Neymar, Kanté, Pogba e a super-exaltação da humildade do atleta negro

STICK TO SPORTZ
Sep 4, 2018 · 6 min read

Por rafcl

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Já tem um tempo que eu venho reparando certos padrões de comportamento na mídia esportiva. Sobretudo, no futebol, onde a superexposição dos atletas é crescente e o escrutínio sob suas vidas privadas vem sendo cada vez mais minucioso, acompanhando o crescimento das mídias sociais. Na Copa do Mundo, algumas coisas ficaram ainda mais claras. O pós copa, então, expandiu minha visão um pouco mais. Precisamos acordar para algumas tendências.

Tweet veiculado na primeira reunião da Seleção Brasileira pós Copa do Mundo

Tweets como esse me fizeram refletir sobre algumas questões que perpassam atletas como Neymar, Kanté e as diferentes maneiras que o homem negro é visto e tratado dentro do mundo do futebol.

N’Golo Kanté é um caso singular. Queridinho pelo seu futebol eficiente, que vem desde os tempos do Leicester até o Chelsea, o volante ganhou destaque bem antes do início da Copa do Mundo. Merecidamente beliscou a vaga no time titular da França e foi um dos pilares de um esquadrão histórico. Kanté ganhou o público com seu estilo silencioso de levar o futebol e também a vida. O cara que, em campo, carrega o peso e corre pelo time. Fora dele, é tranquilo, tímido, resguardado. É um jogador de sucesso e uma figura excepcional, sem sombra de dúvidas. Mas é aí que um problema se instala:

O mal (e o único mal) do clamor popular ao Kanté, é que, por vezes, nos deparamos com uma espécie de “super exaltação” da humildade do jogador negro. Como se, para ser respeitado e digno de admiração, o negro tivesse que agir da maneira similar. Ou seja, os jogadores negros que não seguem o modelo Kanté de ser (calados, sem holofotes, sem cabelos estilosos, sem “ostentação”), sofrem críticas por isso. Como se eles não tivessem o direito de fazer as mesmas extravagâncias dos astros brancos.

Em resumo: Não querem — ou não estão acostumados com a ideia de — que os atletas negros sejam ícones midiáticos.

Standard Media

Neymar é um cara que curte os holofotes e isso não é novidade. Na Copa do Mundo, ele tentou quatro penteados diferentes entre o crespo, alisado, permanente, topete. Após a desclassificação brasileira, de quem foi a culpa? Óbvio: do cabelo. Nesses tempos em que a rivalidade entre os ditos raízes e nutellas vem empobrecendo as discussões, uma das narrativas mais frequentes entre os torcedores e membros da mídia era que Neymar estava mais preocupado com o penteado do que com o futebol jogado, como se uma coisa interferisse, de fato, no andamento da outra. Como se ele fosse jogar melhor se tivesse um cabelo “comum”. Como se a humildade dele fosse nos garantir o título. Neymar, negro, não pode ter o cabelo que quer, sem sofrer críticas. Neymar, negro, é ridicularizado com cabelo crespo e também com cabelo alisado. Ah se fosse um Romário, ou um Rivaldo. Negros, mas pelo menos não iriam ter esses penteados mirabolantes!

Instagram/Paul Pogba

Diariamente perseguido na mídia mundial pelas suas danças, cortes de cabelo e escolhas de estilo, Paul Pogba chegou à Copa do Mundo com uma gigante interrogação. Embora multicampeão, condecorado e principal jogador (e contratação mais cara da história) do Manchester United aos 25 anos, rótulos de superestimado e arrogante ainda assombravam a sua qualidade e potencial. Trata-se de um dos jogadores de maior apelo midiático no futebol, que, por incrível que pareça, ainda precisava se provar em todos os jogos, tamanha a desconfiança. Na Copa do Mundo, Pogba escolheu não interferir no seu cabelo, para que assim, os críticos só falassem sobre o seu futebol. Hoje, mesmo campeão do mundo — COM GOL NA FINAL — , o discurso não mudou. Pogba, negro, desperta dúvidas se é mesmo um meia com qualidade técnica. Afinal, Pogba, negro, deveria ser atlético, combativo, e não cerebral. Não é possível que Pogba, negro, tenha custado tanto dinheiro. Afinal, um jogador, negro, com esse cabelo, não pode ser tão bom assim.

