, uma dor no corpo todo, ou algo pior.

Ninguém merece sensualizar pro crush e depois ficar doente em casa, não é? A cútis das sereias é a primeira a sofrer. Primeiro ponto de contato, a pele fica exposta a bactérias e fungos que podem provocar micoses como o bicho geográfico, um verme que “escava” a pele formando lesões em formas de mapa. “Ah, por isso o nome…”. Sim, pequena sereia.

Mas não para por aí, há também o risco de doenças genitais, irritações diversas, conjuntivites, dores de ouvido, infecções do trato gastrointestinal e respiratório, dentre outros. Em locais muito contaminados, pode-se inclusive ter risco de disenterias mais graves, cólera, febre tifoide e hepatite A.

Não são só seres humanos que sofrem, animais também ficam expostos a doenças. Não se deve levar animais de estimação à praia, para evitar essa contaminação e também porque as fezes e urina deles podem piorar a qualidade sanitária da água e da areia.

Em especial, é preciso ficar atento a uma palavrinha: a balneabilidade. Que nada mais indica do que a qualidade da água do mar, e se ela está própria ou não para um bom mergulho.

“O fator que influencia a balneabilidade é, basicamente, a densidade de coliformes fecais, microrganismos presentes nas fezes de animais de sangue quente e que servem como indicadores da poluição por esgoto, pois podem sinalizar a existência de outros microrganismos causadores de doenças. Outro fator que influencia a balneabilidade são as chuvas, pois a drenagem da água da chuva em direção à praia lava as ruas carregando a sujeira presente para rios e para o mar, prejudicando a qualidade da água.”, explica Camila Keiko Takahashi, bióloga do Programa Costa Atlântica da Fundação SOS Mata Atlântica.

Ainda com o exemplo de São Conrado, há cerca de 3 meses, foram recolhidas 5 toneladas de lixo na praia, e a última vez que suas águas estiveram próprias para banho foi em junho de 2014. Ou seja, há mais de um ano e meio que não se pode entrar na água de São Conrado, o que ocasionou inclusive o cancelamento da etapa do Campeonato Brasileiro de Surf na praia em 2015.

E na Barra da Tijuca, onde o campeonato foi realizado, atletas passaram mal e criticaram a qualidade da água. “Dentro da água, estamos sentindo um cheiro de fossa. Não passei bem hoje de manhã depois de surfar” (Wiggolly Dantas).

Esse cenário ocorre em uma cidade que vai sediar, em poucos meses, os jogos olímpicos, incluindo diversos esportes marítimos.

Em Salvador, outro território por onde desfilam sereias e tritões urbanos, 20% dos esgotos ainda deságuam diretamente no mar. O último boletim do Inema aponta que no fim de semana após o Carnaval, 14 das 37 praias da cidade e de sua região metropolitana estavam impróprias para banho, configurando mais de 1/3 das praias urbanas sem condições de banho.

Em outras capitais praianas a situação não é muito diferente. Basta acessar os dados dos boletins emitidos pelos órgãos de meio ambiente — como a CETESB em São Paulo, o INEA no Rio de Janeiro, o IDEMA no Rio Grande do Norte, entre outras — para notar que nossas cidades e governos não estão tomando os devidos cuidados com esse ambiente tão precioso que é o mar.

É por isso que os surfistas, seres que habitam os mares há muito tempo, estão apoiando uma campanha pela despoluição das águas onde praticam o esporte.

Essa campanha cresceu e alcançou outros mares. Agora, diversas organizações apoiam uma petição (http://bit.ly/saneamentoja) pela universalização do saneamento e por água limpa nos rios e praias do Brasil.

Então, você, ser mitológico, quer sereiar de verdade? Abrace essa causa, com cauda de escamas, estrela do mar no cabelo e tudo.

O mar, com todos os seus seres marinhos, agradece. E também os rios que desaguam nele.


Por um final feliz para sereias e para o mar. Imagem do artista Jeff Hong. O ilustrador imaginou alguns dos personagens mais populares da Disney lutando contra as condições atualmente sombrias das alterações climáticas e da poluição.
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