Ele é esse quebra-cabeça ambulante

Em junho, se Raul Seixas não tivesse partido para as estrelas, completaria 70 anos. Um novo livro encaixa mais peças desse cara que nasceu há 10 mil anos atrás


A entrevista abaixo faz parte da reportagem Autor da Zona Norte publica livro com histórias de Raul Seixas, publicada na edição 659 do Jornal SP Norte:


Autor do livro Raul Nosso de Cada Um, Leonardo Mírio realizou entrevistas com pessoas que participaram, cada um à sua maneira, da trajetória de Raul Seixas. São 36 visões, entre fãs, músicos, médicos, mulheres e amigos. Visões que ajudam a encaixar mais algumas peças desse quebra-cabeça ambulante, em uma metamorfose que parece não ter fim.

Abaixo, o historiador e filósofo Leonardo Mírio deixou de ser o entrevistador para ser entrevistado. Agora, é o autor que responde: quem foi Raul Seixas?


Você é historiador, filósofo, e fala no livro que isso é uma forma de transmitir a história do Raul, que já tem vários livros publicados. Ainda assim falta alguma coisa na história do Raul?

Sempre tem. Tem o filme O Início, o fim e o meio. Eu gostei, mas ainda assim faltaram coisas. Muitos criticam porque a versão do filme é a versão do diretor. Cada um que fosse fazer o filme, iria ter uma outra ótica, colocar outras pessoas pra falar. Eu gostei, mas sou crítico. Às vezes deram destaque pra outras pessoas que não tinham nada a ver com o Raul, em detrimento de outras que poderiam contribuir bem mais, e isso eu fiz questão de colocar no meu livro (o título).

Foram 36 entrevistas. Em quanto tempo?

Dez meses, entre Rio e São Paulo e algumas cidades do interior. Eu comecei por Salvador, eu até ia começar a fazer com um senhor que era amigo do Raul, mas ele estava mal de saúde e não fiz.

Tentou falar com o Paulo Coelho?

Não, porque ele mora na Suíça, em Genebra. Nem tentei.

O que você acha da relação deles?

Benéfica em relação à obra, eles se completavam. Pessoalmente eles tinham os problemas deles, era uma relação muito conturbada. E isso, tanto o Raul como o Paulo deixaram explícita essa relação conturbada. Mas, para o trabalho dele, foi perfeito.

No livro, o Raul tem várias mulheres e a única que está é a Tânia. E as outras?

As duas primeiras são americanas e moram lá, a Edith e a Glória. A Kika mora no Rio, eu a conheço, estive com ela algumas vezes, mas não cheguei a entrevistá-la, e eu até posso fazer um outro volume com ela. A Lena mora nos Estados Unidos também.

Na Zona Norte, tem dois personagens (Sylvio e Aguinaldo). Tem alguma outra história do Raul na Zona Norte além daquelas que estão no livro?

O Sylvio é do Edu Chaves e o Aguinaldo é do Jova Rural. Acredito que sim, viu. São histórias fantásticas. O Sylvio tem muita história pra contar (sobre um novo volume). E eu sou do Tucuruvi, desde pequeno.

Outra coisa que eu senti falta e achei estranho, é que muitos entrevistados não falam da ditadura. Foi uma coisa natural deles, que não falaram, ou o Raul não teve tantos problemas assim com a ditadura?

Foi uma coisa natural mesmo. As pessoas falavam, as deixava livres porque as perguntas iam mudando, dependendo da resposta. Em relação à ditadura ele conseguiu, durante um tempo, enganar através das músicas dele, e depois chegou uma hora que começou a incomodar, por causa da Sociedade Alternativa, que achavam que era um movimento… Então teve uma perseguição.

