Suicídio em idosos: sequela do envelhecimento?
Autoras:
Elaine Cristina Gama dos Santos-Atuária e Mestranda em Demografia pelo PPGDem-UFRN.
Michelly Vieira do Nascimento-Atuária e Mestranda em Demografia pelo PPGDem-UFRN.

A transição demográfica diz respeito à mudança da mortalidade alta e flutuante, e fecundidade alta, para baixas mortalidade e fecundidade, gerando consequências como a queda da mortalidade, principalmente a infantil, que provoca o aumento da expectativa de vida; e o declínio da fecundidade, que provoca o envelhecimento populacional (Coale, 1979).
Desta forma, o processo de envelhecimento populacional, caracterizado pelo aumento da expectativa de vida da população, vem sendo evidenciado em vários países, tendo como precursores os países desenvolvidos. Por conseguinte, a expectativa de vida, que vem crescendo progressivamente ao longo das últimas décadas (CHRISTENSEN; DOBLHAMMER e VAUPEL., 2009), tende a aumentar ainda mais, acarretando aumentos no número de idosos (VAUPEL et al., 1998).

Diante de sucessivos aumentos na população de idosa, uma preocupação que vem à tona é com a saúde desse grupo de indivíduos. Isto posto, se faz necessário que as instituições públicas invistam no cuidado da saúde desses idosos e identifiquem quais as principais morbidades que atingem esse grupo (GUTIÉRREZ ZURBARÁN et al, 2001). A despeito das morbidades, a população idosa é afetada tanto por doenças físicas, quanto mentais, como transtornos de ansiedade e depressão (CATTELL, 2000).
De acordo com o relatório do World Health Organization (2017), em 2015, cerca de 4,4% da população mundial tinha depressão, doença que é considerada um dos principais fatores que acarretam o suicídio (CATTELL; 2000; WAERN, 2002; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2017). Assim, as mortes por suicídio têm importante representação entre as causas de morte dos jovens e nos grupos de idosos. Neste sentido, para o caso do Brasil, Mello-Santos, Bertolote e Wang (2005) identificaram que a taxa de suicídio entre os idosos é de 6 a 8 vezes maior do que entre jovens, sendo que grande parte dos idosos que cometem suicídio sofrem de depressão ou outras doenças mentais (WAERN, 2002).
Diante de tais evidências, o presente trabalho tem por objetivo analisar o suicídio da população a partir de 60 anos de idade, por sexo e por países. Para tanto, utilizou-se dados do World Health Organization sobre taxas de suicídio padronizadas por idade (por 100.000 habitantes) e informações sobre a expectativa de vida ao nascer por idade, fornecidas pelo Banco Mundial, para o ano de 2016, por sexo e países. Assim, evidenciou-se que o suicídio não é uma causa de morte exclusiva dos jovens/adultos, sobressaindo-se também nas idades mais avançadas.

De acordo com Christensen, Doblhammer e Vaupel (2009), uma queda na mortalidade inesperada e sem precedentes vem ocorrendo desde a década de 70, fazendo com que a sobrevivência de pessoas com mais de 80 anos de idade, de ambos os sexos, aumente de forma acelerada. Diante de tais avanços na expectativa de vida dos idosos, Christensen, Doblhammer e Vaupel (2009) destacam a importância do diagnóstico e tratamento precoce de doenças, o que, consequentemente, pode aumentar o período de morbidade desses idosos, mas os permitem viver mais e de maneira mais saudável, com menos limitações e incapacidades.
Em seus estudos Vaupel et al. (1998) analisam as tendências de desaceleração da mortalidade em idosos da geração baby booms, considerando notável a queda da mortalidade e, consequentemente, o crescimento da expectativa de vida dessa geração. De acordo com os autores, o Japão destaca-se por apresentar umas das maiores expectativas de vida do mundo e uma das menores mortalidades em idades mais avançadas. Os autores acreditam que a população idosa está crescendo devido ao envelhecimento dessa geração, ao aumento da probabilidade de sobreviver na velhice e à redução na mortalidade em idades mais avançadas desde a década de 50.
Figura 01- Expectativa de vida masculina, em 2016, por países

A Figura 01 mostra as expectativas de vida dos homens em 2016, por países. Nota-se que as maiores concentram-se nos continentes da América Central e Europa, e em alguns outros países como o Chile, Austrália e Japão; na África encontram-se as menores expectativas de vida. A maior esperança de vida é vivenciada na Dinamarca (81,7), e a menor em Lesoto (48,9).
Figura 02- Expectativa de vida feminina, em 2016, por países

