O leviatã de uma sociedade doente

Com a dispersão dos usuários, a cidade fica refém de disputas pelo território e cria, cada vez mais, refugiados urbanos

por @Bruno Viterbo, também publicado no Jornal SP Norte

Naquele 21 de maio, o Centro de São Paulo ardeu. Nas ruas Helvétia e Dino Bueno, o caos: de um lado, o aparato policial militarizado, ornado de balas de borracha, bombas e proteções. Do outro, uma miríade de vidas com o pouco do corpo — e da alma — que podem lhe restar, além de trabalhadores e pessoas que, pela pouca condição social, têm apenas ali uma forma de se sustentar.

Aquela megaoperação na Cracolândia, com o objetivo de acabar com a feira-livre de drogas e prender traficantes, resultou em imagens assustadoras de um conflito que há muito existe na capital. O deslocamento do fluxo revelou a marginalidade dos usuários, uns em condições desumanas; outros, aproveitadores e fornecedores do sofrimento.

Foto: Juarez Santos/Fotos Publicas

Passados quase quatro meses da operação, a Prefeitura passou a instalar tendas de atendimento naquela região, além de outras ações que visam coibir o tráfico. Dispersa, aquela população já se aglomerou na Praça Princesa Isabel, perto do antigo fluxo. Depois, retornou à região anterior e, agora, na região da Estação Júlio Prestes.

Diante de um contexto tão grave e complexo, o debate “Cracolândia: o problema é de todos nós” discutiu o tema nas áreas que cerceiam o assunto: assistência social, saúde e segurança. O encontro, realizado na última sexta-feira (1º/9), foi proposto pelo Deputado Estadual Coronel Camilo (PSD).

O nome do debate foi reforçado pelo parlamentar. “Nós, a sociedade como um todo, fizemos vistas grossas para a Cracolândia. A sociedade deixou aquilo acontecer. Por isso que o problema é de todos nós”, afirmou.

Para Camilo, que foi comandante da Polícia Militar, o fato de a Cracolândia ter se fixado na Região Central deriva das mudanças socioeconômicas por ali. Se na década de 1950 o principal meio de viagens era o ônibus — onde havia o Terminal Rodoviário da Luz, transferido para o atual, do Tietê — a década seguinte observou a chegada dos aviões. Onde havia a rodoviária, ficou o abandono. “Aquele pedaço, que era o luxo da cidade ficou abandonado, ficaram estruturas, hotéis, foi ficando uma terra de ninguém e acabou degradando terrivelmente”, afirmou.

Nesse processo de degradação, incursões dos governos municipal e estadual, além da atuação de ONGs e instituições, fomentou uma disputa pelo espaço urbano. Se, de acordo com Camilo, as ações na Cracolândia eram exclusivamente policiais — “contra a desordem na região, um forte enfrentamento” –, hoje há mais articulação entre os governos, agentes de saúde e segurança — ainda que com ressalvas.

Essa atuação, sobretudo da Prefeitura, foi destacada por Filipe Sabará, Secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Para Sabará, vivemos uma “geração que faz mais uso de drogas lícitas e ilícitas: ansiolíticos, antidepressivos. Algo está errado nessa sociedade que não consegue viver sem uma fuga. A Cracolândia é uma consequência do descaso, da falta de entendimento da sociedade na área social”, afirmou, acrescentando que “não temos ideologia, nos importa o trabalho que resgata aquelas pessoas que estão na morte e aqueles que já foram resgatados”.

Como é comum na tradição nada republicana da política brasileira, programas são descontinuados com a troca de governos. Sai de cena o De Braços Abertos, criado na gestão de Fernando Haddad (PT), entra em cena o Redenção — em parceria com o Recomeço, do governo estadual. Nesse contexto, a atuação das duas gestões municipais ganha elogios, e também são criticadas, sobretudo a de Haddad, julgada como amplificadora do número de usuários naquela região. “Os acolhimentos são respostas rápidas, mas são respostas melhores do que aqueles hotéis ridículos em estado de putrefação”, afirmou Sabará, em relação às ações adotadas na gestão anterior.

Sem um projeto mais amplo — e preferencialmente, de longo prazo –, e com diferentes dinâmicas de atuação, é previsível que a Cracolândia seja alvo de disputas — sociais e políticas. Porém, de acordo com Arthur Guerra, psiquiatra coordenador do Programa Redenção, há, sim, modalidades de curto, médio e longo prazo. Para Guerra, os pontos positivos do programa anterior serão mantidos, como as políticas de redução de danos.

O maior desafio é como lidar com os usuários. “Nós tínhamos uma ideia de que o paciente tinha que ter uma desintoxicação de quatro semanas. Os principais centros do mundo também trabalham com essa meta. Nossa surpresa foi que os pacientes não querem ficar essas quatro semanas. A fissura é muito grande”, afirmou Guerra.

Já o Coronel José Roberto Rodrigues de Oliveira, Secretário Municipal de Segurança Urbana, considera que “os equívocos do passado se devam porque a segurança encabeçou aquelas ações. Nós sabemos que o caso é mais de saúde, mas independentemente, os números da Segurança Pública são importantes para que aquilo que acontecia não aconteça mais”. Para o Secretário, a reação dos traficantes nos conflitos tem como objetivo criar uma “massa de manobra” com os usuários, “e que reverbere na imprensa, colocando a culpa naqueles que estão trabalhando”.

O debate reforçou o caráter combativo ao tráfico de drogas e aos criminosos, ainda que outros que apenas compactuam do mesmo espaço paguem um preço — às vezes, doloroso — pelas ações. “Onde não tem polícia, você tem a lei do mais forte. Se tirar a polícia de um local, vai ver uma escalada da força e ver um traficante com um fuzil”, afirmou o Coronel Francisco Cangerana Neto, Comandante do CPA/M-1, responsável pela área central da cidade.

Foto: Mastrangelo Reino/A2img

“É o tráfico de drogas que propicia aquela aglomeração. Não podemos compactuar com território livre para traficantes. Nos últimos seis meses, foram mais de 60 flagrantes de tráfico. Não nos interessa incomodar o usuário ou causar constrangimento. Queremos prender ladrão, armas, objetos que sejam usados como arma naquele local”, completou.

As ações realizadas pela Prefeitura, como a inclusão dos usuários em programas de trabalho, e os atendimentos e abordagens realizadas, mostram uma mudança de postura, de acordo com representantes da municipalidade. Porém, a demolição de imóveis à revelia — vídeos mostram pessoas surpreendidas por tratores — coloca em discussão as possíveis motivações da dispersão do fluxo.

A especulação imobiliária vem à tona, bem como o julgamento de uma política de limpeza do espaço urbano. Durante o debate, um integrante da plateia foi além, ao afirmar que “é preciso mandar de volta essa população para seus locais de origem”. “Nosso programa é de acolhimento e inclusão, e seu pensamento está ultrapassado”, afirmou Filipe Sabará.

Com a dispersão dos usuários, a cidade fica refém de disputas pelo território e cria, cada vez mais, refugiados urbanos. A área da antiga Cracolândia poderá se transformar em habitações populares — algo certamente inalcançável mesmo por aqueles que ali viviam — ou definhavam.

À margem da sociedade, usuários e pobres se espalham, criando periferias distantes e indesejáveis por parte da população que, talvez, não tenha olhos para esse problema. Problema causado, também, por ela mesma.

fotos: Alan White/Fotos Públicas (topo), Rovena Rosa/Agência Brasil, Prefeitura SP e Marco Antonio Cardelino (Alesp)