Eu ouvi um áudio do Raul que ele fala sobre tortura, que foi exilado pros EUA…

Eu desconstruo essa história. Porque como que o Raul iria, sendo torturado, e a ditadura que teve aqui no Brasil foi toda amparada pelos Estados Unidos? Como que ele, sendo torturado, ia parar lá? Por mais que o Raul adorasse os Estados Unidos, ele tinha paixão pelas músicas americanas, seria… Por que ele iria pra lá? No caso, foi mais uma estratégia até de marketing pra eles. O Paulo disse que foi torturado… Foi mais pra alavancar a carreira do Raul, porque o disco estourou, realmente. Ele se auto-exilou. Ele mesmo foi porque quis, tirou um barato, morou durante um tempo, frequentou vários lugares, encheu a cara, fez várias loucuras por lá. Mas porque ele quis.

Tem dois entrevistados que, enquanto a maioria diz que o Raul era uma pessoa humilde, pela carreira dele introspectivo, talentoso, tem o Sidney Valle e o Fredera, eles metem o pau no Raul. Já o Sérgio Porto descreve a atitude do Raul nos palcos como “uma festa”. O que você acha, depois de acompanhar essas pessoas? Depende do ponto de vista de cada um?

Sim, exatamente. O Fredera foi guitarrista do Raul no início da década de 1970, era um outro Raul. Em 80, o Raul já estava morando em São Paulo, estava debilitado fisicamente, entregue ao álcool, então ele pegou uma outra fase do Raul. O Sidney pegou a fase que o Raul estava na decadência física.




Alguns entrevistados citam as drogas de forma mais clara que as outras. Você acha que esses que não citam quiseram preservar a imagem do Raul?

Alguns sim e outros não. Porque alguns realmente não viram o Raul usando drogas. O grande mal do Raul foi o álcool. Acima das drogas, foi o álcool. Então, outros realmente ficaram com medo de passar esse outro lado do Raul, mesmo porque eu não fiquei frisando em cima de droga nesse livro. Eu queria que fosse algo natural, que as pessoas falassem por elas mesmas. Era o Raul, ele era aquilo mesmo que falaram.

Além da ditadura, que eu senti falta, foi a relação do Raul com a mídia. Como que era essa relação?

Ele foi fazer uma apresentação no Silvio Santos na década de 70. E o Silvio meio que ficou indignado com a postura do Raul no palco, e diz a lenda que no camarim eles tiveram uma treta feia, entendeu? E aí ele nunca mais foi chamado pra ir no SBT. Porém, analisando isso, que o próprio Raul falou, que nunca mais faria programa do Silvio Santos, tem uma contradição. PNo final da carreira dele, ele foi no Jô Onze e Meia, que era do SBT.

E com a Globo?

Com a Globo era uma relação de amor e ódio. Ao mesmo tempo que ele estava bem na Globo, a Globo podava ele. Fez o Punct Plact Zuuum, que foi o maior sucesso. Mas ele era da Som Livre, gravou Metrô Linha 743 (1984). Só que o Raul queria que tivesse mais divulgação. E a Som Livre ficava podando… O Raul gostava de alfinetar eles, também. Ele trouxe um músico americano pra Som Livre, que custava a maior grana. E o disco não estava saindo. O Raul queria fazer um clipe. Ele fez um script, e quando chegou lá a Globo fez outro que não tinha nada a ver com o que ele queria, aí tesouraram. Ele meteu o pau na Globo. Só que, em 87, ele gravou Cowboy Fora da Lei, foi pra novela Brega e Chique, e fez um clipe pro Fantástico. Em 89 ele foi no Faustão com o Marcelo Nova. Então tinha uma relação com a Globo de amor e ódio.

Marcelo Nova. O que você acha dele?

Eu enxergo uma parceria. Uma amizade, que culminou numa parceria, e eles eram como se fossem sócios. Os dois precisavam de grana. O Marcelo estava saindo do Camisa de Vênus e tava querendo começar sua carreira solo, ele não tinha um nome. O Raul já tinha um puta de um nome, sempre teve. E o Raul tava caído. Gravadora nenhuma queria saber dele, ele tava isolado, no ostracismo. A Eldorado foi a gravadora que salvou a carreira do Raul. Aí você pega um Marcelo Nova que queria deslanchar a carreira solo, o Raul querendo voltar a ser Raul… Então foi uma parceria que deu certo, sem mídia nenhuma, os caras fizeram quase 50 shows, no Brasil inteiro, um puta de um sucesso. Só que nem chegou a terminar essa turnê por que o Raul morreu antes.

