A História Transmídia de Donald Glover (Pensador #2)

O Donald Glover, pra mim, é um cara único nos dias de hoje. Ele é aquele tipo de artista e personalidade que, pelo menos na minha visão, quando forem olhar para o que ele fez em vida, dificilmente vão destacar apenas uma coisa.
Digo isso porque o cara não tem nem 40 anos ainda e já tem uma carreira muito bem-sucedida, estabelecida e bem-pensada no ramo da música (o seu alter-ego de Childish Gambino com a prestigiada This is America de 2018); da comédia (foi considerado um dos comediantes de stand-up mais promissores da sua geração); da televisão (Glover foi um dos membros principais de Community, a minha série de comédia favorita e que tem uma enorme legião de fãs; e Atlanta, que ele criou, dirige, produz e estrela, e é uma das melhores coisas, em termos de TV, que eu já vi). Agora também no cinema, ele fez o papel de Simba no remake de O Rei Leão, que bateu mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria em 2019.
O cara é foda, pra dizer o mínimo. Ele é um exemplo de um “Renaissance Man”, uma pessoa extremamente talentosa em diversas áreas artísticas e/ou do conhecimento, assim como os grandes artistas renascentistas.
Eu poderia falar sobre Atlanta, ou sobre “Awaken, My Love!”, que é o álbum mais celebrado de Childish Gambino. Mas o que eu quero abordar aqui é aquilo eu considero a maior conexão entre o sr. Glover e o termo do parágrafo anterior: o álbum/roteiro/vídeos que compõem uma experiência chamada “because the internet”.
Prólogo: Origens e Camp
Donald Glover começou a sua carreira musical quase como uma brincadeira, adotando o nome “Childish Gambino” através de um gerador de nomes de rappers do Wu-Tang Clan. Enquanto ele trabalhava como roteirista na premiada série de comédia 30 Rock, e mostrava o seu talento cômico nos vídeos do canal Derrick Comedy (canal de esquetes de comédia que ele começou com alguns amigos nos primórdios do YouTube), Glover produzia e lançava suas músicas por conta própria na internet, tanto sob o nome de Gambino quanto batidas eletrônicas com o nome “mcDJ”.
Nessa época ele ainda era só um cara que tinha acabado de sair da faculdade e ainda tava tentando se lançar profissionalmente. Foi com essa ideia de ser um rapper, um alter ego de si mesmo, que ele lançou as mixtapes Sick Boi, Poindexter, I Am Just a Rapper e I Am Just a Rapper 2, entre os anos de 2008 e 2010, e que hoje Glover assume que não são lá grande coisa.
Foi então que as coisas começaram a mudar, Glover foi contratado para o elenco principal da série Community, onde teve um enorme destaque; ao mesmo tempo que a sua carreira como comediante de stand-up decolava. Foi nas gravações de Community que ele conheceu Ludwig Goransson, o compositor da trilha sonora da série (e que hoje tem um Oscar pela trilha de Pantera Negra), e eles viraram parceiros na composição e produção das músicas de Childish Gambino, trabalhando juntos até hoje.
É notável a qualidade musical que Ludwig trouxe para as músicas de Glover, na mixtape Culdesac e no primeiro ep de Gambino, chamado (criativamente) EP, em 2011. Nelas estavam algumas das faixas que começaram a dar alguma visibilidade, principalmente a fodástica “Freaks and Geeks”. A gravadora Glassnote Records assinou com Glover e, em dezembro de 2011, Childish Gambino lançava seu primeiro álbum: Camp.

A maior parte das faixas de Camp são de rap, com letras inspiradas e referências infinitas. Glover versa bastante sobre as transições na vida dele, com o reconhecimento, a grana entrando e como isso é ótimo; porém, sem esquecer do seu passado e do que é importante, principalmente não deixar de ser quem ele é. O álbum tem algumas músicas muito boas como Outside, Fire Fly, Sunrise, Letter Home, All the Shine e Bonfire. Ao ouvir o álbum, em retrospecto, é legal notar os indícios do que estava por vir em because the internet e “Awaken, My Love!”, com algumas melodias específicas, principalmente em All the Shine.
Mas a faixa que eu quero falar é That Power. É a música que encerra o álbum, onde Glover faz um balanço final das mudanças na vida que ele passou, a postura dele na cena do rap americano e, principalmente quem ele é: um indivíduo/artista que age como si mesmo, que se orgulha em dar destaque ao seu talento e ao seu trabalho ao invés da sua imagem e fama.
A música tem quase 8 minutos e na marca dos 3, ela para e entra uma narração de Glover: Um garoto está num ônibus voltando do acampamento de verão, ele conheceu uma garota lá. Ele está apaixonado por essa garota, e teme que eles dois nunca mais se encontrem depois disso, a menos que ele diga o que sente; mas se disser, pode ser que aí sim eles nunca mais se encontrem.
Ele se confessa para essa garota e ela fica apenas encarando enquanto as palavras saem da boca do garoto, e ele solta a palavra “destino”. O garoto para de falar e a ela responde: “okay”. Ele então encosta e finge estar dormindo até realmente pegar no sono.
O garoto acorda. O ônibus está parado no estacionamento de uma igreja e os pais estão buscando seus filhos. A garota não está mais lá. O ônibus está quase vazio, ainda tem algumas pessoas dentro, e há um grupo de meninas. Uma delas, Michelle, se aproxima do garoto, sorri pra ele e diz: “destino”. Ela e as outras meninas começam a rir. Obviamente a garota especial era amiga delas.
O garoto encontra-se com seu pai no estacionamento e segue com ele para ir embora. O acampamento acabou, aquele momento especial acabou. Não é uma história sobre como garotas podem ser más ou que o amor é ruim. É uma história sobre um garoto que aprendeu alguma coisa.
O garoto compartilhou algo especial e significativo, que logo em seguida foi diminuído, ao ser compartilhado e todo mundo saber. É aqui que temos o primeiro vislumbre do que Childish Gambino pensa sobre a Internet.
Ele encerra a música dizendo:
“Eu gostaria de dizer que esta é uma história sobre como eu subi no ônibus como um garoto e desci de lá um homem, mais cínico, mais insensibilizado, mais maduro e tal. Mas isso não é verdade. A verdade é que eu desci daquele ônibus como um garoto. E eu nunca desci daquele ônibus. Ainda não o fiz.”
É dessa forma que Camp dá origem à because the internet. O garoto do ônibus de That Power é o Garoto (“The Boy”) protagonista de because the internet.
1. “Clapping for the Wrong Reasons”
Como um complemento para a experiência, Gambino lançou um roteiro de 73 páginas para because the internet. Na primeira página há o disclaimer (em livre tradução):
“ Nota ao leitor: O prelúdio para este roteiro (“Clapping for the Wrong Reasons”) está disponível no website YouTube para o livre consumo. O prelúdio pode ou não dar contexto para este trabalho que você está lendo.”
O “prelúdio” para a história do Garoto (“The Boy”) é um curta-metragem escrito pelo próprio Glover e dirigido pelo Hiro Murai (diretor da maioria dos episódios de Atlanta e do clipe de “This is America”). Existem duas versões, a completa com 20 minutos, e a chamada “internet version” que tem 50 segundos (uma alfinetada sutil no público de hoje, viciado em stories, manchetes nos feeds e outros formatos rápidos, e que resumem qualquer conteúdo da forma mais breve possível).
O curta abre com o Garoto acordando na sua mansão e basicamente nós acompanhamos um dia na vida dele. Há muitas pessoas na casa, mas aparentemente ninguém próximo. Parecem mais pessoas que sobraram de uma festa na noite anterior.
Nós acompanhamos esse dia sob o ponto de vista do Garoto: ele conversa com algumas pessoas sobre assuntos aleatórios e de forma superficial, trabalha em algum sample de alguma música, faz uma competição de flexões com um amigo, ouve uma garota contar sobre um sonho que ela teve, e outras coisas sem muito propósito.