Profissionais negros: mais da metade admite já ter alisado ou raspado o cabelo para ser aceito no trabalho. As exigências de “boa aparência” do mercado são altamente brancocêntricas (Divulgação/Etnus)

Não entenda isso como uma crítica pessoal ao Kanté. Nada contra a pessoa, ou o jogador, que inclusive sou fã. Mas a outra coisa que eu sou fã é das liberdades individuais (inclusive de votar no Bolsonaro. Você tem a liberdade de votar nele e eu tenho a liberdade de te achar um arrombado), então não se trata de condenar o jeito do francês. A questão é que, muito por conta do seu sucesso como profissional, a cobrança para que os negros ajam conforme o padrão “aceitável” é ainda maior. O estilo de vida Kanté está sendo encarado como um modelo a ser seguido aos demais jogadores negros, como se eles não pudessem demonstrar suas características. É um processo silencioso de tirar a capacidade do atleta negro em influenciar e ditar tendências, como Pogba, Neymar e muitos outros fazem.

Hoje, para boa parte do público médio, o negro aceitável é aquele que não incomoda sua suposta superioridade. O negro que é quieto, silencioso e não aparece. Que não demonstra resistência. Ou que, pelo menos, serve como alívio cômico. Essa questão infelizmente me lembrou de um termo nojento de cunho historicamente racista: o “negro de alma branca”. Tá difícil de encarar isso sob outra ótica, mas para ser aceito por esse público, o jogador negro tem que demonstrar ser plano e vazio. E coitado do negro que mostre personalidade. Que o diga Raheem Sterling, Mario Balotelli, Memphis Depay, Rio Ferdinand, Daniel Alves, Patrice Evra, entre outros.

“Era o final do expediente, estava trabalhando no computador quando vi a presidente da empresa vir andando na direção da minha mesa. Ela parou e na frente de toda equipe e me olhando com desprezo ordenou: TIRA ISSO! Isso, a que ela se referia, eram as minhas tranças.” (Luanna Teófilo, em Huffpost Brasil)

A questão aqui não é dizer que jogadores como Kanté são vazios, ou postular que todos os jogadores negros tenham que buscar os holofotes. É desconstruir a ideia de que esses dois distintos estilos de vida devam ser conflitantes e excludentes. É exaltar, mais uma vez, as liberdades individuais e fazer com que deixem o negro ser ícone, caso queira. Que deixem que eles sejam quietos, caso prefiram. De certa forma, é fazer que nem fazem com atletas brancos.

Porque é inegável que, por mais que não sejam completamente imunes às críticas, há uma tolerância naturalmente maior aos jogadores de origem caucasiana. Pouca gente estranha ou reclama quando um branco bem sucedido (ou não) é arrogante, corta o cabelo, ou dá uma declaração polêmica. Até porque Ibrahimovic é tido como mito e Deus, sendo que seu maior título foi uma Serie A. Tá na hora de rever alguns conceitos.

Isso tudo é só uma demonstração de um racismo velado e escondido, manifestado nos detalhes do discurso. É um processo quase inconsciente, de tanto que já foi normalizado. Às vezes quem reproduz, nem sabe.

Mas é preciso que a pessoa passe a saber. É preciso desnormalizar.

Afinal coragem, desinibição, inteligência, vaidade, segurança, beleza e poder são características que a classe que se considera superior nunca vai reconhecer nas classes que considera inferior.

Aceitem a excelência dos jogadores negros.

E aceitem suas almas coloridas.

“Se o preto de alma branca pra você

É o exemplo da dignidade

Não nos ajuda, só nos faz sofrer

Nem resgata nossa identidade” — Jorge Aragão

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