De todas as histórias, qual te surpreendeu mais?

Ah, são várias né? As artes do Raul eram… Eu dava risada na hora! A que o Sylvio falou, da dentadura… A do Palhinha, que eles estavam em Monte Verde e o Raul ligou pra recepção, ligou pro casal de coroas e ele falou “I wanna fuck!” pra mulher… Ela passou o telefone pra ele e o velho saiu nervoso, chutou tudo!

Tem a do peixe também.

Sim, sim, e você vê que cada um contou a sua versão dessa história. O Raul gostava muito de comida japonesa. E ele queria comer isso aí, ele ficou hospedado no hotel Eldorado. Porque ele era muito problemático, os caras precisavam colocar ele pertinho do estúdio, entrava por dentro mesmo. O Raul aprontava, dava canseira, estourava todos os prazos, trazia músico de fora, enfim… Nessa que ele tava pedindo o peixe, ele queria sashimi, e os caras mandavam peixe frito, à milanesa, e nada! E ele mandava devolver!


O que você acha da frase do cartaz, “O Farol do Século”?

É como se fosse uma frase profética, né? Ele se tornou o mito, acima da obra, acima do humano dele.

O Alexandre Agra fala que o Raul ficava só na teoria, mas não praticava…

Isso. E o Agra só se ferrou com o Raul. Eu acho que o Raul viveu as letras dele…

O Agra diz “a vida dele é a própria obra”…

E por isso que o Raul cantava na primeira pessoa, ele queria que cada um se identificasse com aquilo. Cada um recebesse da sua maneira, e o Raul viveu piamente naquilo que ele acreditava. Ele acreditou na Sociedade Alternativa a vida inteira. Você pega entrevistas dele, já no final de carreira, ele fala sempre da Sociedade Alternativa, que era uma coisa que ele sempre acreditou, idealizou, e que vivia dessa maneira. Mas era diferente a visão dele pra do Paulo. Pro Raul era uma coisa mais filosófica e anárquica. Pro Paulo Coelho era uma coisa mais esotérica, mística.

O que você acha do Paulo hoje?

Eu o admiro como escritor, o Paulo conquistou o mundo. Agora, a relação deles, a parceria foi bacana… Mas, pessoalmente falando, a mágoa que eu tenho do Paulo é que o Raul gostava muito mais dele do que o Paulo gostava do Raul. O Raul era muito mais amoroso. E o Paulo guardou rancor do Raul a vida inteira.

Teve alguma briga emblemática deles?

Ah, teve, teve. Uma em Brasília, que eles quase saíram no tapa, teve uma outra que eles iam reatar a parceria, se não me engano em 82… E aí o Raul ficou no hotel, doido, e o Paulo teve que ficar esperando três dias, o Raul não saía do quarto. E aí, nunca mais.

Voltando à Sociedade Alternativa , o Dr. Luciano Stancka diz que ele tinha alucinações porque bebia, cheirava, fumava…

Primeiro que o Raul não fumava maconha. Ele não era chegado. Fumou? Fumou, mas não era a vibe dele. O negócio do Raul era cachaça e usar droga de vez em quando. Esse era o problema. O Raul conseguia ficar sem droga, mas não conseguia ficar sem beber. O Raul costumava abrir a padaria.

Essa fase começou quando?

Ele sempre gostou de beber. Mas quando ele se enfiou com o Paulo Coelho e começou a inventar um monte de loucura… O Paulo parou, foi esperto.

Mas você acha que ele fazia isso por algum tipo de fraqueza?

Eu acredito, pessoalmente, que o Raul tinha uma depressão… Essa depressão foi por causa das pessoas da vida dele. Por exemplo, a separação com a primeira mulher (Edith). Que ele abandonou, na verdade… Mas eu acho que ele gostou dela a vida inteira. Ficou longe das duas primeiras filhas… E da terceira também acabou ficando, a Kika separou dele e voltou pro Rio. Depois ela foi pros Estados Unidos também. Ou seja, ele ficou sem ver as três filhas.