A impressão que fica é que a vida que o Garoto leva é almejada por inúmeras pessoas (uma casa grande com uma bela vista, “amigos” para preenchê-la, e grana), é uma vida vazia. O tédio e a falta de algo significativo fazem parte da vida dele, pelo visto desde sempre (e não estou aqui dizendo que a vida rotineira deve ser algo incrível todos os dias, mas que vez ou outra devemos tentar fazer ou encontrar momentos que sejam importantes em meio ao mundano).

Sinceramente, eu não entendi esse curta. Não sei se existe alguma mensagem oculta na cena em que o Garoto remove um dente, ou nas aparições da mulher misteriosa que aparece pra ele (e que só ele vê). Pra mim é quase um episódio não muito bom de Atlanta misturado com um contexto visual necessário pra começar a ler o roteiro do álbum.
O que eu entendi é que o título é incisivo. Por ser parte de uma experiência maior (o álbum/roteiro), com significados e mensagens e por ser abstrato e sem muito sentido, o curta passa a impressão de que talvez seja algo profundo. Eu acho que é apenas um amontoado de cenas e situações sem conexão, e com “alegorias” pros desavisados que consumirem e repassarem, dizerem que é genial, que tem 3005 significados aqui e ali (os “finais explicados” no YouTube, e o que eu talvez esteja fazendo neste texto).
É Childish Gambino dizendo: Tudo aquilo que as pessoas na Internet não entendem, que não tem paciência de procurar ler, entender e tirar as próprias conclusões, ou mesmo que não conseguem prestar atenção e querem que alguém em algum vídeo/post explique (de preferência rápido), soa como algo genial. É isso que justifica o título do curta. Todas as pessoas que fazem isso estão apenas aplaudindo algo pelo motivos errados.
2. O Roteiro
O roteiro começa justamente com a frase: “You can’t live your life on a bus…”, uma referência direta à That Power. O Garoto entra no carro do seu pai (que é o rapper Rick Ross, por algum motivo) e nota-se que eles são distantes e que o pai é uma pessoa muito ocupada.
O Garoto chega à mansão (a mesma de Clapping for the Wrong Reasons), joga a mochila no chão do quarto, tira os tênis (há uma pilha destes e parece que ele nunca usa o mesmo par duas vezes) e abre o seu laptop. O Garoto olha seus e-mails, clica em um link para um vídeo err… bizarro e que não vale ser mencionado aqui, entra num link para uma nova música de hip-hop, onde ele comenta no vídeo “fuck u n***ers”.
Ele recarrega a página e os comentários o xingando de volta começam a pipocar. O Garoto sorri. Ele é um troll de internet, mais um exemplo de pessoa que acabou de passar por uma frustração na vida real e prefere usar a internet como válvula de escape.
Passam-se 15 anos. O Garoto agora é aquele que conhecemos de Clapping for the Wrong Reasons. Ele acorda da mesma maneira que no curta e uns 5 amigos, entre eles o irmão de Donald, Steve (mas que não é irmão do Garoto na história) e o Chance the Rapper (que aqui se chama Marcus), o chamam para ir à praia.
O Garoto e seus amigos chegam à praia e encontram uma garota chamada Sasha na água, ela está na sua prancha. Todos eles vão até lá puxar papo com ela, exceto o Garoto, que fica na areia. Quando a Sasha vai para a areia ela fala com o Garoto, que a convida para uma festa esta noite, e ela diz que vai levar amigas.

