Empreender não é a solução para falta de estabilidade no trabalho

Cuidado com os argumentos do empreendedorismo produto

Startup da Real
Jan 18, 2018 · 4 min read

Um discurso bem comum em páginas de empreendedorismo é o papo de que estabilidade não existe.

A narrativa é traiçoeira. E soa contundente para quem bate ponto oito da manhã e escolhe qual boleto vai deixar de pagar ao fim do mês. O medo de perder o sustento é verdadeiro e, por este exclusivo motivo, é um ponto muito atacado por quem tenta vender empreendedorismo.

É importante aqui ter em mente o conceito de vender empreendedorismo, e como a ideia de montar um negócio vem sendo trabalhada como um simples produto.

Todo bom vendedor sabe de cor as objeções de seus clientes, treinando e desenvolvendo argumentos para convencer os interessados de que a compra é uma boa escolha e que seus medos são injustificados.

É com essa mentalidade que entra o ataque à ideia de estabilidade. Para quem vende empreendedorismo, o maior inimigo da venda é o medo que os clientes têm de ficar sem emprego. Não pagar as contas e deixar a família em condições difíceis.

O discurso segue contundente. Notícias de que o desemprego está em alta e servidores públicos sendo exonerados são compartilhadas como corpos de inimigos em campos de batalha.

Vejam como estou certo, estabilidade não existe! Afirma em tom enérgico o rapaz de camisa Dudalina e Rolex cromado enquanto passeia em seu carro por alguma cidade da Flórida.

Para o olhar desatento a afirmação parece verdadeira: se pessoas que trabalharam anos em empresas são demitidos e servidores que fizeram concurso podem ser exonerados, essa tal estabilidade não deve existir mesmo.

Mas o mundo não é tão preto e branco assim.

Esse tipo de argumentação utilizada por vendedores de empreendedorismo já é bem conhecida, sendo frequentemente encontrada em debates políticos.

Utilizando a Wikipédia, explico melhor:

Falso Dilema é uma falácia lógica que descreve uma situação em que dois pontos de vista alternativos, geralmente opostos, são colocados como sendo as únicas opções, quando na realidade existem outras opções que não foram consideradas.

Essa falácia é usada para defender pontos de vista em geral, ela muitas vezes é usada em uma comparação em que uma das opções é completamente descartada pelo seu proponente, restando apenas a que lhe interessa.

Sendo assim, Se estabilidade não existe, você precisa empreender.

A distorção aqui é criar a falsa impressão de preto ou branco, excluindo qualquer possibilidade entre estabilidade e caos absoluto.

É claro que a possibilidade de perder o emprego sempre existe, mas é inegável o fato de que existem empregos mais seguros que outros. Estabilidade não é uma condição binária, mas uma escala que pode variar entre muito arriscado e muito seguro.

Um analista judiciário concursado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo que não cometeu nenhuma ilegalidade tem chances muito menores —estatisticamente nulas— de perder o emprego, que o garçom que trabalha no restaurante japonês da esquina ou, até mesmo, que um analista de sistemas terceirizado em alguma telecom.

Da mesma forma, qualquer pessoa em regime CLT tem chances menores ficar sem pagar as contas do mês do que alguém que decide abrir uma empresa. Principalmente gente com pouco potencial de investimento e fazendo isso com o próprio dinheiro.

Para pessoa comum que trabalha de 8h~18h, regula o dinheiro para chegar no fim do mês e tem dificuldades em depositar 5% do salário para ter uma poupança quando a filha precisar fazer um tratamento de canal, essas nuances no risco de cada atividade são cruciais, e fazem toda diferença na hora de decidir que caminho tomar.

Uma empresa demora para dar lucro. Qualquer negócio, por mais simples que seja, demora para fazer os investimentos —isso de quem tem dinheiro para investir —retornarem, para só depois começarem a virar a balança.

Negócios em fase inicial têm muito mais chances de falir, do que um empregado com trabalho formal tem de perder seu emprego. Um discurso de vendas destinado a desmerecer o medo e a insegurança, convencendo pessoas a abandonarem seus empregos e assumir riscos dessa dimensão é perigoso, quando não, imoral.

Qualquer um que fale sobre empreendedorismo deve focar em quão arriscado é o processo e no tamanho das chances de não dar certo. Não o oposto. É preciso ser extremamente realista ao assumir riscos.

Não deve existir espaço para ações impulsivas.

Nem todo mundo nasceu para empreender. Começar um negócio é arriscado e existem diferentes níveis de risco para a estabilidade de cada modelo de vida.

É aceitável, e até positivo, encorajar o interesse de quem deseja empreender e quer aprender mais sobre o assunto. Mas tratar empreendedorismo como produto, apoiando a venda com argumentos que enganam a percepção pode destruir vidas.

E no fim, quando o empreendedor falido que vendeu carro, usou suas economias e precisa seguir pagando contas precisar de ajuda, a mesma pessoa que o convenceu a assumir tamanho risco não estará lá para socorrê-lo.


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