Muitas das pessoas que estão no livro não conviveram com ele na infância. Tem algum fato que possa ter marcado o Raul?

Sim, as viagens que ele fazia com o pai dele… Tem o pessoal dos Panteras, que foi o primeiro grupo do Raul, que eu posso falar num próximo volume… Foram os livros do pai dele que influenciaram bastante. A paixão pelo Elvis, de infância. O Raul escreveu uma carta pro Elvis. E ele respondeu. Aquilo pra ele marcou. O Raul cantava desde os nove, mas nos 12, 15, ele já era do rock.

Tem o Cláudio Roberto, que conheceu ele bem novo…

Sim. O Cláudio foi uma pessoa que se juntou com o Raul, eles tinham uma afinidade, um comprometimento que fluiu. Foi parceiro mesmo.

O Raul morreu em 89. Você tinha quantos anos?

Doze. Eu gostava do Raul e lembro de quando ele morreu. O primeiro contato que eu tive com o Raul foi no Plunt Plact Zuuum, festinha de criança, via o programa… Ali eu soube quem era o Raul Seixas. Depois disso, em 87, com o Cowboy Fora da Lei, na novela Brega e Chique, era “mulequinho”, gostava de ver novela, assistia, ouvia essa música pra caramba. Mas eu comecei a me amarrar no Raul no ano em que ele morreu. Comecei a ouvir música… Na minha época, o que estava estourado era Legião Urbana, Titãs, Ira!, Engenheiros do Hawaii… O Raul já era uma coisa mais ultrapassada, já não era um destaque. Essas bandas estavam tocando toda hora na rádio. Então o Raul não aparecia muito na mídia essa época. Mas morreu em atividade, nos palcos. Cantava muitas vezes 15 minutos, no máximo meia hora. A galera não ia mais pra ouvir as músicas, ia pra ver. Ele se tornou um líder messiânico.

Como explicar isso?

A verdade dos textos dele. O Raul cantava o sentimento que as pessoas tinham, e ele colocava isso de uma maneira simples. O Raul atingia todas as classes, são problemas que todos tem, ele falava a língua de todo mundo. E ele fazia com que a pessoa se identificasse com o problema. Então era a verdade dos textos do Raul, foi o que tornou ele um mito. Ele era sério em relação ao sentimento dele e no que ele acreditava. Isso fica. Nunca fui em nenhum show, infelizmente.

Tem alguém da sua família que também é fã?

Sim, tem uma prima minha que foi no show dele em Águas Claras, o Festival de Iacanga. O Raul foi, se não me engano, em três ou quatro edições, sempre era o destaque, o pessoal só queria saber do Raul, um bando de loucos, querendo ver.

Como explicar essa relação, das pessoas querendo vê-lo e tacarem latinha?

No final de carreira o pessoal nem fazia mais isso. O pessoal chorava pois via ele debilitado… Nessa época o pessoal queria ouvir as músicas dele… O Raul tinha pavor de palco. O negócio dele era estúdio, por isso ele tinha que beber uma… Muitas vezes a culpa de ele estar bêbado era dos contratantes. O Raul era impaciente, não aguentava ficar num lugar. Porra, via bebida… O Raul com uma cerveja já ficava bêbado, e bluft, ele tinha pavor de palco e subia lá.

O Raul chegava no bar e tomava um copo de vodka…

Isso! Mas eu acho que o Raul fazia isso pra sacanear. Ele gostava de impressionar. Ele catava um copão e matava logo de manhã….. Ele gostava de causar, de ver a reação das pessoas. Mas ele tinha uma dependência total do álcool.

Qual é a sua música preferida?

Meu Amigo Pedro, do disco Há 10 Mil Anos Atrás, de 76.


Qual o disco favorito?

Olha… Se você me perguntasse há um tempo, eu ia dizer que era o disco que eu estava ouvindo no momento… Mas hoje eu posso dizer que é o Novo Aeon.