Mais tarde naquele dia, o Garoto acompanha um de seus amigos, Fam até uma boate e fica esperando do lado de fora, agindo como um troll nas redes sociais. Então começa uma briga entre dois caras na rua, o Garoto puxa o celular e começa a filmar, até que um dos caras puxa uma arma e dá dois tiros no outro. O Garoto, Fam e mais quem estava em volta sai correndo em desespero. Antes de chegarem ao carro com o resto dos seus amigos, o Garoto olha nos olhos do cara que foi baleado na briga, e vê a vida indo embora dele. O Garoto sente alguma coisa. “Na internet, não há muito o que sentir a menos que você queira”, diz o roteiro.
No carro, enquanto estão todos surpresos com o que aconteceu, o Garoto assiste a gravação que ele fez em loop, quando nota um furo de bala no seu casaco. Poderia ser ele que tivesse morrido.
É então que o Garoto começa a perceber a vida que ele leva, uma vez que quase ter morrido afetou mais ele do que o seu amigo Fam. O Garoto reflete sobre o que aconteceu, sobre o que ele faz (que é tuitar o dia inteiro, pois ele é rico e não trabalha) e o quão triste é isso. Fam, por outro lado, não se importa tanto assim, afinal ele leva um vida boa que nem o Garoto, e sua perspectiva pro futuro é uma linha de camisetas que ele vai produzir dele e do grupo de amigos, ou seja, algo superficial e sem legado.
Os rapazes então começam a se preparar para uma festa na mansão. As pessoas chegam e a festa começa. O Garoto anda pela festa, há um casal se pegando onde não deveria, tem alguns caras roubando coisas da casa. São pessoas que o Garoto não conhece e estão dentro da casa dele, são pessoas chamadas por amigos, ou amigos de amigos.

O Garoto então esbarra em Sasha, a garota da praia. Ele, ela e uma amiga dela se fecham num quarto e a Sasha pede pro Garoto mostrar para elas. Ele se recusa e num clima de brincadeira, Sasha começa a bater nele, enquanto a outra garota está vendo tudo isso e rindo; então eles começam a se beijar e a fazer algo, até que esse algo para. O Garoto não consegue ficar excitado e sai para o banheiro, envergonhado e frustrado.

A ex-namorada do Garoto, Vanessa, aparece no banheiro, ela quer sair, ele quer ficar lá no banheiro, como que pelo resto da vida. Ela levanta e o puxa junto. Ela abre uma porta de closet, e o Coachella está dentro do closet. Há muitas pessoas e o Garoto corre atrás da Vanessa. Ele a alcança os dois começam a andar de mãos dadas.

Vanessa está empolgada. Ela quer ver tudo junto com ele, sem se separar. Até que o Garoto fica estático, e ela fica desapontada por ele fazer aquilo ali, naquela hora: “Você não acha que isso é um desperdício do nosso tempo?” , ele pergunta. Ela diz que não, que isso é o que ele pensa e pede para ele pra terminar com ela, ao invés de fazer como se fosse ela quem não gostasse dele.
O Garoto diz que ela não gosta dele, que ele é como uma “metade bonita” de um casal num feed de rede social. Eles discutem e ela sai andando, olha para cima e sobe como um foguete até o céu. Eles nunca mais vão se ver novamente. Dois coiotes se aproximam dele, eles discutem sobre os shows do evento, e começam a despedaçar o Garoto.
O Garoto acorda do delírio no banheiro. Ele abre a porta, as garotas se foram. São 5 da manhã. A casa está bastante suja, com copos e garrafas vazias e bitucas de cigarro. O Garoto esbarra nos seus amigos e diz que eles estão indo embora para Oakland.

O Garoto dirige enquanto os seus amigos dormem. Ele manda uma mensagem para uma garota chamada Nyla dizendo que está a caminho, o que ela responde simplesmente: “não”. O Garoto segue dirigindo pela estrada, com as fábricas (que devem ser prejudiciais para o planeta) acesas à noite numa áurea meio mágica. Os rapazes chegam à uma lanchonete In-N-Out no meio do nada, eles estão no carro comendo hambúrgueres, e olhando para o restaurante. Dois assaltantes entram no lugar, os rapazes escutam vários gritos e nenhum tiro, até que chega a polícia e atira em um dos bandidos. Os rapazes começam a sair para ir embora e um policial manda todos colocarem as mão para cima.
Já é dia e eles estão em Oakland, em silêncio. O Garoto desce do carro, e quando está prestes a bater na porta, ela se abre e Nyla está lá com uma expressão mista de raiva e simpatia. Ele tenta dizer um simples “oi” e ela despeja em cima dele que existem sentimentos e sensações que morrem dentro de nós a partir de um momento, e que podemos até nos lembrar delas, mas o sentimento não existe mais. Ela diz que está nesse momento.
Ela chora, não de tristeza, e sim de raiva. Um cara dentro da casa aparece e se aproxima para ver o que está acontecendo. O Garoto tenta se explicar, dizendo que não queria ir até lá para deixá-la com raiva, mas porque ele viu aquele cara morrer e… ele está assustado, ela completa. Ele responde que não está, que só queria ficar com alguém que conhece ele um pouco melhor.
Ela diz que não conhece ele, que eles não estão juntos, que ela tem alguém, e que não se importa se está sendo má, porque ele é um adulto. O Garoto se vira para o cara no corredor e explica que ele e Nyla estavam planejando ter um filho, e que ela já tinha planejado tudo, como adultos. E o Garoto desistiu.
O cara vai embora. O Garoto diz que não sabe o que tem de errado com ele . Ela fecha a porta e pede para que ele cresça. O Garoto fica lá parado e então retorna para o carro.
Na mesma noite os rapazes vão à uma boate em Oakland, onde o Garoto fica sentado e o promoter do lugar fala que ele tem que pedir alguma coisa. Numa expressão séria o Garoto pede 12 garrafas de bebida. Doze garotas chegam com bebidas com faíscas e todo mundo na boate começa a prestar atenção no que está acontecendo, quando elas chegam na mesa, os rapazes foram embora e há uma pilha de dinheiro.
Numa lanchonete os rapazes estão comendo, o Garoto não está. Enquanto os amigos discutem sobre animais comer outros animais, o Garoto diz “Nós já estivemos aqui antes. Nós já fizemos isso antes. É isso toda noite. Todas as noites”. Fam, responde que não é a mesma coisa, porque eles trocam o lugar. Os amigos estranham o que o garoto diz.

