A favela não venceu

O exemplo de sucesso como mensagem de opressão

Startup da Real
Sep 30, 2019 · 16 min read

Você talvez não tenha ouvido falar de Margareth Teixeira, 17 anos.

Mãe de um filho de 1 ano e 7 meses, a jovem estava na sétima série do ensino fundamental. Seu sonho de sucesso era ter uma casa própria e passar no concurso da polícia militar.

Ex-moradora de Duque de Caxias, Margareth tinha medo de morar na Favela do Quarenta e Oito, em Bangu.

No dia 13 do último mês, a jovem foi morta com 10 tiros de fuzil, seu filho estava no colo quando foi baleada. A criança foi ferida de raspão na cabeça e no pé. Margareth Teixeira estava indo encontrar o marido na igreja.

A jovem foi mais uma das vítimas das operações da polícia militar do Rio de Janeiro que, só este ano, já matou mais de mil pessoas.

A polícia militar mata 1 pessoa a cada 5 horas no Rio de Janeiro, sendo responsável por 30% das mortes violentas na cidade.

É impossível ver alguém comemorando uma vitória pessoal, dizendo que a favela venceu, sem lembrar de casos como esse.

A favela não venceu. E pior ainda, está ficando cada vez mais difícil para a favela vencer.

Rocinha, Rio de Janeiro.

Vai além da visão, sair de casa e bater de frente com o caveirão
Com um .762 apontado na minha cabeça
O cana me revistando e cheirando minha mão, não

Papo de realidade, vários não chegaram na minha idade
Não dá pra acreditar que vai mudar
Se trocar o nome de favela pra comunidade

Pouco importa a nomenclatura se falta cultura
Louca vida dura foi pra sepultura
Vendo a escravatura, hoje ninguém atura
Tem que ter postura pra poder cobrar da prefeitura

Na gaveta gelada do IML
Vários amigos que foram abatido pela cor da pele
Tática inimiga, bota a bala pra comer e menos um nigga

Atiram na nuca primeiro, derrubam certeiro, pra perguntar depois[…]

MV Bill, em Favela Vive 2

O que é uma favela

Favela é uma expressão que usamos para definir um assentamento urbano construído informalmente. Um aglomerado de casas precárias e barracos improvisados.

O cenário costuma ser agravado pela falta de infraestrutura, saneamento básico e uma enorme densidade populacional. O nome em português de Portugal ilustra bem a imagem que temos quando passamos por uma favela mais típica, bairro de lata.

Quando pensamos de forma ampla, essa definição do que significa uma favela pode ser verdadeira, mas numa realidade mais específica existem algumas particularidades que precisam ser observadas.

No Brasil do asfalto, favelas são culturalmente associadas aos morros do Rio de Janeiro. A imagem da gigantesca Rocinha com seus barracos de madeira, algumas casas sem acabamentos e outras em cores chamativas, é emblemática no imaginário de quem construiu sua visão da favela através da televisão.

Por outro lado, para quem vive o cotidiano das favelas em outros estados, os detalhes que diferenciam as favelas entre si são gritantes. Das condições de precariedade até o poder aquisitivo dos moradores, o gradiente de pobreza existente nas favelas é muito difícil de ser definido por uma regra geral.

Um dos pontos que acabam trazendo distorções quando tratamos as favelas do Rio de Janeiro ou até São Paulo como um padrão comum a ser considerado, é que existem muitos lugares em condições ainda piores no Brasil.

Num estudo recente, o Centro de Estudos da Metrópole foi capaz de categorizar favelas em cinco grupos distintos, indo das que possuem acesso quase universal à água, esgoto e coleta de lixo por serviço de limpeza, até as que não possuem nenhuma infraestrutura.

O Brasil é desigual em sua própria desigualdade.

Até mesmo pela proximidade com os grandes centros, no Rio de Janeiro e São Paulo é comum que existam pessoas nas favelas morando em casas de alvenaria com acabamento, tenham sua moto ou automóvel e possuam um padrão de vida similares ao da classe média em bairros de periferia.

No mesmo lugar, pode existir gente que tem seu carro mil e gente que deixa de comer para economizar dois reais.

Mas se formos definir um padrão comum nas favelas, esse padrão é formado pela omissão quase total do Estado, permitindo um aparelhamento das forças de segurança pública que estão presentes não para prestação de serviços à comunidade, mas como mecanismo de opressão.