O que seria aeon?

Pro Raul seria uma nova… Era uma fase que ele tava esotérico pra caramba. Foi uma fase curta da vida dele, curtia essas coisas, mas não se envolvia tanto. O Raul sempre gostava de coisa nova, de mudança… Ele não era um cara sério… Por isso que ele dizia “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”… O Raul tava sempre mudando, entendeu? Ele se contradizia o tempo inteiro, com tudo. As músicas dele, tem as fases dele… Você pega Metarmofose Ambulante, ele era de um jeito, pega Gita ele tá de outro.


Porque Gita?

É a criação do Senhor do livro do Krishna. O Paulo que apresentou esse livro, o Raul já conhecia… Eles leram o livro e escreveram a música. Eles tinham uma capacidade fenomenal de transformar um livro em música. Teve vários livros que o Raul leu que ele conseguiu transformar.

Um exemplo?

Tem Um Messias Indeciso, que se não me engano tem o mesmo nome.

Tem várias músicas dele com nomes “engraçados”…

Mosca na Sopa, Pagando Brabo, tem Fazendo o Que o Diabo Gosta, Paranoia I, Paranoia II, Por quem os Sinos Dobram

Você faz parte do Raul Rock Club?

Desde 89. Tenho até a carteitrinha. (mostra a carteirinha) Essa é uma mais recente! O Raul que falou isso aí (válida em todo o universo). Ele que pediu! O Sylvio Passos, que é o presidente, falou “válido em todo mundo”, e o Raul “em todo mundo o c*, é válida em todo o universo!”.

E a passeata?

Todo ano, em 21 de agosto. Em frente o Teatro Municipal, o pessoal chega meio dia e depois sai em carreata até o Marco Zero na Sé. Isso aí é feito religiosamente, pode estar chovendo, que a galera vai. Vem gente do Brasil inteiro, até gente de fora. Tem outras em outros lugares, mas não são no mesmo dia. Tem um pessoal que agita muito em Curitiba, do Sul… O Sylvio foi, falou que faz um movimento legal. Tem o pessoal de Salvador… Mas como aqui em São Paulo ficou muito forte, eles vem pra cá e acabam fazendo outro dia.

E a família do Raul? Conseguiu falar com alguém?

Tem o Plínio, irmão mais novo, quatro anos mais novo. Não consegui falar com ele.


Você segue a Sociedade Alternativa?

Sim, isso aí está dentro de mim. É uma coisa que você intui, eu reajo a um mundo… Não que eu siga (exatamente) o que o Raul viveu, o Raul é o Raul, eu sou eu. Mas eu enxergo a Sociedade Alternativa… Eu tenho a minha forma de encarar a minha realidade. Mas a Sociedade Alternativa é mais uma questão de liberdade. E essa liberdade que o Raul prega é o que eu acredito.


Tem a frase “Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”…

Isso, essa frase é do Aleister Crowley, o Raul era gamado nele. Mas o Raul seguia todo esse lado. Ele pegou o Livro da Lei, tirou essa frase e usou esse momento do Crowley. Ele lia os livros em inglês,…

O Raul falava bem inglês…

É, porque ele tinha os vizinhos americanos.. Tinha a Petrobras, era vizinho do consulado americano, em Salvador, ele conviveu com os caras. Mostraram o rock pra ele, e ele ficou louco!

Além do Elvis, qual seria outra influência dele?

O Raul era um cara que gostava demais do rock dos anos 50. Tinha Eddie Cochran, Chuck Berry, Little Richard, gostava de Jimmy Vincent… Mas o que influenciou legal, além do Elvis e desse pessoal dos anos 50, foram os Beatles, e principalmente do John Lennon. Gostava também do Bob Dylan.

O Raul era um cara que conseguia… Pode ver: se você ouvir a obra dele inteira, o Raul tinha ouvido pra tudo. Ele não ficou preso ao rock. Tem tudo. Baião, samba, moda de viola. Ele criou o estilo dele. Por isso que quando perguntavam qual era o estilo dele, ele respondia “raulseixismo”. O Raul ouvia de tudo, e conseguia captar aquilo e transformar.

