O tempo da risada

Acertar o tempo de uma piada determina o nível de sucesso da mesma, por melhor que seja o texto, entregá-lo cedo ou tarde demais pode confundir o público e diminuir drasticamente as risadas que você vai receber. Ao olharmos atentamente a performance de nomes feras da comédia como George Carlin ou Richard Pryor, fica claro que eles entenderam não só o tempo individual dos conglomerados de histórias engraçadas que vão contar, mas obviamente um grande comediante sabe ajustar a frequência do seu tempo no palco com a frequência coletiva do público — e porque não com a do universo?

Agora, como é possível usar esse recurso ao nosso favor a fim de atingir o tempo “ideal“ do riso alheio, se entendemos tão pouco como o tempo funciona no geral e porquê ele passa de um jeito único pra cada indivíduo?

Salvador Dalí — A persistência da memória de uma forma tranquila e favorável
O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; mas se o quiser explicar, já não o sei.” (Confissões de Santo Agostinho, Livro XI)

Afinal: O que é o tempo? Uma rápida pesquisada no Google vai te dizer muitas coisas sobre mais coisas ainda, sendo esse nosso primeiro problema… o tempo nos afeta em tantas camadas que é complicado chegar numa definição simples.

Mas antes dessa viagem chegar em Plutão, vamos começar por Platão, um filósofo top que já se questionava sobre o tempo muito antes de eu e meu vibrador existirmos, Platonildo achava que: “o tempo é a imagem móvel da eternidade, como se o tempo fosse uma mera cópia do divino, podendo-se dizer também que o tempo-platônico não passa de uma ilusão, juntamente com o mundo orgânico dos sentimentos e a vontade de peidar sem alarde.

Olha, aqui pra mim, acho que Platão era meio o virjão da vila, né não?

Historicamente, o conceito do tempo ilusório é repetido por muitos outros filósofos, teóricos, zenbudistas, donos de paleterias mexicanas, ou até mesmo o Titio Einstein. A relatividade diz que o tempo não é absoluto, cada relógio mede algo distinto, dependendo de onde está e como se movimenta. Por mais que eu entenda o conceito e a dificuldade em extrair lógica disso, essa linha de raciocínio não me faz gozar, porque inegavelmente , o tempo existe e tá aí pra fazer a gente de trouxa desde sempre.

Atualmente, vivemos momentos estranhos, nossa geração-furacão-2000 sofreu um baque com o avanço tecnológico, a era virtual forçou a sociedade a moldar-se num novo patamar de espaço-tempo, onde os acontecimentos e relacionamentos são afetados por uma realidade mais instantânea, o que inevitavelmente delineou a sensação de um tempo mais ágil, chamado carinhosamente de a “correria do mundo moderno“.
 
Analisando assim vemos logo dois tipos de tempo, um sendo o tempo ontológico, inerente aos seres, que atua como agente externo, existindo independente do que estamos fazendo, é tipo climão em festa de família. Têm-se também o tempo interno, que atua no psicológico de cada um, tendo a velocidade influenciada pelo contexto. O tempo vai passar pra você de um jeito único, a depender da situação, seja subindo a escadaria da Penha de joelhos ou transando loucamente com o mozão.

Poucas coisas são piores pra quem fala em público do que aqueles segundinhos em que esquecemos o que dizer, parece que o tempo se dilata numa massaroca de sensações contraditárias ou até para por um instante, o tempo ontológico se confunde com o interno, e, se rapidamente você não conseguir contornar a situação, é possível que a apresentação seja arruinada. 
 
Quando tentamos entender o tempo vemos que é inevitável não falar sobre tudo, pois tudo funciona num tempo próprio: o nosso tempo, o tempo dos outros, o tempo da piada, o tempo bom pra viajar, o tempo da água ferver, o tempo que o amor leva pra virar biscoito… já que é tão complicado medir o tempo e seus efeitos, vamos tentar analisar BEM de perto, será que rola enfiar o tempo num microscópio?

A ciência que estuda o comportamento das partículas subatômicas é a mecânica quântica, sabemos porém, que o mundo quântico funciona de forma tão misteriosa e incoerente que as leis clássicas da Física não conseguem explicar na prática as lógicas cabíveis.

O princípio quântico da incerteza entre tempo e energia nos alerta sobre a imprecisão de medir o tempo, pois quanto mais precisamente você quiser saber quando um evento aconteceu, menos precisão se terá para determinar a quantidade de energia desprendida. A origem dessas relações mora no fato de que tentar medir algo altera seu estado natural, já que o próprio sistema de medição interfere no resultado.

Experimentos como o do gato de Schrödinger ou da fenda dupla, mostram que pequenas partes de matéria — fótons, elétrons ou átomos — se comportam naturalmente de infinitas maneiras ao mesmo tempo, existindo simultaneamente como um onda de possibilidades, mas quando os físicos tentam observar de perto os resultados constatam que a tal onda de possibilidades se choca em uma escolha concreta, é como se a partícula soubesse que está sendo observada e somente por isso assume um estado definitivo, ou ainda, que o surgimento do observador influencia uma coisa a existir.

“a relidade só existe quando olhamos pra ela.” Andrew Truscott, físico-quântico

Enquanto comediante vejo o tempo como uma manivela que precisa ser cuidadosamente manuseada, por isso, creio acima de tudo na importância de viver o presente, algo que o estilo de vida ocidental reluta em absorver. Tradicionalmente enxergamos o tempo como uma escada, temos que basear nossas escolhas pensando num futuro que nunca vai chegar, mas isso gera diversas ansiedades venenosas e nos vicia em desilusões.

No Oriente o conceito de tempo é amplamente associado ao de morte, sendo a morte o único Deus do tempo, o tempo individual só existe enquanto nós existimos fisicamente, fazendo parte da ilusão eterna da existência, o tempo é ainda uma mera criação induzida pela variação dos sentidos, a qual acreditamos e julgamos real. Pros hindus, o tempo é visto como uma roda, um processo cíclico ininterrupto que oscila e se repete numa frequência pré-determinada. Veja aqui

No final das contas, pra mim ouvir um bom set de comédia é parecido com ouvir música instrumental, a voz do comediante preenche o vazio natural da existência como se fosse um instrumento, já as palavras dão a harmonia num certo ritmo, e, quando esse conjunto é executado perfeitamente, temos a impressão de que aquelas piadas nem sequer foram criadas, é mais uma sensação de que sempre estiveram por ali mas falhamos em vê-las, como se o tempo ideal da comédia se assemelhasse ao tempo natural e quase imperceptível que as coisas já tem. Sabe-se lá minhas certeza das coisas, mas vou fingir que sei e concluir que o tempo é a existência.

Por fim, faço minhas as palavras do grande filósofo contemporâneo Renato Russo, temos todo o tempo do mundo“