Desde pequeno geral te aponta o dedo
No olhar da madame eu consigo sentir o medo
Cê cresce achando que cê é pior que eles
Irmão, quem te roubou te chama de ladrão desde cedo

Então peguemos de volta o que nos foi tirado
Mano, ou você faz isso ou seria em vão o que os nossos ancestrais teriam sangrado

De onde eu vim, quase todos dependem de mim
Todos temendo meu não, todos esperam meu sim
Do alto do morro, rezam pela minha vida
Do alto do prédio, pelo meu fim

No olhar de uma mãe eu consigo entender o que pega com o irmão
Tia, vou resolver seu problema
Eu faço isso da forma mais honesta
E ainda assim vão me chamar de ladrão

Djonga, em Hat-Trick

A favela é mais que um lugar, é uma condição

Independente das diferenças entre cada uma das favelas e a falta de infraestrutura que usamos para categorizá-las, o conceito favela é muito mais amplo e tem mais impacto em seus habitantes do que um simples lugar de moradia.

Ser morador da favela representa mais que uma barreira na direção de um futuro melhor, na maioria dos casos é uma muralha praticamente intransponível.

Longe do asfalto, tudo funciona um pouco diferente. É uma escola sem aula porque uma criança foi baleada, é o trabalhador demitido porque não conseguiu sair do morro durante a operação policial.

Se para moradores das periferias comuns tudo já é mais difícil do que para os jovens de classe média e média-alta, um jovem que envia um currículo com endereço da Maré, no Rio de Janeiro, tem ainda menos chance de conquistar uma oportunidade no mercado de trabalho.

Uma pesquisa de 2015 revelou que 47% dos moradores do asfalto jamais contratariam um morador de favela para trabalhar em suas casas. E num experimento com currículos idênticos, um morador da Maré recebe menos da metade das respostas que alguém de Jacarépaguá.

Mas claro, existem favelas e favelas. Algumas são vistas melhores, outras muito piores.

Mas as dificuldades vão bem além do acesso ao trabalho e educação. Os impactos da violência e da falta de recursos deixam fortes marcas nos jovens, que carregam esses reflexos, sem tratamento, ao longo de sua vida.

Um levantamento feito pela universidade de Northeastern identificou que 77% dos jovens da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, carregam problemas psicológicos ou físicos como consequência da insegurança.

Quem nasce e vive em ambientes marginalizados, cresce sofrendo o forte impacto dessa condição. Como podemos entender no trecho do texto Quando nasce um favelado, de Joel Luiz Costa:

Seja no ambiente acadêmico, no almoço do escritório ou no happy hour da firma, dificilmente a favela é tema dos papos que ocorrem nestes locais. Assim, ela vai sumindo do nosso radar — isso sem não antes já ter sumido do nosso comprovante de residência. Que favelado nunca mentiu o endereço ao elaborar um currículo, preencher um cadastro ou até mesmo conhecer alguém no aplicativo de relacionamento Tinder? Isso ocorre o tempo todo, e os motivos não são poucos.

Joel fala de experiência em seu texto, mas os dados ajudam a confirmar essa visão. 49% dos participantes de uma pesquisa disseram não revelar onde moram por medo de preconceito. 75% acreditam que moradores da favela sofrem preconceito.

Essa é apenas a superfície do que significa morar nas favelas brasileiras, mas bem longe das reais dificuldades que milhões de brasileiros passam todos os dias. Seria possível escrever uma série de livros apenas para detalhar cada ponto necessário.

Mas você pegou a ideia.

60% dos jovens de periferia
Sem antecedentes criminais
Já sofreram violência policial

A cada quatro pessoas mortas pela policia, três são negras
Nas universidades brasileiras
Apenas 2% dos alunos são negros

A cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo
Aqui quem fala é Primo Preto mais um sobrevivente

Racionais MCs, Capítulo 4, Versículo 3

A favela tem cor

O trecho acima foi composto para introdução de uma das faixas mais marcantes da história do rap nacional.

Capítulo 4, Versículo 3 foi escrita em 1997 e apresenta em diversas camadas as dificuldades vividas pelos jovens negros do Brasil, muitos deles habitando em favelas e periferias.

O trecho que abre a música tem o evidente objetivo de ser impactante. Mas no Brasil, 20 anos após o lançamento do disco Sobrevivendo no Inferno, os números não são melhores.

A CPI sobre Assassinato dos Jovens, em 2016, trouxe alguns dados importantes para a discussão sobre mortalidade de jovens negros no Brasil. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. No mapa do ano de 2014, quase 30 mil jovens negros de 15 a 25 anos foram assassinados.

São 63 jovens negros por dia.