Após um desentendimento na lanchonete, os rapazes vão para um hotel, e no lobby deste hotel está acontecendo um casamento indiano. Na verdade um casamento, mas onde todos os presentes são indianos. Há o som de conversas e risadas no corredor, e a porta para o jantar está aberta.
O Garoto para e observa os noivos dançando lentamente. Ele diz que essa é a primeira vez que ele vê um casamento. Fam vira pra ele e diz que até entende o motivo pelo qual as pessoas se casam, mas a parte zoada é que é para sempre. Para o Garoto, o casal parece bem feliz. Para Fam, eles estão felizes porque cumpriram um objetivo, e em um ano eles não vão se importar mais; para ele, fazer da sua vida um objetivo é algo estúpido, porque a vida é pra ser divertida. Antes que ele continue, o jantar começa a bater no estômago e ele vai para o quarto.
Marcus e Steve falam que vão atrás das madrinhas de casamento enquanto o Garoto vai ficar lá, e ele entra dentro do salão do jantar. As luzes estão baixas, não há muitas pessoas, o Garoto começa a gravar os noivos. Um homem mais velho se aproxima e pergunta o que ele está fazendo. O Garoto mente dizendo que estudou com o noivo na faculdade.
Eles começam a conversar, o homem velho indiano diz que “quando os amigos começam a se casar isso significa que você é o próximo”. O Garoto discorda, dizendo que não acredita no casamento, mas não é contra, e pergunta para o velho se ele se cansa de estar casado. O velho responde que às vezes sim, mas que se casou porque tinha que amadurecer e que ele não se arrependia.

O Garoto diz que ele não precisa amadurecer, que ele achou coisas nas quais ele é bom, ainda não engravidou ninguém, e até conseguiu ter relacionamentos maduros que o prepararam para o casamento. O Garoto mente dizendo que mantém contato com todas as suas ex-namoradas, que ainda é amigo delas; o velho entende que ele ainda liga para elas, quando na verdade o Garoto apenas manda uma mensagem ou uma DM no aniversário de cada uma.
O velho diz que isso não é ser amigo, ele faz a mesma coisa com o chefe dele, e ele o detesta (um “moleque coreano que acha que sabe tudo”), ele pergunta o que o Garoto faz. O Garoto responde:
“Eu trollo celebridades, políticos, ou qualquer um com alcance online suficiente para que eu tenha alguma resposta. Eu posto as respostas no meu blog. E eu cobro de blogs de fofoca e publicitários para colocar publicações no meu site e às vezes eu e meu amigo colocamos o equivalente a livros de coisas fodidas que encontramos online enquanto desenterramos a sujeira das celebridades e/ou políticos e vendemos para livrarias de nicho ou lojas maiores que se encaixam nessa estética.”
O velho parece não entender muito bem, e vai embora. O Garoto observa enquanto um convidado do casamento começa a fazer um discurso sobre os noivos, os convidados aplaudem e começam a dançar algo para desejar felicidades para o casal. Nessa “dança” saem duas criaturas que parecem humanas (mas que não são) da cozinha, juntam-se aos convidados que aplaudem junto. Os noivos ficam desconfortáveis, a música acaba e as criaturas vão embora, uma delas olha para o Garoto.
Algum tempo depois, o Garoto está de volta na sua mansão, sentado tocando qualquer coisa no piano. A casa está começando a se decompor, as faxineiras que limpavam não vão mais porque pararam de receber, então copos estão aos montes, cada superfície está meio grudenta, não se pode mais deslizar no chão por causa do álcool seco.
Os minutos passam, algumas pessoas ficam ao redor do Garoto enquanto ele toca o piano. Ao mesmo tempo, os amigos do Garoto estão fazendo o que geralmente costumam fazer (fumar maconha, pular uma fogueira que nem idiotas, sentar e conversar sobre qualquer coisa). Tem pessoas dizendo coisas, dando opiniões, se sentindo interessantes. Parece que todos ali tem um propósito e estão se divertindo. O Garoto conclui: Isso é uma perda de tempo.”

O Garoto começa dizendo baixo, e depois eleva o tom de voz, mandando todo mundo sair, e ninguém parece se importar muito até ele destruir o celular de onde a música estava tocando. Ele respira fundo e começa a quebrar tudo. Vidros quebram, o álcool derrama, as pessoas começam a ir embora correndo. O Garoto segue quebrando coisas, até se deparar com celular, e uma mão que o impede de quebrá-lo. A mão é de uma garota, Naomi, e eles se encaram aparentemente bravos, mas ele tem um olhar mais de arrependimento. Ela pega o celular e vai embora.
O Garoto volta a quebrar as coisas, mandando os outros irem embora, até todos irem. Mais tarde naquela noite, ele está deitado na cama dele, e vê uma aranha. Aranhas são comuns na casa, ele fica encarando a aranha, que o incomoda. O Garoto, no silêncio, sente-se preso numa teia vazia e isso o incomoda, o tortura. Ele se levanta e vai embora.
Ele está no seu carro, dirigindo para qualquer lugar, até chegar numa área afastada e industrial. Ele se senta descalço no teto do carro, e observa os carros passarem. O Garoto não comeu o dia todo, e segue para o drive-thru uma lanchonete.
O Garoto volta para sua casa, tranca as portas e apaga as luzes, volta para o seu quarto. Ele pega uma taça, coloca água, uma espécie de pó branco dentro e bebe. Deitado na cama, ele procura pela aranha que estava no quarto e aos poucos vai perdendo os sentidos…

O Garoto desperta na cama de um hospital, com os olhos pesados. A TV está ligada em uma sitcom e ouve-se o barulho daquelas risadas típicas de sitcoms, o que o apavora porque aquelas são risadas de pessoas que já morreram e serão reaproveitadas até a eternidade.