Na Figura 02 percebe-se a concentração das maiores expectativas de vida feminina nos mesmos países observados na Figura 01, entretanto a maior expectativa de vida, de 87,14, diz respeito às mulheres do Japão, enquanto que a menor, de 53,61, refere-se à República Centro-Africana.
Em seu texto, Horiuchi (1999) traz que em conjunto com a queda do nível da mortalidade houve mudanças no padrão da mortalidade. Ele estruturou as mudanças históricas do padrão da mortalidade em cinco transições epidemiológicas (mudança de longo prazo dos regimes de mortalidade caracterizado pela incidência de doenças, lesões e fatores de risco distintos), onde três ocorreram no passado, indo de lesões externas, a doenças infecciosas, em seguida a doenças degenerativas; mais recentemente o declínio da mortalidade por doenças cardiovasculares e futuramente há a expectativa de que ocorra mais duas: a redução da mortalidade por câncer, e o abrandamento da senescência.
Durante a última parte do primeiro milênio Depois de Cristo uma alta proporção da população humana morreu de acidentes, homicídios (lesões externas), catástrofes naturais, e complicação na gravidez e no parto. Com o aumento da densidade populacional e a deficiência nutricional houve a incidência de várias doenças endêmicas ou epidêmicas transmissíveis em sociedades agrícolas pré-industriais. Na segunda transição houve a redução da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias, bem como distúrbios maternos e nutricionais, e isto modificou as principais causas de morte, passando de infecciosas para degenerativas, como doenças cardíacas.
No final do século XX, países economicamente desenvolvidos apresentaram uma redução da mortalidade por causas degenerativas, principalmente doenças cardiovasculares. Horiuchi (1999) também evidencia a redução da mortalidade dos idosos no final da década de 1950 e o início de 1980, devido aos avanços da medicina e melhoria das condições e modo de vida da população. A mortalidade por câncer não mostra uma redução substancial nos países desenvolvidos, com essa tendência variando de acordo com o tipo de câncer, país e sexo. De acordo com Horiuchi (1999) um declínio da mortalidade do câncer causado pelo fumo foi observado em 1990 no Canadá, Estados Unidos, e União Européia, portanto espera-se que avanços nas pesquisas sobre esta morbidade proporcione um conhecimento futuro melhor de seus mecanismos, auxiliando no desenvolvimento das novas tecnologias médicas para combatê-la.
A proporção de óbitos sem causas especificamente identificadas aumenta com a idade. Isso pode ocorrer devido à tendência de pessoas idosas morrerem por múltiplas causas, o que dificulta a identificação da causa específica da morte, ou devido aos idosos morrerem sem a clara manifestação de qualquer doença, o que Horiuchi (1999) reconhece ser a ocorrência da senescência. Para o autor a redução da morte por senescência ainda é algo muito precoce, entretanto devido aos estilos de vida saudáveis tanto físico como mental, a maior disponibilidade de tecnologias médicas para prevenir e tratar as doenças degenerativas e devido à pesquisa em gerontologia estar explorando os mecanismos biológicos que podem conduzir a tecnologias médicas que retardam os processos senescentes, faz com que, segundo o autor, essa desaceleração seja possível.
Em suma, a redução da mortalidade da população no decorrer do tempo vem acompanhada com mudanças das principais causas de morte. Na Tabela 01 verifica-se que a principal causa de morte em 2016 no mundo foi a cardiopatia isquêmica, seguida do acidente vascular cerebral; o Alzheimer e outras demências foram as causas de 1.991.708 mortes, os vários tipos de câncer foram responsáveis por mais de 4 milhões de morte, o HIV/AIDS ainda provoca um número considerável de mortes (1.011.992), ocupando a 18º posição, e 793.307 pessoas cometeram o suicídio em 2016.
Tabela 01- Principais causas de morte no mundo em 2016

O relatório do World Health Organization (2017) apresenta dados referentes ao ano de 2015 sobre a prevalência de depressão e outras doenças mentais a nível global e regional, bem como dados sobre as possíveis consequências dessas doenças para a saúde. De acordo com os autores, o número de pessoas com depressão mundialmente era de mais de 300 milhões, em 2015. Neste ano, 4,4% da população mundial tinha depressão, sendo mais comum em mulheres (5,1%) do que nos homens (3,6%). Os transtornos de ansiedade atingiam cerca de 3,6% (264 milhões) da população mundial, afetando mais as mulheres (4,6%) do que os homens (2,6%). Em relação às consequências da prevalência da depressão e/ou outros transtornos mentais, os autores identificaram a depressão como um importante colaborador para mortes por suicídio, sendo estimadas, em média, cerca de 800 mil mortes por ano. Desse modo, o suicídio é apontado como o responsável, a nível global, por quase 1,5% do total de mortes, estando entre as 20 principais causas de mortes no ano de 2015. Cerca de 78% desses suicídios ocorreram em países de baixa e média renda.
Segundo Minayo e Cavalcante (2010) o número de suicídio varia pelo mundo, dentro dos países, entre sexos e grupos etários. Apesar dos levantamentos e atenção dados ao suicídio na juventude, os índices para os idosos apresentam-se consideráveis, e devido ao aumento dessa população nos anos subsequentes, esses suicídios continuarão aumentando, havendo uma previsão de que até 2030 esse número será maior (BARRERO, 1999). Desta forma, o suicídio entre as pessoas idosas se constitui atualmente um grave problema de diversas sociedades ao redor do mundo (MINAYO; CAVALCANTE, 2010).
Figura 03- Taxas de suicídio padronizadas por idade (por 100.000 habitantes) masculina, entre 60 a 69 anos, em 2016