E eu sei que algum cínico com sorrisinho de canto de boca vai dizer: mas branco também morre assassinado. Mas não é tão simples assim. Segundo o atlas da violência divulgado pelo IPEA, em 2018, O número de homicídios contra pessoas negras é de 71,5%.

E eu sei que um argumento recente para isso é que em 2019 o número de mortes violentas caiu em 22%. Mas infelizmente essa mudança não vem para todos.

Enquanto o governo do Rio de Janeiro anuncia que os homicídios dolosos caíram 21%, o número de mortes por intervenção policial aumentou 16%. No Brasil o aumento é de 18%.

Essas mortes por intervenção policial em grande maioria vem de incursões na Favela, onde grande parte dos moradores são, obviamente, negros. 76% dos mais pobres no Brasil são negros.

E pode parecer que é uma casualidade. Já ouvi explicação de que a população é pobre porque é preguiçosa ou morrem mais porque são mais criminosos. É muito fácil juntar estatísticas viciadas para justificar uma visão racista.

É comum dizer que também cometem mais crimes. Ignorando que a forma como a própria polícia aborda crimes de brancos e crimes de pessoas negras é diferente.

Um levantamento de 2017 analisou 4 mil sentenças de tráfico de droga. 2043 negros foram condenados, contra 1043 réus brancos. Apesar da taxa de absolvição ser estatisticamente a mesma, 11% dos negros para 10,8% dos brancos, existe uma vantagem que faz muita diferença para a vida do indivíduo. Quase 50% dos brancos são classificados como “usuário”, enquanto os negros saem como traficante.

Você consegue adivinhar a cor da pele dele?

O brasileiro tem muita dificuldade em lembrar do passado do seu próprio país, há 130 anos ainda existiam escravos.

A consequência de uma população pobre e majoritariamente negra é simples. Quando a escravidão chegou ao fim, o trabalho que era feitos por negros escravos passou a ser feito por imigrantes italianos, alemães e japoneses.

Sem trabalho e com forte estigma, os negros saíram das senzalas para as favelas.

Mesmo assim, é comum colocar a situação como se os negros tivessem começado do mesmo lugar que os imigrantes que chegavam ao Brasil com ajuda do próprio governo brasileiro. Estes imigrantes chegaram com emprego definido e, em muitos casos, garantia de terras para produção rural.

Quando se fala em compensação histórica, é porque outros imigrantes foram ajudados a prosperar enquanto os negros foram marginalizados sem oportunidade.

E lembrando que tudo isso aconteceu outro dia, começando o século XX.

E eu? Eu moro aqui sim, senhor. Eu sou daqui sim, senhor
Mas eu não te devo aonde eu vou e nem desculpas!
Inverteram o padrão, é o produto interno bruto
E palavras curtas pra longos dias de luto

Eu tava cansado de tudo que ouvia, garganta secava, outro jogo eu fazia
Olhares me cercavam, uma parte de mim e uma noite pra nós
Madrugada a sós, uma noite de guerra, os amigo armado a quebrada vazia
Nadando entre mares violentos, ao lado sereias, piranhas e iscas

Aqui o chão que pisa explode, aqui o que fode a vida inspira
E o que sobra a vida vende, pra essas sangra, as luzes piscam
Câmeras olham e olhares gravam tudo
E ninguém quer ser testemunha e nem confiar na polícia

Railow, em R.U.A 3

O morador da favela é um guerreiro

Um dos comportamentos mais curiosos do mundo empresarial moderno é o uso de linguajar militar e expressões violentas para se descrever.

Num evento só com participantes brancos, o palestrante bate no peito e diz que são guerreiros. Os mais velhos vestindo terno e gravata, e os mais jovens de colete feito de pluma de ganso e sapatênis, todos se definindo como linha de frente de uma batalha. Tem sangue no olho, matar um leão por dia e o convite para a plateia a imitar urro de guerra espartano.

Ninguém se dá conta, mas foi dona Rita, que serve café vestindo uniforme preto e branco ao fundo do salão, quem passou por dois veículos militares blindados, viu dezenas de fuzis e foi revistada por um soldado enquanto saía do morro em direção ao trabalho.

A distância entre quem vive a realidade do asfalto e quem mora nas favelas distribuídas pelo Brasil é enorme, sendo muito difícil de fazer aqueles que nunca chegaram perto dessa realidade compreenderem que a própria estrutura como conhecemos muitas vezes não se aplica lá.

No momento da vida onde jovens estão terminando o amadurecimento psicológico e deveriam estar se preparando para entrar numa universidade, o jovem da favela já é economicamente ativo e ajuda na renda da casa.