Um enfermeiro entra no quarto. Ele diz que os “amigos” dele o levaram até lá. O Garoto não os considera amigos, e diz que eles só o salvaram porque a vida deles fica mais fácil se o Garoto estiver por perto. Mais tarde naquele dia, ele recebe alta, e encontra os rapazes na porta do hospital.
O Garoto diz para eles irem à algum lugar, e eles o encaram. Um deles, Swank, diz que não sabe como falar algo. O Garoto não entende. Swank então diz que eles receberam uma ligação e que o pai do Garoto morreu.
Corta para um jatinho. O pai do Garoto morreu em Estocolmo e precisavam de um membro da família para resolver os problemas que aparecem nesse tipo de situação. O Garoto não se considerava que o pai era sua família até aquele momento. O pai dele queria ser cremado.
O Garoto não conhecia ninguém em Estocolmo e não queria ficar no mesmo hotel que o seu pai (mesmo que fossem as cinzas dele). Ele procura por algum seguidor seu que seja da cidade e uma garota chamada “@Hello_Pity_” o responde, e diz para eles se encontrarem após ele resolver o que precisa resolver. O Garoto procura por fotos dela no Instagram (que é bloqueado, ele desconfia), lê alguns tweets, até que encontra fotos dela no Facebook, e ela é bonita.
O Garoto vai até um escritório para resolver a burocracia, e pega os pertences do pai dele. À noite, no hotel, ele manda uma mensagem para a garota de Estocolmo, que se chama Alyssa, e eles combinam de se encontrar junto com o namorado dela em um bar, ambos fãs do Garoto.
As ruas de Estocolmo se parecem com a festa na mansão. Há pessoas dizendo coisas, dando opiniões, se sentindo interessantes, e todos tem um propósito naquela noite. O Garoto encontra Alyssa na entrada do bar. Ele pergunta onde está o namorado dela, e ela aponta para um cara que está beijando outra garota.
Eles começam a andar e o Garoto explica para ela que mandou a mensagem porque não conhecia ninguém, que tinha que buscar o pai, e ela não pergunta sobre o assunto para evitar uma conversa do tipo “e como ele morreu?”. Alyssa não acredita em “small talk” (o tal papo furado), e pergunta para o Garoto qual o relacionamento mais longo que ele já teve. Ele responde que faz cinco anos e ainda está com ela. Apesar de não estarem juntos, ainda é um relacionamento com certeza; essa garota fazia umas exibições privadas na internet e o Garoto a assistia, então ela parou e os dois começaram a conversar. Alyssa estranha o Garoto pagar para essa moça ser a sua namorada, amiga, ou o quer que seja. Ele diz que a maioria das pessoa está pagando pelos seus amigos, de um jeito ou de outro.
O Garoto pergunta para Alyssa o motivo dela ainda namorar um cara que a trai e ainda concordar com isso. Ela diz que é porque ele honesto, o que faz dele alguém especial.

No quarto do hotel os dois estão encarando a urna com as cinzas do pai do Garoto. Alyssa pergunta a ele se ele quer conversar sobre. A resposta é não. Ele levanta para fazer um drink, e ela pega a urna e vai embora. O Garoto corre atrás dela até a rua; ela fala que vai se livrar da urna porque faz mal para ele e que eles vão fazer isso juntos. Alyssa diz que já fez isso antes, quando a sua irmã gêmea morreu por conta de um câncer; apesar de ser estúpido perguntar como a irmã morreu, o Garoto pergunta.
Eles andam e param às margens de um lugar com água. O Garoto vai até à beira, dá uma espécie de abraço na urna, e num som quase inaudível diz: “eu lamento por estarmos sozinhos”. Ele vira a urna. Alyssa pergunta se o Garoto se sente melhor. Ele ainda é o mesmo.
O namorado da Alyssa então se aproxima, e começa querer tirar satisfação com o Garoto, por supostamente estar com ela. O namorado para, e quebra a tensão ao começar a cantar e dançar “What does the Fox say”, que ele é o cara que gravou essa música/vídeo e que está batendo recordes no Youtube. O Garoto nunca ouviu falar (apesar de usar a tagline “I am the internet”). O namorado se gaba do sucesso da música e do alcance que ela está tendo e pergunta para o Garoto se ele quer transar com a Alyssa.
O Garoto responde que não. Ele não quer estar ali. Ele está indo pra casa. Ele se afasta enquanto Alyssa e o namorado começam a discutir.
De volta ao “lar”, o Garoto está quieto num encontro duplo com Fam e uma outra garota, esperando uma amiga da última para fechar o segundo casal com ele. Ela chega, e é a garota da festa que salvou o celular de ser quebrado, Naomi. O Garoto ainda não diz nada. Naomi o reconhece como o cara que quase bateu no braço dela.
Eles estão num restaurante vegano. O Garoto diz detestar comida vegana e que eles só estão lá por causa da “namorada” de Fam. Naomi diz que ela é a vegana, e o Garoto ainda mantém a sua opinião. Naomi zoa ele por conta disso e o pergunta a razão dele parecer estar sempre pra baixo, como se os pais dele tivessem morrido.
“Eles morreram”, responde o Garoto. Após um momento de silêncio, o Garoto e Fam se encaram e começam a rir. Naomi acha o Garoto estranho, mas não vai embora.
Os quatro vão para a mansão. Fam está fumando e conversando com a garota sobre algo que eles não se importam e não vão se lembrar. O Garoto e Naomi estão na sala, ela pergunta sobre o pai dele, e ele responde dizendo que não sabia o que ele fazia, como ele pagava por aquela vida, e parece que não há nenhuma herança para o Garoto, além disso, havia credores atrás do pai. O Garoto então diz que vai começar a vender drogas. Naomi diz que ele vai ser um péssimo traficante, porque ele deixa o clima estranho e não consegue se conectar com outra pessoa, e isso dificulta alguém confiar nele.
Naomi diz que ela é uma escritora, mas que tem os seus textos constantemente roubados online. Ela diz que a vida é um ciclo e que todos nós vamos fazer as mesmas coisas várias vezes até o fim. OGaroto diz que ele gosta dessa teoria. Ele não está mais solitário.

