É preciso tirar sarro de quem nos mata

É 2015 e o futuro chegou! Nesse ano completaremos uma década desde que o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou doze charges do profeta Maomé (o verdadeiro e final profeta, aliás).

Lá atrás, houve líderes religiosos e de estado que pedissem a cabeça dos cartunistas e editores. Como não chegaram na redação antes de bradar gritos de vingança em nome de um profeta impotente, virou tudo conjectura.Veículos do mundo todo se recusaram e reimprimir as charges, a rede de livrarias Borders deixou de vender a Vanity Fair do mês porque Christopher Hitchens escreveu a url onde era possível vê-los. Rapidamente as televisões se encheram de apologistas, de gente que tinha coragem de dizer que era necessário mais respeito e que os cartunistas haviam ido longe demais. Lembre-se, cartunistas foram longe demais, não as pessoas que queriam matá-los por desenhar Maomé.

O mesmo aconteceu com Os Versos Satânicos de Salman Rushdie, o autor viveu anos com escolta e semi-recluso pois havia prêmio por sua cabeça em estados Islâmicos. Houve quem dissesse que Rushdie foi insensível.

Agora, 12 pessoas foram assassinadas a sangue frio. Os apologistas estão meio calados.

Essa gente não é mágica. Seus valores e táticas medievais não os tornam diferentes. A ofensa deles é tão valiosa quanto a do cristão, a do homossexual, quanto a sua. Nenhuma delas valida qualquer ataque violento.

Não posso comentar sobre a qualidade do humor da Charlie Hebdo, nunca nem havia ouvido falar da revista antes de hoje. Há quem comente que era pueril, apelativa e até sem graça. Isso talvez revele mais ainda sobre a mentalidade dos assassinos: algo que poderia facilmente ser desdenhado ganha o respeito de heróico pois não há capacidade intelectual para mais do que violência física.

Os ataques de hoje, como o fatwa na Dinamarca anos atrás por causa de um cartum, são indefensabilíssimos. Ser ofensivo faz parte. Ser ofensivo sem ter por quê, com estereótipos e sem mensagem ou com uma mensagem retrógrada, é o problema do humor ruim. Mas mesmo o humor ruim eu defendo diante quem acha que pode calar os outros à força. É impossível não ofender ninguém e não deve ser objetivo de arte nenhuma. É mais ofensivo que qualquer arte você matar alguém. Isso não é sobre religião, isso é sobre autoridade e censura e liberdade.

Há pessoas querendo mandar nas outras e elas querem conseguir essa autoridade no grito, no medo, na bala. Há outras pessoas, porém, que só querem fazer rir e pensar. Não é uma guerra, mas nós podemos perder. Um desses lados cabe numa sociedade igualitária e livre.

Não tenho grandes conclusões a tirar do dia de hoje. Não mudou minha visão. Creio que devemos ofender extremistas, devemos ofender aqueles que nos ofendem com sua opressão das mulheres, repúdia às liberdades e mais visões tão antiquadas que combinam com seus trajes imutáveis. Ofendamos com humor, ofendamos vivendo em harmonia com a maior parte dos muçulmanos e religiosos do mundo, ofendamos continuando a valorizar os ideais da revolução francesa mais que a guilhotina usada para impô-los. Nós podemos evoluir, admitir nossos erros, os assassinos fundamentalistas, não.

Choremos pelos que morreram, mas vamos rir. Deles, de nós, de profetas, mães virgens, de tudo.


Originally published at sobrecomedia.com on January 7, 2015.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.