ilustração: Filipe Henz

Em algum lugar dentro dele (A torre)

“Assobio uma canção desencontrada,
popular, o coração impaciente”
- José Miguel Silva — What use?

O homem bateu com a mão no câmbio e desengatou em ponto-morto. Já naquela parte do viaduto dava pra ver a fileira de carros à frente. Interrompendo a música que cantarolava sem notar: merda, primeiro pensou, e depois “mas que merda”, acabou dizendo em voz alta. Deu três socos no volante. Fez isso talvez porque ninguém mais além dele mesmo pudesse ouvir sua queixa. Descansou o pé esquerdo e deixou que o carro continuasse por inércia, participando do congestionamento que se estirava pela estrada, que entrava na cidade e se perdia por entre os edifícios. Alguém começou a falar no rádio sintonizado em AM. Sem desligar, o homem reduziu o volume até o mudo.

Ainda de cima do viaduto, olhou através do vidro à direita. Embaixo de si a pista aonde o teria levado o último desvio. Sem a devida segurança para tomar atalhos, a falta de familiaridade com o trajeto, não foi capaz de antecipar uma solução para o problema iminente. Quando se deu conta, estava em cima da traseira do Escort vermelho, daqueles que não se fabricam mais, anos noventa e alguma coisa. Baixou o pé no pedal do meio. Seu torso foi cingido pelo cinto de segurança e bateu de volta no encosto. Ouviu o impacto atrás do seu banco e em seguida no assoalho do carro: a cadeirinha do bebê enfiada no vão entre os assentos. Sentiu um aperto na garganta. Olhou para baixo, chacoalhou o câmbio, e depois para frente, quando viu na pequena faixa de espelho do Escort: os olhos postos nele, esperando para culpá-lo.

Em um dia normal, com a estrada liberada, aquele percurso não levaria vinte minutos. Mas agora não poderia sequer imaginar a que horas estaria em casa. Puxou do bolso da camisa o último cigarro, deu umas batidinhas com o filtro no dorso da outra mão — a que ainda segurava o volante. Olhando além do mato alto na beira da estrada, teve a sensação de que já passara por ali, muito antes de se mudar com Virgínia e o bebê, antes de conhecê-la, antes da faculdade. Lembrou-se de que tinha ficado admirado com a enorme plantação de eucaliptos ao longo do caminho. Primeiro não tinha se dado conta, e por ser de manhã bem cedo, havia uma neblina em volta daquela floresta, que avançava pela pista e restringia o alcance das vistas. O perfume das árvores ficara registrado em algum lugar dentro dele. Agora não havia plantação alguma, apenas pilhas de tijolos sobrepostas para novos loteamentos.

Baixou a janela por completo e a fumaça do cigarro se dissipou. Travou o freio de mão, o carro se acomodou, por fim. Parado, rodeado por automóveis, esticou um braço pra fora, estufou o peito, endireitou a coluna e largou a nuca no encosto. Tornou a assobiar a música que estivera cantarolando.

Todas de uma vez, as fileiras de postes se acenderam ao longo da rodovia, cidade adentro, até onde se podia enxergar. Talvez essa seja uma das poucas maravilhas de se morar numa cidade, as luzes, ele pensou. Queria ser o primeiro a mostrar aquilo a Bernardo. Assim que ele pudesse perceber a diferença, queria lhe falar dos postes de luz, explicar-lhe como todos se acendiam de uma vez, de como a tecnologia podia ser maravilhosa. E se ela, Virgínia, estivesse por perto, diria a Bernardo que se tratava de um passe de mágica, que os postes se acendiam porque sabiam que a noite chegava, e que as pessoas não podiam continuar sem enxergar; inventaria uma história dessas e faria uma cara de desaprovação, semicerrando os olhos na minha direção, assim que eu a desmentisse, dizendo se tratar de ciência, de sensores captando a luz solar. Virgínia diria que não vejo a vida com leveza e aquilo prejudicava a imaginação da criança; o menino acabaria por se tornar um homem amargo, tal qual o pai, embotado pela realidade. Então ela traria novamente à tona a história da mudança. Virgínia nunca desejou vir pra esta cidade. Seria melhor estar perto de sua mãe, de pessoas que pudessem ajudar na criação do bebê, pois ela passa o dia inteiro sozinha, enfiada num apartamento, e não importa se o prédio é novo, se acabaram de construir, e o condomínio… Você não vê o noticiário?, ela perguntou, estão interditando condomínios inteiros da construtora! Então o homem respondeu: não seja dramática.

Ele soltou uma fumaça demorada. Sentiu um incômodo que o capturou de sua contemplação, então as buzinas ficaram mais altas; quando olhou, a moto estava enorme no retrovisor, passando ao seu lado, sumindo no corredor de automóveis adiante. Com o susto, puxou o braço para dentro e deixou que o cigarro escapasse, batendo no assento, rolando para o assoalho, piscando em faíscas enquanto caía. Filho da puta, ele pensou. Em seguida repetiu em voz alta e mais uma vez só escutou a si mesmo. Perscrutou entre as fendas debaixo do banco, a aspereza do pó entre as unhas. Trouxe a mão de volta e cheirou entre os dedos. Dentro de sua cabeça, num pano de fundo, havia a música que nunca tinha deixado de estar ali. A música que ouvira mais cedo, ainda no escritório, ou talvez tenha sido algum carro de som no caminho.

As luzinhas azuis do rádio o convidaram a aumentar o volume. Mas não havia outra música. O locutor dava conta do congestionamento: falava do acidente logo adiante, depois de entrar na cidade, a nova cidade para a qual o homem havia se mudado com Virgínia e o bebê. A notícia discorria sobre o edifício Monte Carlo II, recém-construído, e que, por sua estrutura frágil, suas bases instáveis sobre nascentes e canais fluviais, entrara em colapso. Era isso então que impedia o homem de entrar na cidade, que causava todo aquele transtorno, atrasava o encontro com sua família.

Até o momento, não há sobreviventes entre os destroços, disse o locutor.

Naquele instante, não passou pela memória do homem que o prédio para o qual tinha acabado de se mudar chamava-se Monte Carlo II.

Continuou a cantarolar a música que, por mais que tentasse, se recusava a esquecer.