Então os dois meio que se apaixonam, o Garoto e Naomi se conectam naquele nível de quando há uma piada interna que não dá pra estragar e somente aquela outra pessoa entende. Não é um amor perfeito, é mais como um dos dois dizendo “eu vou te proteger”, quando ambos sabem que isso é uma mentira porque nenhum dos dois conseguiria proteger o outro. É algo mais no sentimento de uma conexão, algo que não precisa de palavras para ser expresso, existe apenas os sentimentos compartilhados.
O Garoto e Naomi saem juntos, passam a noite juntos e tomam café da manhã. Às vezes, eles se dão presentes, assistem desenhos juntos. Eles estão sempre dizendo coisas, dando opiniões, se sentindo interessantes, com um propósito.
O tempo passa, o Garoto começa a vender drogas, com dificuldade e se muda da mansão. Num lugar alugado, ele acabou de almoçar com Naomi e diz que precisa ir embora para fazer uma troca. Antes de ir ele pergunta se ela está bem, ela responde com um falso “sim”, porque nada na verdade está 100% bem. Ele sai e diz que vai voltar.
O Garoto chega até a mansão. Há três carros parados lá e quatro caras esperando e encarando da porta da frente, tem alguma coisa errada. O Garoto para na frente deles e eles puxam umas .45 e entram na mansão. Enquanto um dos caras vai atrás dos pacotes, o Garoto fica sentado na sala, pensando numa fuga impossível (a casa é no topo das montanhas e vizinhos não poderiam chamar a polícia), e com a mesma sensação que ele sentia nas festas naquela mesma casa: pessoas que ele não conhecia dentro da casa dele e ele fingindo que está tudo bem. Um dos caras recolhe o celular do Garoto.
O Garoto não sentia como se fosse morrer naquele dia, ele tinha certeza de que ia morrer naquele dia, embora não sentisse como se fosse ser o último dele. Quanto mais ele pensava nisso, mais ele pensava que o mundo pudesse ser um lugar diferente, afinal as pessoas não viveriam como vivem hoje, não se importariam tanto com que os outros pensam (“eu vou morrer mesmo, e daí?”), poderia ser uma anarquia/utopia. Dois dos caras começam a conversar, provavelmente decidindo o destino do Garoto, ele olha para o que já foi o seu castelo.