Numa pesquisa no Rio de Janeiro, 85% jovens acima dos 18 anos declararam ajudar na renda de casa, 28% são a principal fonte de renda da família.

O morador da favela é acostumado a trabalhar desde cedo. Mesmo quando frequentam a escola, acabam exercendo algum tipo de atividade para ajudar em casa.

Eles são o caixa de mercado, a pessoa que faz trabalhos domésticos ou bico de serviços gerais. É quem empacota compras no supermercado, vende água no sinal, entrega pizza, faz moto-taxi ou qualquer outra atividade que trouxer uma grana para colocar comida na mesa.

Porque se existe uma realidade, é que mesmo nas famílias da favela que poderiam se encaixar como classe média, essa condição só existe por muito suor de todos de casa. Não tem moleza.

E claro que trabalhar é importante, mas parte da disparidade de oportunidades entre os dois mundos é acentuada neste momento. Quem começa a trabalhar muito cedo para ajudar nas contas de casa, dificilmente terá condições de estudar para cursar nível superior e construir uma carreira que no futuro será lucrativa.

Enquanto Enzo faz cursinho pré-vestibular para passar em engenharia, João Vitor passou o dia entregando currículo no centro da cidade e correu para fazer o bico de entregador de pizzas no início da noite. Quando Enzo se formar, suas chances de ganhar um bom salário são boas. Na mesma época, é possível que João Vitor continue ganhando praticamente a mesma coisa.

Mas essa distância nasce bem antes. Enzo, quando tinha 10 anos fazia aulas de robótica em sua escola particular, João voltava para casa, desviando de um corpo baleado no chão. Sua escola estava fechada porque a polícia estava em operação na favela.

É muito difícil ser 10 vezes melhor, quando se começa 100 passos atrás.

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível
Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível
Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase
Que o sofrimento alimenta mais a sua coragem
Que a sua família precisa de você
Lado a lado se ganhar pra te apoiar se perder

Edi Rock, em Vida é Desafio

A favela só vence no coletivo

Existem exceções bem-sucedidas na favela.

Existe a pessoa que, por qualquer motivo que seja, ganhou muito dinheiro e hoje tem uma vida bem diferente de tudo o que sempre viveu.

A gente acaba percebendo esse movimento com mais frequência em jogadores de futebol, atores e músicos. E não existe um problema em “se dar bem na vida” e ganhar dinheiro. Inclusive, grande erro é apontar dedos para pessoas que chegaram onde estão fazendo o que podem para sobreviver.

O que precisa existir é um cuidado grande sobre como a exceção bem-sucedida olha para o seu histórico, para o lugar onde morou e para as oportunidades que teve na vida.

É muito fácil alguém que saiu da favela adotar um discurso que não liberta, mas oprime. Na ansiedade de explicar porque é uma exceção, o caminho mais fácil é dizer que fez o que ninguém fez, e que se fizessem também poderiam chegar onde ele chegou.

Toda vez que alguém usa seu histórico de ex-morador da favela para contrastar com sua condição atual, mas diz que o sucesso do indivíduo só depende do próprio mérito, desmerece diretamente toda batalha descrita nos primeiros tópicos deste texto.

Toda vez que coloca as mazelas do morador da favela como sua própria culpa, coloca mais um tijolo em toda construção que dividiu a favela do asfalto, marginalizou seus moradores e criou enormes barreiras para que ocupassem os mesmos espaços, profissões e oportunidades.

Dizer para alguém que madruga para trabalhar, faz bicos para renda extra e enfrenta todas as dificuldades da vida na favela que basta se esforçar, é ignorar a dificuldade em competir num mercado com pessoas que tiveram boa educação, família estruturada e investimento pesado para o futuro.

Cada vez que a exceção bate no peito e brada que sucesso é apenas fruto das suas próprias escolhas, está culpando cada morador da favela pela fome que passa, pelas condições ruins que vive e pela morte dos que ama.

Mais ainda, quando pessoas tentam apontar estes problemas, usa sua condição especial para dizer que os outros estão se fazendo de vítima, tripudiando em 131 anos de opressão e desigualdades financiadas inclusive pelo governo.

Enquanto italianos recebiam terras para plantar café, os negros que construíram o Brasil tinham leis específicas criminalizando cada uma das suas heranças culturais. A perseguição com leis marginalizando negros seguiu inclusive depois da abolição.

Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil

(Decreto número 847, de 11 de outubro de 1890)

Capítulo XIII — Dos vadios e capoeiras

Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal;

Pena de prisão celular de dois a seis meses.

A penalidade é a do art. 96.

Parágrafo único. É considerado circunstância agravante pertencer o capoeira a alguma banda ou malta. Aos chefes ou cabeças, se imporá a pena em dobro.

Art. 403. No caso de reincidência será aplicada ao capoeira, no grau máximo, a pena do art. 400. Com a pena de um a três anos.

Parágrafo único. Se for estrangeiro, será deportado depois de cumprida a pena.

Art. 404. Se nesses exercícios de capoeiragem perpetrar homicídio, praticar alguma lesão corporal, ultrajar o pudor público e particular, perturbar a ordem, a tranqüilidade ou segurança pública ou for encontrado com armas, incorrerá cumulativamente nas penas cominadas para tais crimes.

E ainda assim, essas mesmas exceções sobem no palco para dizer que a favela venceu.

A favela não vence porque agora você usa AirPods, tem iPhone e viaja pelo mundo. A favela não vai vencer enquanto uma mãe precisar deixar de comer para alimentar seus filhos, enquanto crianças não tiverem acesso à educação e oportunidade de emprego.

Este texto é gigantesco para desenhar — e ainda assim, por alto — o tamanho do problema vivido pelos moradores da favela. Para mostrar o quanto é absurdo dizer que só depende dele, quando uma social máquina de esmagar pretos e pobres está funcionando a todo vapor.

É importante que cada um dê o seu máximo e se esforce para melhorar suas condições. Mas existe um abismo entre dizer que é preciso continuar tentando, e dizer que, se não conseguiu, a culpa é inteiramente dele.

A culpa não só é dele porque o problema é maior que o próprio indivíduo. O problema vai além da ação individualista, porque na maioria dos casos não importa o que ele faça de positivo, ele ainda será morto por um blindado preto com uma caveira estampada.

Não há negócio que salve toda essa gente.

É por essa posição exclusivamente individualista — atribuindo toda responsabilidade e consequência ao indivíduo como se vivesse numa realidade ideal — que a mensagem do empreendedorismo tem pouco para oferecer para aos pobres.

O empreendedorismo pode levar o ambulante para palestrar em Harvard. Poderia ter levado até mil. Mas isso não faria diferença perto dos milhões que ainda sofrem com as condições precárias da vida na favela.

Mas uma única política pública ou pequenas mudanças na forma como os direitos são compreendidos, poderiam dar uma nova perspectiva para centenas de milhares de crianças.

Na introdução da música Capítulo 4, Versículo 3, de 1997 que utilizei no tópico A Favela Tem Cor, entendemos que nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos eram negros. E aqui, vemos um bom exemplo de como políticas públicas podem mudar a vida de milhões.

No ano 2000, antes das cotas, apenas 2,2% dos negros tinham nível superior, contra 9,8% da população branca. 17 anos após a adoção do sistema de quotas o número de negros formados saltou para 9,3% da população.

E claro que todos queremos melhorar de vida individualmente, é a vida que levamos. Só que a batalha maior não pode ser a do indivíduo. Enquanto cada um lutar apenas pelo seu, a exceção pode acabar conquistando uma oportunidade, mas milhões permanecerão no mesmo lugar.

Mas quando ensinamos as pessoas a se levantar e lutar pelo direito de todos aqueles que estão em condições similares às suas, podemos não ver uma exceção em Harvard, mas poderíamos ver milhares de pobres sendo regra nas universidades públicas do Brasil.

E eu sei que vão tentar dizer que cada um tem que cuidar de si, sem depender de ninguém pra isso. Vão tentar dizer que é vitimismo colocar a culpa na política, no governo e nas estruturas sociais.

Mas sem isso, nada vai mudar. Porque foram com políticas governamentais, em primeiro lugar, que essa desigualdade passou a existir.

E é para isso que a exceção bem-sucedida deveria servir. Para apontar, com a força que conquistou, os problemas que ainda existem para outros como ele.

As pessoas que estão em condições difíceis vivem afogadas demais para poder se organizar e lutar pelos seus direitos. A simples batalha da sobrevivência já é intensa demais. Por isso, quem tem voz precisa usá-la.

Quem deu alguma sorte é que deve usar sua voz para cobrar políticas que mudem a vida de milhares ao mesmo tempo, não de um ou dois. Aí quem sabe, poderá se levantar e dizer que a favela venceu.

Porque indivíduo pode até vencer sozinho, mas a favela só vence quando todos vencem juntos.


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