I-Doser: hipótese sobre seu funcionamento

Sobre como o I-Doser pode produzir seus efeitos pela retórica que propaga antes da experiência do usuário

Pretendo, neste ensaio, lançar uma hipótese sobre como o I-Doser poderia conseguir estimular em seus usuários algum efeito de alteração de consciência: não falo que este estado não é possível, só que a estimulação dele não se daria simplesmente pela escuta do áudio.

Antes de você entrar no maravilhoso mundo do direcionamento de sua percepção — calma, você descobrirá o que é isso durante esse texto — recomendo, como trilha sonora, o disco Metal Machine Music do nosso queridíssimo Lou Reed.

Qual o principal problema no I-Doser? É dizer que algum indivíduo que use este produto poderia alcançar estados de alteração de consciência pelo simples fato de ouvir alguns arquivos de áudio com ruídos estranhos — prefiro ouvir música. O problema é a existência de um fetichismo agindo de uma maneira dupla: além de estar escondendo que o áudio em si não altera coisa alguma na consciência dos usuários, esconde que é só mais uma mercadoria que visa a obtenção do lucro e blablabla. A teoria marxista da economia não interessa para este ensaio — embora seja importante para a nossa vida e para esse assunto.

Neste ensaio, tratarei sobre como, na verdade, o I-Doser estimularia um estado mental possível nos indivíduos através da internalização de seus estímulos: a mente, completamente livre de estímulos externos, é campo inexplorado e infinito para a nossa percepção, podendo, então, construir as sensações mais inimagináveis para a percepção, imagens nunca imaginadas ou pensadas — redundância para ênfase.

Adiantando: assumindo que nossa percepção seja, normalmente, mais estimulada pela sociedade do que pelo nosso ego, digo que o I-Doser pode — claro que de uma forma superficial — inverter o estímulo principal dela, fazendo com que nossa percepção se direcione a sentir prioritariamente estímulos vindos do centro de nosso ego, ao invés de estímulos vindos da sociedade.


Reparou que as poucas palavras que falei sobre o funcionamento do I-Doser pode parecer com qualquer prática de meditação? Não? Tem a humildade de assumir que não faz muita ideia do que seja meditar, de fato? Pois bem, falarei um pouco sobre meditação.

Praticar meditação não significa que você deva se tornar um monge de alguma religião oriental qualquer. Tem mais a ver com você conseguir alcançar níveis empáticos com seu ego: vai lá, entendo que o Eu — aquilo que cada indivíduo é — não é nem um mero ego — aquela parte de sua mente que age em função de você mesmo — nem um mero ser social — aquela parte de sua mente que age em função das coisas que não são você — , mas a síntese do processo dialético entre esses dois entes, ou seja, o Eu transita entre esses dois pontos, dependendo do direcionamento da percepção. O que é percepção? É como apreendemos o cosmos, seja lá o que o cosmos for, pois cada percepção é única e incide diretamente sobre a imagem do cosmos que o Eu pode construir. Percepção é — para usar uma metáfora alinhada com nosso mundo embebido em visualidade — ver o mundo. Dita essa palavras, proponho que meditar é se internalizar, é ver o seu ego, ou melhor, ver com os olhos do ego; sem usos metafóricos, meditar é a tentativa de perceber o ego ou de se empatizar pelo ego — que, lembro novamente, não é o Eu.

Para além dessa faceta de finalidade da meditação — atingir o ego — , ela pode ser precedida de deliciosas preliminares que facilitariam esse contato com seu ego. Por exemplo, eu pratico Hatha Yoga, um sistema de prática Yoga que é bastante adaptável às condições físicas e mentais diversas de qualquer pessoa que o queira praticar. Os asanas — as posições do Yoga — e técnicas de respiração, além de terem a potência de transformarem o corpo dos yogues, no sentido de correção postural, aumento na disponibilidade física, etc., também tem a intenção de fazer com que os praticantes do Yoga consigam se distanciar do mundo, no sentido de começarem a prestar atenção naquilo que é liminar entre o ego e o ser social: o corpo, que nada mais é do que o meio de transferências entre os afetos internos e externos em relação ao Eu.

A partir de minha experiência com o Hatha Yoga, vejo que a percepção da existência desta fronteira fez com que eu conseguisse, então, entender melhor os limites existentes entre a sociedade e minha individualidade e acho que esta seja a intenção dos asanas e técnicas de respiração no Yoga.

É a partir desse controle da percepção que o Yoga propõe que se consiga começar a dirigir nossa percepção para o nosso ego. Através de meios de direcionar o nosso pensamento — os asanas e as técnicas de respiração prenderiam a nossa atenção — a prática de Yoga conseguiria nos desvenciliar dos afetos sociais. Sempre que estamos fazendo um asana, por exemplo, direcionamos nosso pensamento para o efeito que a posição está causando em nosso corpo, quanto melhor está nossa prática, mais conseguimos nos concentrar nesse efeito, mais prestamos atenção no corpo e menos prestamos atenção ao mundo a volta. Com essa limpeza prévia de nossa mente através de nosso corpo, podemos então começar a entrar em um contato mais profundo com o nosso ego. Claro que os benefícios físicos do Yoga em nosso corpo são importantes: como esqueceríamos da nossa materialidade e concentraríamos nossa percepção em nosso ego se o nosso corpo estivesse nos afligindo com fortes dores nas costas?

Efeitos corporais do asana chamado de halasana, posição do arado, em português

Vocês, inseridos superficialmente no adorável mundo de um yogue, agora podem começar a entender o ponto em que quero chegar: há uma analogia forte entre o I-Doser e o Yoga. Desenvolverei isso a seguir.

Fala-se em efeito placebo do I-Doser, o que imagino não ser verdade, se se considerar que o I-Doser não seja constituído apenas dos arquivos de áudio, ele é mais do que isso. A retórica propagada pelo I-Doser — as recomendações de como a prática deve ser conduzida — é o que levaria aos usuários deste produto a alcançarem estados alterados de consciência — a tal da empatização pelo ego de que falei anteriormente.

Confira neste link algumas recomendações das coisas que você deve fazer para conseguir os efeitos prometidos pelo I-Doser e, se você estiver concordando com o que escrevi até agora, pense comigo: isso tudo não seria uma forma inicial de se livrar dos estímulos sociais? Elementar, meu caro Watson…

Os arquivos de áudio seriam, então, um complemento às recomendações iniciais propostas pelo I-Doser, agiriam como os asanas ou técnicas de respiração do Hatha Yoga para canalizar seus pensamentos para algo liminar entre seu ego e seu ser social. Os áudios do I-Doser são abstratos de mais para reconhecermos algo de social neles e externos de mais para reconhecermos emanações de nosso ego nele.

Além disso, os áudios do I-Doser são reforçados pelo fetiche construído pela retórica desse produto: fetiche no sentido de um encantamento dos arquivos de áudio, sendo que eles seriam carregados de uma substância mágica — as ondas binaurais — que possibilitaria que você conseguisse alcançar estados alterados de consciência. Tudo isso aprovado pelo selo de científicamente comprovado proposto pela fabricante do I-Doser.

A mais pura das verdades é que tudo o que o I-Doser diz fazer está, de fato, na sua mente e você não precisa pagar para isso, só precisa de um pouco de orientação e treino e xablau: acesso cada vez mais profundo ao seu ego. Não são os áudios que alterariam sua consciência, mas sua própria consciência se alteraria.

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