O Garoto pergunta se ele pode se afogar, que ele quer pelo menos escolher como vai morrer. Há uma piscina perto, e supostamente você tem uma onda de euforia ao se afogar; ele flutuaria ali até encontrarem ele.
Um dos caras se senta ao lado dele, revela ser um policial ao dizer o quanto o Garoto é desleixado, e que ele vai ser preso. Outro policial disfarçado vai prender os traficantes enquanto isso, fora da casa. O Garoto se imagina boiando sem vida na piscina, enquanto Naomi e Steve o encaram sem parecerem muito chateados; parece pacífico e ele gostaria de ir embora dessa maneira.
De repente, há um som de pneu cantando do lado de fora, seguido pelo som de uma batida e gritos, e então tiros. O Garoto e o policial se encaram. Um dos traficantes entra pela porta atirando e derruba o policial; então ele se vira para o Garoto e atir… (respiração)…..(respiração)……(respiração). Silêncio.
3. O álbum
Durante a leitura do roteiro, Gambino aponta para o leitor qual música ouvir, e segue a ordem do álbum, que é dividido em partes, com interlúdios entre cada uma. Não vou perder muito tempo aqui dissecando cada música e cada significado que as letras possuem no contexto do roteiro ou da carreira do Glover, apenas umas impressões e comentários breves. A próxima seção eu vou dedicar uma reflexão maior.
A primeira parte começa com uma introdução de 4 segundos (The Library), vai para a desconfortável Crawl, que eu entendi que, no contexto do roteiro, significa que a garota do ônibus alguma ex-namorada do Garoto espera que ele volte rastejando para ela; ou que o Garoto teve que rastejar até aprender a ficar em pé pra crescer, por conta do pai ausente. A batida dessa música é pesada e como eu já disse, há um desconforto ao ouvi-la.
A próxima é Worldstar, com uma vibe meio trap e que acredito que seja pra dar um feeling de como é a vida/ambiente que o Garoto vive, quem ele é. Ao ouvir, a sensação que eu tive foi de uma boate ou uma festa, e a poluição sonora que esses há nesses ambientes. A reviravolta é um jazz que toca no fim, quando Gambino/o Garoto diz no fim da música: “Nós não queremos ser um (worldstar)/E tudo o que eu quero é ser um (worldstar)”. Entra o interlúdio Dial Up.
Esse interlúdio é uma transição para o começo e para a batida da música seguinte: a excelente The Worst Guys, cujo refrão Gambino divide com Chance the Rapper. Baseado no clipe e no momento que ela entra no roteiro, eu diria que é pra mostrar um momento de descontração, porque tanto no clipe quanto no roteiro Gambino/o Garoto e seus amigos vão à praia e se divertem lá.
A próxima música é a também excelente Shadows, um som animado, que traz um clima de descontração que encaixa perfeitamente no momento do roteiro da primeira festa na casa do Garoto, a festa em que as coisas dão errado com Sasha.
Então segue-se a melhor sequência de músicas nesse álbum: Telegraph Ave. (“Oakland” by Lloyd), Sweatpants e 3005. A primeira pelo título óbvio se encaixa no momento em que o Garoto e seus amigos estão indo para Oakland, ele acelera e fura os sinais para chegar o quanto antes na casa de sua ex-namorada. Sweatpants traz um flow pesado de Gambino e um dos meus refrões favoritos numa letra de música: “Don’t be mad ’cause I’m doing me better than you doing you”. Fechando, aquela que pra mim é a melhor do álbum, 3005. Seguem aqui embaixo os clipes que são muito fodas (mas que não tem a ver com o roteiro).
Segue-se um interlúdio, Playing Around Before the Party Starts, um solo de piano, o mesmo daquela passagem do roteiro onde o Garoto toca o piano e depois sai quebrando tudo na casa. A concretização desse momento da história acontece na faixa seguinte, The Party, que encerra com Gambino dizendo às pessoas da festa: “Get the fuck out of my house”.
A próxima faixa é No Exit, a tentativa de fuga do Garoto quando, após todos terem ido embora da casa dele, ele sai dirigindo após não conseguir dormir. É a confusão mental do Garoto naquele momento que vem à tona na letra. Entra o interlúdio Death By Numbers, que junto com a faixa que o sucede, Flight of the Navigator, fazem a transição para o Garoto no hospital.
Flight of the Navigator é a música que, se eu fosse descrever o sentimento que ela passa em uma palavra, seria “solidão”. Somente pelo arranjo que toca do começo ao fim da música e os versos iniciais:
“Eu tive um sonho
Eu sonhei que estava voando sobre todos nós
Havia tantas pessoas bonitas
Tantos rostos bonitos
Eu falei com alguns pássaros, me apaixonei novamente
E nada disso teria acabado
Tudo continuou indo, indo e indo
E mesmo quando você riu, você chorou
E mesmo quando você estava triste
Você estava realmente feliz
Porque você estava aqui
E eu conheci cada estrela
Cada planeta, tudo o que me fez
E todos nós nos beijamos e nos tornamos um só
Nos tornamos um só”
Essa música expressa um desejo genuíno de contradição: deixar-se ir em relação às pessoas que são especiais, ou se segurar nelas. Conforme navegamos pela vida e pelos caminhos que trilhamos, devemos, como na música, tentar nos segurar firme àqueles que nos são queridos. É o que o Garoto sente na história. Uma solidão na vida que ele leva, e que ele tenta se segurar a qualquer coisa que já foi especial pra ele (a namorada do Coachella, a namorada de Oakland, a beleza de um casamento).
Após essa calmaria, o álbum segue para Zealots of Stockholm (Free Information), com um começo suave, mas que após Gambino dizer e repetir “I’m a good son”, o tom muda e uma batida tão desconfortável quanto Crawl toca e um rap de Gambino. Serve para o momento onde o Garoto vai até Estocolmo buscar seu pai e também passa um pouco da confusão mental que ele está passando.
Então, a suave Urn, um R’n’B muito bom. É o Garoto deixando o seu pai, suas mágoas do passado irem embora, apesar de ainda continuar o mesmo, ele sentiu algo nesse momento. A última parte começa com Pink Toes, que possui um feat na voz mágica de Jhené Aiko. A faixa conversa com o momento em que o Garoto começa a sair com Naomi (que a própria Aiko interpreta nas composições visuais do roteiro), e o momento que o Garoto se envolve com o crime. Com um ritmo suave e muito bom de se ouvir, dá pra quase dizer que consegue traduzir o que é estar apaixonado.
O álbum fecha com Earth: The Oldest Computer e Life: The Biggest Troll. A primeira deixa muito clara a agitação do Garoto naquele momento em que ele retorna à mansão e está prestes a morrer, principalmente pela frase que é repetida diversas vezes na música: “Maybe it’s the last night”. Aqueles podem ser os últimos momentos para o Garoto. Mais sobre na próxima seção.
4. Life: The Biggest Troll
Deixei para a última parte para falar sobre o final do roteiro, fazer um balanço e uma reflexão final de toda essa experiência, e comentar sobre algumas das minhas interpretações de 3005, Earth: The Oldest Computer e Life: The Biggest Troll. Essas músicas pra mim conseguem sintetizar bem a mensagem que eu captei desse álbum. Ah e comentar sobre o termo: “Roscoe’s Wetsuit”.
Primeiro sobre o final do roteiro. Dado o contexto, a música sugerida e a forma como ele está escrito, eu entendi que o Garoto morreu mas ainda fica a dúvida no ar, até porque Glover coloca como última para se ouvir a música que tem a palavra “troll” no título. Ele próprio está trollando o expectador ao não concluir a história. E talvez seja essa a interpretação dele sobre a vida: algo que você vive dia após dia, até que de repente… puf! Vai tudo embora e não necessariamente todas as pontas que ficaram soltas pelo caminho foram ou são amarradas.
A música que caracteriza os momentos finais do Garoto traz Gambino dizendo: “See, now I don’t wanna see an era/See, now I just wanna live forever, and ever/Maybe it’s the last night”. Nós humanos vivemos em média até os 70–80 anos, o que comparado com a idade da Terra, e do Universo principalmente, é apenas uma porção mínima do que pode ser chamada uma era nesse escopo maior. O tempo para nossa experiências é muito curto, e Gambino versa que nós não vivemos e não viveremos alguma parte razoável da existência humana, que também não é longa.
Além disso, é dizer que tudo o que nós temos é agora, o presente. Sempre pode ser que seja a última noite porque não sabemos o que pode acontecer. Nós não temos o futuro.
Gambino ainda resume as inconsistências da vida na letra: O múltiplos significados da letra “A”, e que nenhum deles, em última análise, significa algo. A inconsistência dos relacionamentos humanos, principalmente os amorosos; o Garoto teve diversos relacionamentos que não deram certo, onde ele e outra pessoa tiveram momentos em que sentiram algo (felicidades e alegrias/tristezas e raiva), mas que após o término, já não significam nada no presente, vide o abismo entre Garoto e suas ex-namoradas.
A reflexão continua quando Gambino diz que hoje, muitos de nós não dependemos de coisas físicas ou pessoas para nos trazer satisfações pessoais, apenas uma conexão WiFi. O progresso caminha a passos tão largos que, uma vez que a humanidade deixar de existir no Universo, é provável que reste apenas os vestígios do que foi construído: arranha-céus, barragens, pontes; e o Universo em si evoluirá e deixará os seus vestígios também. Mas que o futuro os consumirá eventualmente, como no clássico poema de Ozymandias.