Ele tinha o maestro Miguel, que era um uruguaio, e dizia “Miguel, que quero um som assim: ‘Tabelião do cartório as cinco horas da tarde com uma torta de maçã’”. Aí o Miguel falava assim “AH! Então eu faço em mi menor!”. Era uma loucura. Tudo que estava no disco, ele acompanhava tudo, era muito profissional no estúdio. Acompanhava o disco inteiro. Ele fazia o personagem da música dele. Dava uma risadinha, ou falava uma sacanagem. Por isso que dificilmente você consegue gostar com outro cantor. Ele era o personagem da própria música, incorporava aquilo ali.

O Raul via as artes de uma forma ampla, gostava de Van Gogh, Salvador Dali… Tinha a sensibilidade de captar certas coisas e transformar em música. Ele fazia show porque precisava de grana, tinha que divulgar o disco… Tinha esse desapego com a grana… Você vê, lá no Rio com os policiais… Ele não estava nem aí. A empregada, a Dalva, que ele jogou dinheiro na cama… O Sylvio também conta isso, e não está no livro: uma vez estava no quarto do hotel, depois do show, ele chegou no quarto cheio de grana, jogou e o Raul dormiu. Se fosse um cara sacana, pegava um montinho e ele nem ia perceber. Passava cheque em branco…

Tem um motorista… Se eu fizer um volume dois, eu vou falar com esse cara. É o Antonio, motorista dele no Rio. Esse cara deve ter vivido altas coisas com o Raul. Você imagina: o Raul, em São Paulo, mesmo não estando num estado físico decente, já aprontava. Imagina no Rio, antes dele operar do pâncreas… Ele deve ter zoado demais!

O que você acha do rock nacional hoje?

Foi o que o Raul cantou: “a charrete que perdeu o condutor”. Não vejo uma banda que consiga… Porque o rock’n’roll não é simplesmente… É um estilo de vida, tem que agredir em forma de música, transmitir uma sinceridade. As bandas que tem aqui, eu até entendo que os meninos queiram cantar uma música mais rebelde, mas a mídia não deixa. Aí eles começam a fazer o jogo da mídia e faz “mela-cueca”. A verdade é essa. De verdade: eu considero Chico Buarque, Zeca Pagodinho, muito mais roqueiro do que muito roqueiro por aí. Rock pra mim é atitude. O Zeca é todo malandrão, na linha dele ele é um rocker!

Eu parei no Raimundos. Foi a última banda que eu ainda tinha aquela coisa da atitude. Depois não veio mais nada. Gosto do Legião Urbana, mas assim… Os textos do Renato Russo são bons, apesar de ele ter entrado numa deprê. Mas, se você pegar em um todo, acho o Legião fraco, em relação à harmonia e melodia. Se você pegar o Raul, tem um arranjo, você escuta tudo. Os arranjos do Raul podem ser de época, mas as letras são atemporais. Você escuta um sino, uma harpa, ele enfiava tudo no meio, ele tinha musicalidade. O Legião não muda muito, e com o resto também. Internacional, o que eu mais gosto, a minha linha é dos anos 70. Beatles, Pink Floyd, The Doors… Essas são as minhas bandas de cabeceira. Depois vem Black Sabbath, Deep Purple, gosto muito do John Lennon solo, do Bob Dylan.

Se ele estivesse vivo hoje, o que o Raul acharia do Brasil?

Ah, o Raul era um cara muito crítico, né? O Raul continuaria sendo irônico, e ia esculhambar, com certeza. Ia esculhambar a música, ia ver a degradação da música. Ele pegou o começo do axé. Ele zuou o axé pra caramba. Você imagina que veio depois… É o Tchan, Calypso… O Raul ia tirar um barato!

E a Pitty, que também é baiana?

