Não só de telenovelas se faz Jane the Virgin

Divulgação/Cortesia/Lifetime

Em seu episódio mais recente, Jane the Virgin aproveitou uma trama que envolvia a presença de uma estrela de cinema mudo na novela de Rogelio para se apropriar desse formato e contar algumas das suas próprias histórias em preto e branco. Ao longo do episódio, Jane, Rafael e Mateo se vestiram com roupas dos anos 20 e reencenaram o surgimento de sua família, enquanto frases escritas substituíam a narração tradicional da série e os diálogos. Em uma outra cena, o próprio Rogelio fez um comentário para os produtores da sua novela de que seria ridículo substituir diálogos por letras, dizendo que “ninguém quer ler enquanto assiste TV” — em espanhol, o que obrigou Jane the Virgin a escrever essas mesmas palavras na legenda em inglês e fazer o público americano… ler.

Foi o exemplo mais recente do uso de metalinguagem e estruturas narrativas diferentes dentro da história maior de Jane the Virgin, que desde o início da série pega emprestado e homenageia a herança e a cultura do formato telenovela. Não foi o melhor — embora tenham sido adoráveis, as cenas não contribuíram para a trama principal como em episódios anteriores, como foi com a presença de uma Jane imaginária, dançarina de salsa e personagem do livro escrito pela Jane protagonista. Nesse segundo caso, a “Salsa Jane” era uma ótima persofinicação dos conflitos que Jane enfrentava enquanto tentava adaptar seu livro ao gosto de sua orientadora na pós-graduação, ao mesmo tempo em que tinha algo a dizer sobre como o gênero que Jane escrevia — o “romance de banca” — é percebido no mundo como um todo. Além de, é lógico, incluir cenas divertidas em que a ganhadora do Globo de Ouro Gina Rodriguez pôde mostrar mais de seu talento como atriz e dançarina.

Elementos como Salsa Jane, filmes mudos e inserções de cenas dos romances que Jane lê ou escreve são uma constante em Jane the Virgin. Também é o caso de tropes e arquétipos comuns às telenovelas que inspiram e compõem a série, da presença garantida do narrador latin lover e do uso de GCs com frases, #hashtags e artes que complementam a história visualmente. Até para alguém como eu, que assiste Jane the Virgin desde o início e se diverte semanalmente com os “extras” que a série oferece, é impressionante tentar contabilizar as inúmeras referências e estripulias que surgem toda semana na tela.

É surpreendente, também, porque Jane the Virgin consegue incluir essas mensagens sem que sua história principal perca apelo ou deixe de envolver quem assiste. Exagerar nesses efeitos é um risco — e a série muitas vezes passa perigosamente perto de errar, o que é inevitável quando se ousa. Assim como as cenas passadas nos anos 20 pareceram mais uma desculpa para vestir os atores em roupas bonitas, há a ocasional hashtag que poderia ficar de fora, e a série já passou do limite de quantos irmãos secretos são permitidos por novela. Mas há uma razão para, apesar desses deslizes, Jane the Virgin continuar sendo uma das melhores séries no ar atualmente.

Primeiro, há o caso de Jane the Virgin ser única sem deixar de ser familiar. Um remix de inúmeras referências e mensagens ancorado na história de uma excelente protagonista, um elenco fortissimo, uma estética própria e muita confiança nas suas intenções. Segundo, toda essa salada de inserções é uma homenagem e uma elevação não apenas do mundo das telenovelas e da cultura em torno delas, mas de narrativas como um todo.

Todos os momentos em que o narrador latin lover desfila metalinguagens — seja uma hashtag, uma nova estética para sinalizar o romance acontecendo em cena ou uma sequência imaginária em que Jane canta rap bêbada — servem para mais do que trazer o espectador para dentro da história sendo contada; eles o incluem no próprio ato de contar histórias. Mais do que espectadores, ao assistir a Jane the Virgin nos tornamos quase narradores do destino daqueles personagens.

Ou seja, Jane the Virgin é tão envolvente porque faz justamente isso: envolve. Da mesma forma que hashtags começam na série e terminam no twitter, a torcida dos fãs que adoraram que Michael e Rogelio se tornaram #bros se transferiu para a voz do narrador. É a série perfeita para um mundo de interação nas redes sociais e de comunicação que verdadeiramente caminha em duas direções, onde todos somos autores e onde mensagem e meio se confundem.

Mais do que isso, Jane the Virgin transgride ao priorizar narrativas e vozes muitas vezes marginalizadas em outros espaços mainstream. Sua linguagem é essencialmente feminina, a começar pela herança das telenovelas, passando pela discussão sobre o teste Bechdel e chegando à defesa que a série faz do gênero literário romance (uma indústria milionária nos EUA que é majoritariamente comandada e consumida por mulheres e que até hoje é encarada como um dos gêneros mais descartáveis da literatura).

Já o uso constante do espanhol — que começou como idioma da abuela Alba e agora se estendeu para todo o núcleo da novela de Rogelio — reflete a certeza de que há inúmeras formas de contar uma história, e todas elas são igualmente válidas, mesmo que você tenha que fazer um pouco mais de esforço para entendê-la. Talvez exija ler uma legenda ou desenvolver empatia por uma realidade que não é a sua. Mas fazer isso abre portas para uma variedade enorme de novas histórias — e como Jane the Virgin mostra semanalmente, elas também podem se tornar suas.