Seu Carro Piscou para Mim?

Os desafios do design na era da interação homem máquina.

Em agosto deste ano os moradores Arlington, Virgina nos EUA foram surpreendidos com uma série de relatos acerca de um Ford Cinza que estaria circulando pela cidade sem motorista algum. Após algumas tralhadas jornalisticas na investigação do fato constatou-se que na verdade o carro possuía um motorista, mas que este estava “fantasiado” como o banco do carro, ficando quase indetectável.

Na verdade a empreitada toda trata-se de um estudo desenvolvido pela Virginia Tech Transportation Institute juntamente com a Ford acerca das interações entre veículos e humanos. Com a constatação de que carros sem motoristas são o futuro dos transportes, o instituto está buscando insights para designers de forma a melhorar a sinalizar as intenções do carro

Embora não nos demos conta, imensa parta da comunicação que realizamos se dá na forma não verbal. O cérebro humano desenvolveu-se com áreas especializadas para “Ler” e interpretar o rosto de outros humanos (embora os cachorros também façam isto conosco muito bem”. Muitas vezes comunicamos intenções, desejos ou interesses com um milimétrico movimento de sobrancelhas.

E esta premissa é especialmente verdadeira quando falamos na relação motorista/pedestre, ambos travam um dialogo silencioso alimentado por pequenos sinais que indicam as intenções de cada um. Grande parte das vezes o motorista autoriza o pedestre a passar em frente ao carro com um simples mover da cabeça ou consegue prever o rota de deslocamento de um pedestre baseando-se na direção do olhar dele.

Esta conversa silenciosa faz parte das interações diárias que realizamos no transito, a preocupação da indústria é que com a remoção do motorista gere-se a possibilidade de acidentes, visto que os carros atuais não tem como nos “sinalizar” suas intenções sem um motorista. O estudo deseja obter insights para desenvolver esta comunicação e criar um padrão para a industria. Pode parecer uma ideia estranha, mas só é, porque já estamos acostumados com grande parte dos elementos deste processo. Vale lembrar que o próprio pisca-pisca só foi padronizado na década de 40. Até então a sinalização de intenção de virar era feita manualmente ou através de sinalização mecânica.

Sinalizador Mecânico num Roll Royce 1957.

NORMAN DOORS

Em 1988 o professor Don Norman escreveu o agora notório livro: O Design do Dia a Dia, onde propunha que ao serem concebidos os objetos deveriam ser centrados no usuário. Para o autor o design vai muito além de dar uma aparência bela as coias, trata-se de um ato de comunicação, o que implica o conhecimento do público que irá usa-lo.

Os princípios fundamentais do design seriam: A) Modelos Conceituais -produtos serem fabricados de modo a serem auto-explicativos (permitindo uma compreensão intuitiva da forma de usa-los), B) Feedback - que indicaria um efeito da ação do usuário (por exemplo o bip de aparelhos eletrônicos que nos avisam que estão ligados), C) Restrições — mecanismos que impedem que o objeto seja usado de forma incorreta (por exemplo colocar um cartão de memória no slot destinado a chips de celular), e D) Affordances (termo técnico que significa que as ações apropriadas devem ser perceptivas e as inapropriadas invisíveis).

Por causa de seu livro ficou famoso o termo Norman Door (ou porta de Norman) usado para designar objetos que por conta de seu design inadequado dão sinais errados a respeito de como devem ser usados. No caso em questão você numa se deparou puxando uma porta que deveria ser empurrada? Pois então, trata-se de uma Norman Door.

Norman Doors, do site 99% invisible.

No caso dos carros sem motoristas, o conceito de foco no usuário transforma-se num desafio do design de incorporar uma forma do carro comunicar suas intenções (para onde vai virar, se vai começar a andar) com os pedestres. A indústria automobilística possui um longo histórico de estudos de design voltado a comunicação humana.

Na esfera de marketing imensa energia e esforço foi dedicado ao design dos carros, que vai muito além das funções de ser esteticamente agradável e funcional. Como forma de diferenciação a industria entendeu que incorporando elementos antropomórficos aos carros, poderia conceder-lhe “personalidade” e “identidade”, permitindo ofertas diferenciadas. Assim por exemplo o uso de várias linhas arredondas ou retas confere ares femininos ou masculinos ao carro.

Estudos neurológicos comprovam que temos áreas especiais de nosso cérebro destinadas ao leitura de interpretação de rostos. (Algo que evolutivamente os cachorros também aprenderam a fazer). Nesta linha a compreensão do design de que faróis e grades protetora alinhados compõem um rosto tem sido largamento explorado. (Aliás circula pela net um material divertidíssimo cujo autor desconheço chamado Cars and Their Faces onde o desenhista explicita a cara dos carros).

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