Eu não sou fã do trabalho dela, mas ela é uma pessoa que é coerente nos textos, nas músicas dela. Ela, dentro desse pessoal todo que eu falei que não curto, ela talvez seja a que eu tenho mais simpatia. Ela tem uma postura completamente diferente, e ela é fã do Raul, né? Regravou uma música, Sou o que Sou. Ela é uma menina que tem uma cabeça mais avançada. Mas, tirando a Pitty, não tem ninguém.

No underground tem as bandas, mas não são de agora. Mas elas não apareceram, né? E a mídia impõe o que quer. Se eles quiserem colocar o rock como foi na década de 80, eles fazem tranquilamente. Eles fizeram isso com o sertanejo… Você pega o sertanejo antigo, tinha uma outra pegada, hoje não, é “mela-cueca” também.

Uma curiosidade: o Raul era do underground na sua época?

O Raul, na década de 70 era uma figura de mídia, no auge, estourado. Tanto que ele era muito cobrado. O primeiro disco estourou cinco hits, o segundo, quatro… No terceiro ele já ficou p* com a Philips, pois achou que não fizeram uma divulgação legal… Esse disco, o Novo Aeon, só foi estourar depois, mais pra frente. Era um disco muito pessoal, daquela coisa que ele vivia de esoterismo. Então as pessoas não compreendiam muito bem aquilo. Logo em seguida ele fez o Há 10Mil Anos Atrás, que explodiu a faixa-título.

E a Tente Outra Vez?

É do Novo Aeon. E depois teve a fase que ele tava com o Cláudio Roberto… Por exemplo, Maluco Beleza não estourou tanto na época, só depois. Ele fez alguns discos pela Warner, que ele ficou bravo pela pouca divulgação. Ele não conseguiu ter o mesmo sucesso que ele teve na época da Philips. Gravou pela CBS, que ele começou a aparecer com Abre-te Sésamo, Rock das Aranhas… Aí vem os anos 80, já veio se destacando. Aí ele ficou 81 e 82 zuado, sem trabalho, ninguém chamava ele…


Ele acabou se queimando por um lado. O pessoal tinha receio de comprar um show dele e ele não ir. A Eldorado, em 83, foi o que salvou a carreira do Raul. Teve o Plunt Plact Zuuum, e aí que explodiu o Raul de novo na mídia: global e o caramba… Em 84 deu uma caída, e depois lançou o Metrô Linha 743. Esse disco é muito conceitual, é pra quem gosta. É mais conceitual que Novo Aeon. É um disco que ele chamava de preto e branco, não tinham arranjos maiores. Teve umas músicas ali, mas não teve um boom.


Em 85 ele não gravou, em 86 tava na clínica… Demorou um ano pra ele gravar Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! que é do Cowboy Fora da Lei. Idas e vindas em clínicas, passou por várias em São Paulo. Esse disco estourou: Raul na televisão, no programa do Raul Gil… Estourou.

O Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! foi gravado na Copacabana, que nem existe mais, mas tá tudo a mesma coisa por lá, a fachada… Não consegui entrevistar ninguém, dizem que todo mundo morreu. Tem até uma lenda que tem uns espíritos lá! Aí ele fez a Pedra do Gênesis, mas não trabalhou muito nesse disco. Eu gosto muito desse disco, tem gente que não gosta, achou mais fraquinho, mostra um Raul mais fraquinho. Em 89, com a Panela do Diabo, era um disco do Marcelo Nova. Ele vivia indo atrás do Raul, convidou o Raul pra fazer parte, uma parceria. E deu certo. Esse disco virou o quarto disco de ouro do Raul. O mais vendido é Gita, depois veio Plunt Plact Zuum, Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! e Panela do Diabo. Mas foi um disco de ouro póstumo, né? Novo Aeon não deu muita vendagem.

Você perguntou pra todo mundo, agora é a sua vez de responder: quem foi Raul Seixas?

O Raul não foi só um compositor. Ele foi um filósofo, foi um cara que soube captar o que estava acontecendo no mundo e teve a sensibilidade de conseguir transmitir aquilo nas suas letras. Foi um humano com virtudes e defeitos, com qualquer ser humano, mas foi fiel à sua obra, ao que ele pensava. Até o fim.