A Figura 03 evidencia a taxa de suicídio dos homens por 100.000 habitantes, em 2016, no primeiro grupo de idosos adotado no presente estudo, de 60 a 69 anos. Observa-se uma maior taxa de suicídio principalmente na Rússia, Cazaquistão, Lituânia, Zimbábue, Suriname e Eritréia, onde houveram de 55,9 a 69,9 suicídios de homens entre 60 e 69 a cada 100.000 habitantes. Em relação aos continentes, as Américas do Norte e Central e a Oceania apresentam uma menor taxa de suicídio em comparação aos demais, na América do Sul enquanto o Brasil, Bolívia e Peru, por exemplo, apresentam uma taxa de suicídio entre 14 a 28 suicídios entre 60 e 69 anos a cada 100.000 pessoas, no Uruguai e na Guiana Francesa esse valor fica entre 28 a 41,9 suicídios, já na Guiana foram entre 41,9 e 55,9 suicídios e fica em destaque o Suriname, apresentando a taxa entre 55,9 a 69,9 em 2016, apresentando como o único país da América do Sul que comporta esse alto número de suicídios de idosos homens. Entretanto, os continentes que apresentam a concentração desse tipo de causa de morte são na Europa, África e Ásia.
Figura 04- Taxas de suicídio padronizadas por idade (por 100.000 habitantes) feminina, entre 60 a 69 anos, em 2016

Quanto ao sexo feminino, quando comparada as Figuras 03 e 04 nota-se algumas divergências entre os suicídios por sexo, com a taxa de suicídio das mulheres se concentrando mais na Nigéria, Libéria e Uganda. Na China houve 22,6 suicídios para cada 100.000 mulheres de 60 a 69 anos, sendo o único país da Ásia com uma taxa de suicídio maior que 14 óbitos por 100 mil habitantes. O continente africano agrega as maiores taxas em relação ao mundo, nos demais há uma taxa entre 0,0 e 14,00 suicídios a cada 100.000 mulheres.
Figura 05 — Taxas de suicídio padronizadas por idade (por 100.000 habitantes) masculina, entre 70 a 79 anos, em 2016

Como apresentado na Figura 05, as maiores taxas de suicídio são vivenciadas, por idosos de 70 a 79 anos, em países na África, Ásia e Europa. Entre os países desenvolvidos, os que apresentam maiores taxas de suicídio são Eslovênia, Luxemburgo, Áustria, Suíça, Bélgica e França. Nas Américas, destaque para os Estados Unidos, Alasca, Groenlândia, Cuba, Haiti, República Dominicana, Chile, Argentina, Uruguai, Guiana e Suriname. No Brasil, a taxa de suicídio entre os homens de 70 a 79 anos é de 19,4 óbitos por 100 mil habitantes. Os países em que a taxa de suicídio masculina é maior que 80 mortes por 100 mil habitantes estão situados no continente africano, com exceção da Lituânia. As menores taxas são evidenciadas em países da Ásia e do Caribe.
Figura 06 — Taxas de suicídio padronizadas por idade (por 100.000 habitantes) feminina, entre 70 a 79 anos, em 2016

Em relação à população feminina de 70 a 79 anos (Figura 06), as maiores taxas foram apresentadas em países da África e Ásia, com destaque para Lesoto (133,7), Uganda (107), Nigéria (98,6) e Libéria (97,1). Observa-se que para esta faixa etária os diferenciais entre as taxas de suicídio dos países são menores para o sexo feminino. Nos países desenvolvidos, as maiores taxas são observadas em Luxemburgo, Suíça, Bélgica, França e Japão. No Brasil, para essa faixa etária, a taxa de suicídio feminina é cerca de 3 (três) vezes menor (6,3) em comparação com a masculina (19,4).
Figura 07 — Taxas de suicídio padronizadas por idade (por 100.000 habitantes) masculina, de 80 anos e mais, em 2016