Gambino chama esse futuro de 3005, e o ilustra no videoclipe da música de mesmo nome: Ele e um ursinho de pelúcia estão numa roda gigante, num ciclo repetitivo (a repetição de ações que os humanos fazem de novo e de novo, ou se você for mais refinado, o “eterno retorno” de Nietzche), o ursinho vai se degradando (o tempo vai passando, as eras passam, e o ursinho se desgasta). Chega o ponto em que vemos o a distância um incêndio, e depois a ausência de Gambino. A experiência humana na Terra acabou, restaram apenas os vestígios, o ursinho.
Justamente por isso que a Terra é o computador mais antigo para Gambino. Porque apenas o progresso é significante na escala maior das coisas, e tudo o que aconteceu não terá significado, como todos os dados num computador que não são importantes uma vez que são apagados. A existência humana é uma espécie de programação que a Terra terá algum registro quando for extinta.
Antes de encerrar, ao longo do roteiro há a menção a uma trend nas redes sociais chamada “Roscoe’s Wetsuit”. O Garoto nem ninguém sabem o que é isso ou o que significa, mas se está sendo compartilhado e têm relevância deve ter algum significado. Só que ninguém se importa com significados na Internet. Nem mesmo a Terra se importa.
O fechamento disso tudo é Life: The Biggest Troll. Gambino diz que o Homem criou a Internet como um espaço onde não se precisa de nomes (o próprio Garoto não tem um nome), nem de moderação pois a tela protege com a distância e o anonimato. Onde se pode colocar pensamentos (tipo agora) e trollar, seja pelo humor, seja pela ofensa e desrespeito.
Gambino ainda diz que muitos de nós somos os sonhos perdidos dos nossos pais, já que muitos pais projetam seus sonhos e desejos nos filhos, e esses últimos acabam por esconder suas verdadeiras aspirações para si mesmos. Gambino também diz na música que não se importa que o expectador médio não irá captar todas as mensagens, ou que alguém acha que pegou todas as mensagens de because the internet. Ele não se importa porque está espalhando essa mensagem de maneira autêntica e não por ego.
Glover expressa que seguiu o caminho que seguiu porque queria ir atrás de coisas impossíveis, apesar de poder ter uma vida mais pacata e que seus pais se orgulhariam, mas seria uma vida sem ambições. A armadilha, segundo ele, foi que essas ambições foram contra o que ele esperava, já que nada irá durar para sempre. O que resta pra ele é tentar e fazer coisas que se conectem com outras pessoas.
Por falar em conexão, segundo ele, por causa da Internet existe um arquivo infinito onde os erros ficam para sempre. Se ele pudesse, voltaria no tempo e diria para o seu eu da infância que coisas como popularidade e reputação não importam tanto assim no final das contas. Mas continuam sendo um dos principais objetos de desejo de boa parte das pessoas na rede. Para Gambino, essas pessoas estão perdidas, assim como o Garoto. Elas curtem, compartilham, retuítam e reciclam qualquer merda, desde opiniões a vídeos de gatinhos. Qualquer coisa a massa considera importante sem pensar o porquê.
Chega uma hora que não é mais Gambino falando, mas o Donald Glover: “I don’t know who I am anymore”. Ao longo desse caminho, Donald se desmembrou em Gambino e no Garoto, coloque a fama, os projetos, o reconhecimento profissional e o dinheiro, e o resultado é aquilo que é esperado. É muita informação supérflua nesse jogo. Mas ele tem um código para trapacear: a noção de que tudo não é permanente.
Glover termina a música dizendo que espera que eventualmente todos os seus seguidores percebam que eles não precisam de um líder, ou seja, não precisam seguir ninguém. Fazer as suas próprias paradas e não ligar para o que “os clones” (a maioria da galera da Internet e fora dela) pensam, e se sentirem fodas mas sem agir como babacas.
A vida nos parece, às vezes, algo tão longo e uma experiência tão foda que queremos que ela não acabe. Mas a gente esquece que ela é curta, e que os bons momentos duram pouco enquanto os ruins demoram pra ir embora, e que ela pode terminar a qualquer momento. Por isso ela é um troll. Pelo mesmo motivo que Roy Beatty em Blade Runner diz que os momentos são como lágrimas na chuva. E ela é o maior de todos os trolls porque as suas trollagens não acontecem no meio virtual.
Portanto, o que eu tirei dessa experiência, fora o choque de realidade, é o seguinte: Pode ser que nada tenha significado ou propósito e que nós humanos simplesmente existimos e vivemos nossas vidas até que elas acabem. Mas eu acho que os nossos sentimentos, as nossas experiências, as pessoas que conhecemos que nos dão aquilo que precisamos para seguir em frente. Nossos anseios em descobrir, em entender e em melhorar são o significado. Já falei sobre isso no meu outro texto, mas com outra perspectiva. Na internet, você não vai encontrar nada disso.
Um andar de mãos dadas com a pessoa que amamos, um elogio a uma conquista de alguém nos é querido, um simples sorriso que esboçamos. São essas coisas que equilibram com a dureza da realidade da vida. É por essas coisas que estamos aqui, não por causa dos likes, ou populariade. Lembre-se que por causa da internet você está aqui lendo este texto, por causa dela eu escrevi este texto e por causa dela, Donald Glover chegou ao significado que dá forma à toda essa experiência, e que fechando de forma perfeita seu ciclo, justifica o seu título.


