Como o carnaval afeta a produtividade e economia do Brasil

Os reflexos dos 4 dias de festa

Quem navega pelas redes sociais já deve ter percebido um movimento nas últimas semanas. Um grupo cada vez mais crescente surge criticando os dias de Carnaval e o impacto econômico da festa.

É claro que essas críticas estão longe de ser novidade. Todo ano podemos observar os mesmos argumentos sendo reformulados e disseminados nas redes sociais, principalmente por aqueles que tanto falamos aqui, os entusiastas do sucesso.

Dê uma volta pela sua rede favorita e certamente irá esbarrar com algum comentário nessa direção. Gente dizendo que o país para durante 4 dias, que a festa é o ópio do povo e, ainda mais interessante, é por isso que somos um país de terceiro mundo.

A crítica é ainda mais hilária quando feita em inglês e ilustrada com um copo do Starbucks.

O carnaval prejudica a economia do Brasil

É de impressionar que, as pessoas que tradicionalmente criticam o carnaval pelo impacto na economia, sejam as mesmas que apresentam-se como interessados em indicadores econômicos, investimento e finanças.

Não é preciso muita pesquisa para fazer as contas e entender que a maior festa do Brasil, um país que busca turismo como forma de aquecer a economia, é algo incrivelmente positivo. Não por acaso, o Carnaval de 2017 no Rio de Janeiro levou para o estado uma receita de $912 milhões, ou em nossa moeda tupiniquim, algo em torno de três bilhões de reais.

Talvez não seja muito fácil entender o que significa uma receita de 3 bilhões de reais em 4 dias — sendo que dois dos dias são finais de semana e nem devem ser contados como dias produtivos. Mas talvez se falarmos em cotação de bitcoins os entusiastas do sucesso entendam.

$912milhões = R$3bilhões = BTC111.5 mil

Mesmo o Rio de Janeiro sendo o ponto mais forte do Carnaval no Brasil, outras grandes cidades também sustentam festas enormes e que atraem turistas do mundo inteiro, inclusive bilionários que saíram dos seus países para conhecer o verdadeiro Carnaval, a festa que é uma grande parceira da economia brasileira.

Para comparar melhor, o Carnaval de 2017 rendeu, só no estado do Rio de Janeiro, mais do que dois Super Bowls, o evento que muitos críticos do Carnaval exaltavam na mesma semana.

Mas tudo fica parado e ninguém faz nada

Existe o argumento de que ninguém trabalha no período do Carnaval e que este período é um forte inimigo da produtividade do país.

Resolvi procurar algumas estatísticas sobre a produtividade, o rendimento médio do brasileiro que você já entende o que significa — e a produtividade do país ao longo dos meses nos últimos anos.

Os dados nos contam uma história um pouco diferente que os posts do Linkedin.

Segundo os dados da Trading Economics, fornecidos pelo Banco Central do Brasil, entre 2016 e 2018, o período referente ao Carnaval apresenta uma considerável inclinação positiva, demonstrando uma forte recuperação de um outro período — esse sim bem pouco produtivo, o mês de Dezembro.

As festas de fim de ano trazem folgas e recessos. São duas — quase três — semanas onde decisões importantes são adiadas, negócios corporativos tendem a ser deixados para o período pós-festas e todos estão preocupados organizando suas próprias comemorações.

Não podemos culpar o Carnaval pela queda na produtividade.

O que existe por trás das críticas

O que podemos observar como motor das críticas é a boa e velha sinalização de virtude.

Um perfil clássico dos críticos ao Carnaval são pessoas que gostam de sinalizar que trabalham duro, que priorizam o trabalho acima da diversão. É o clube que acha bonito morrer de tanto trabalhar.

Para quem pensa assim, ver pessoas felizes e se divertindo gera um forte desconforto.

Acredito que esse sentimento tão ruim em relação a diversão alheia pode ser sintetizado por uma frase, retirada com ajustes, do Guia Politicamente Incorreto da Filosofia*, escrita por um filósofo muito citado por quem acha que morrer de trabalhar é bonito, Luis Felipe Pondé:

“pobre é insuportável quando está feliz em público”

É preciso explicar, para não cair em erros grosseiros, que Pondé explicita no texto refere-se sobre pobres de espírito, e que ter dinheiro não remove — necessariamente — tal pobreza. No entanto, não há dúvidas de que as pessoas que apontam estes argumentos sobre o Carnaval enxergam o evento como uma festa de pobre— de espírito ou não.

Existe também um enorme fundo moralista na crítica ao Carnaval.

Como é uma “Festa da Carne”, onde é comum beber, fazer sexo e usar roupas ousadas, a pessoa intencionada em sinalizar virtude utiliza os argumentos que encontra para poder gerar controvérsia e buscar adesão ao seu movimento de oposição.

Existe algo mais virtuoso do que criticar uma festa onde todos se divertem e são felizes, porque causa dano à economia?

Também é preciso destacar que existem inúmeras festas de carnaval tranquilas e destinadas a crianças e famílias. A visão distorcida sobre as festas é acentuada apenas como forma de fortalecer a aura negativa do evento.

Imagino que seja pelo mesmo motivo que o Natal e o Ano Novo, mesmo representando — agora sim — uma brusca queda na produtividade do país, não seja alvo de críticas. Tenho certeza que, nesse clube, dizer que as duas semanas paradas pelo aniversário de Jesus não são produtivas seria visto com maus olhos.

Ninguém é obrigado a gostar de Carnaval e existem muitas alternativas para quem não quer sair de casa. A festa também é passível de críticas, e traz alguns problemas graves que precisam ser discutidos, como a exemplo do drástico aumento no índice de acidentes automobilísticos.

O que fica claro é que as pessoas se agarram ao que encontram para criticar o que não gostam, faça sentido ou não. Aqui, o que não pode passar em branco, é o uso de argumentos infundados para reclamar de algo simplesmente porque gera um desagrado pessoal. Se for para reclamar, que o façamos com critérios e informação.


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