No grupo etário de indivíduos com 80 anos ou mais, para os homens (Figura 07), os países que apresentaram as taxas de suicídios mais elevadas estão situados na África, Ásia e Europa. As maiores taxas foram evidenciadas em Zimbábue (285,0), Senegal (231,3), Burkina Faso (214,7), Togo (187,6) e Cabo Verde (178,9). Entre os países desenvolvidos, as maiores taxas são da Suíça (107,3), França (96,8), Eslovênia (96,4), Áustria (91,8), Bélgica (71,8), Alemanha (68,9), Dinamarca (56,4), Estados Unidos (49,7) e Suécia (47). No caso do Brasil, essa taxa foi de 31,9. As menores taxas foram observadas em ilhas no Caribe e na Islândia — na Europa.
Figura 08 — Taxas de suicídio padronizadas por idade (por 100.000 habitantes) feminina, de 80 anos e mais, em 2016

No caso das mulheres com 80 anos ou mais, destacam-se as taxas de suicídio de Lesoto (210,4), Zimbábue (152,4), Uganda (137,2), Libéria (126) e Nigéria (123,9). Na Ásia, prevalece a China, enquanto na Europa ressalta-se a Suécia e França. Em relação aos países desenvolvidos, as maiores taxas são observadas na Suíça (71,1), França (60,1), Dinamarca (45,3), Suécia (44,2), Bélgica (42,9), Holanda (29,9) e Noruega (29,1). Nas Américas há os menores número, no Brasil, por exemplo, essa taxa é de 12,3, menos que a metade da taxa observada para o sexo oposto.
Observa-se que, quanto maior a idade desses idosos, maior a taxa de suicídio observada. No que diz respeito aos diferenciais de gênero, a taxa de suicídio dos homens é maior que a das mulheres na maioria dos países. Para Cattell (2000), entre os homens, as taxas de suicídio aumentam com a idade, além de serem maiores do que as das mulheres, nas idades maiores de 75 anos, em quase todos os países desenvolvidos. Assim, a mortalidade por suicídio entre os homens é cerca de três vezes maior que a das mulheres. Desta forma, o suicídio estaria associado a fatores de risco como ser do sexo masculino, além de apresentar transtornos mentais e/ou doenças físicas incapacitantes (MELLO-SANTOS; BERTOLOTE e WANG, 2005).

Em suma observa-se um número considerável de suicídios entre a população idosa, sendo o sexo masculino considerado um fator de risco para a ocorrência do suicídio (MELLO-SANTOS; BERTOLOTE e WANG, 2005). Os idosos são acometidos de várias doenças incapacitantes, dentre estas a depressão vem se tornando mais frequente entre essa população (CANALS, 2010). Cattel (2000) aponta que as taxas de suicídios mais altas entre os idosos estão mais relacionadas a doenças mentais como depressão e transtornos de ansiedade.
Barrero (1999) ainda aponta outros fatores que podem desencadear o suicídio na terceira idade, como doenças terminais, dolorosas e incapacitantes como o Alzheimer e as neoplasias; sentimentos de solidão pelo abandono da família e inutilidade decorrente do abandono das práticas habituais; perda de familiares, como a viuvez, a migração forçada passando a residir com diferentes membros da família em um período curto do tempo, e ao ser posto em um lar de idosos que com a fase de adaptação pode desencadear atos destrutivos; e atitudes indelicadas que a sociedade pratica com os idosos, a perda do prestígio e problemas enfrentados em relação à aposentadoria. Quanto maior o número dessas condições acumuladas, maior o risco da ocorrência do suicídio.
Devido a estas situações, o aumento da expectativa de vida e do número de idosos está relacionado com o crescimento do suicídio nos anos subsequentes (CATTEL, 2000). Entretanto, apesar do continente africano apresentar as menores expectativas de vida do mundo, evidencia também as taxas de suicídio mais elevadas, se comparadas com outros países, como os das Ásia, isso demonstra que o aumento da expectativa de vida não necessariamente está relacionado ao número de suicídios em todas as regiões do mundo, podendo por exemplo as razões que levam os idosos da Ásia a tirarem a própria vida serem diferentes dos da África. Assim, a ocorrência de suicídio pode estar relacionada à prevalência de doenças físicas, ao isolamento social e à solidão (CATTEL, 2000). Isto posto, o aumento da expectativa de vida apresentou-se mais importante para a ocorrência de suicídio de indivíduos, com mais de 75 anos de idade, de países desenvolvidos.
Portanto, necessita-se oferecer mais serviços de acolhimento, esclarecimento e de melhorias na qualidade de vida física e mental dos idosos - cujo volume tende a crescer nos próximos anos - a fim de evitar que alguns desta população enxergue o suicídio como sua única saída.

