seguindo o baile.

Parcialmente você sabe que tudo vai dar certo. Você tem uma ligeira fé, por todo seu histórico anterior, que uma hora as coisas se resolvem. Que tal hora você vai estar com seus 44 anos sentado numa rede, tomando seu café e observando o mar enquanto escreve algum e-mail importante sobre trabalho. É um devaneio pra lá de frequente e menos normal do que deveria ser, porque é um sonho. Desses que a gente reza pra acontecer toda hora mas não conhece forma alguma de tornar ele um pouco mais possível, a não ser ir pra um café emular a sensação num sábado a tarde e chamar uma garota pra ir e nada dar muito certo.

Sim, parcialmente vai dar certo ou você sabe parcialmente que tudo vai dar certo. Duas coisas diferentes mas que estão na sua cabeça todo o tempo. Porque existe uma possibilidade razoável de você acabar como seu pai aos 50 anos, que está na rede, numa praia paradisíaca, observando o mar, mas que não sabe o que fazer quando crescer. Um puta desespero. É tudo incerto demais, e você tem feito muitas escolhas irresponsáveis pra tentar poder ser feliz, e tá tudo dando certo, até não dar mais. Mas quando não der mais, você para e percebe que realizou uma porrada de sonho, conquistou muita coisa, muita experiência nova e amigos do coração. E ai rola uma pequena felicidade de que se uma hora tudo vai dar certo, você ao menos teve essas coisas enquanto tudo dava errado.

Se nada der certo, você vai acabar como seu pai. Pronto. O que não é ruim, mas é estrategicamente muito errado. Porque no caso do seu pai, que só tem um filho, ele tá meio que dependendo de você pra sustentar ele pelos próximos 30–40 anos. E até lá, mesmo querendo, vai saber se você vai ter a sorte de ter um filho que no fim te dê mais dinheiro do que você deu pra ele a vida toda… Não é uma coisa que se vê com freqüência. Até existe com frequência, mas não se houve falar, vai saber porquê.

O fato é que, ao seu redor, tudo parece levemente encaminhado, você conhece umas pessoas bem bacanas que já tem a vida formada, saca? Fazem algo que gostam (ou parecem gostar), algumas tem uma vida ativa, viajam, e outras já são até milionárias (e nesse caso a pessoa estava na faculdade com você um dia desses). E todas elas parecem ter aquela certeza lá em cima de que estarão no auge dos seus 44 anos na rede, tomando café e mandando um singelo e-mail corporativo descolado. Pelo menos é assim que eu estou vendo tudo ao meu redor. E eu sei que tá errado, metade das pessoas tão com problemas até o pescoço, alguns muito piores que os meus, mas se tem uma coisa que essa galera sabe bem é seguir o baile e por isso a eu fico só assistindo o baile dos outros enquanto no meu já acabou a cerveja tem horas.

Então, na verdade, você sabe que mesmo as pessoas que cheguem na tal rede aos 44 anos, elas vão estar tomando café porque não dormiram a noite toda e o e-mail descolado é uma rotina lixo porque elas são responsáveis por coisa demais e não conseguem descansar em nenhum momento sequer.

O resumo disso tudo é: todas essas famílias aqui ao redor de mim, que estão sorrindo e curtindo o sábado na Livraria Cultura, vão chegar em casa e ter que lidar com uns problemas absurdos e, várias delas, estão só evitando chegar em casa. Mas a gente acha que não. Acha que tá tudo massa. E você é capaz de tá melhor que muitos deles, porque sua bad atual era que você queria alguém na mesa que você pra conversar ao invés de ficar escrevendo aqui.

Segue o baile.

Like what you read? Give Iago Macedo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.