Identidade das Lutas (1):
As lutas coletivas na era das identidades fragmentárias.
Este diálogo será dividido em duas partes, nesta primeira pretendo apontar alguns problemas relativos a construção das identidades e das palavras/conceitos utilizadas para sua determinação. No segundo artigo, meu foco será apontar como os movimentos sociais podem lidar com esses problemas de determinação identitária tendo em vista a necessidade da construção de uma luta coletiva feita por indivíduos de identidades tão heterogêneas.
A minha intenção com estes textos é contribuir infimamente para uma questão que apesar de muito necessária encontra pouco espaço de debate na esfera pública, e quando, por caminhos tortuosos lá chega, hoje, se vê dominada por discursos e recursos que, minha opinião, não nos tem auxiliado a avançar na construção de um arcabouço dialogal e teórico, e de um saber experimental, capazes de fazerem surgir novos e relevantes paradigmas e espaços de construção de discursos.
A minha questão é: Como construir uma luta coletiva coesa e abrangente a partir da união de indivíduos cujas identidades são heterogêneas, evitando a lógica da construção de uma identidade única e excludente? Em outras palavras, como juntar um monte de gente diferente para lutar por uma causa comum sem querer obrigar todos a adotarem uma identidade pessoal única e exclusiva?
Identidade
Sim, de fato, a “identidade” só nos é revelada como algo a ser inventado, não descoberto; como alvo de um esforço, de “um objetivo” como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais — mesmo que, para que essa luta seja vitoriosa, a verdade sobre a construção precária e eternamente inconclusa da identidade deva ser, e tenda a ser, suprimida e laboriosamente oculta.
Atualmente, é mais difícil esconder essa verdade do que no início da era moderna. As forças mais determinadas a ocultá-la perderam o interesse, retiraram-se do campo de batalha e estão contentes com a tarefa de encontrar ou construir uma identidade para nós, homens e mulheres, individual ou separadamente, e não conjuntamente. A fragilidade e a condição eternamente provisória da identidade não podem mais ser ocultadas. O segredo foi revelado. Mas esse é um fato novo, muito recente.
(Bauman, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Editora Zahar. 2005.)
Toda identidade é uma determinação circunstancial. O fato é: o individuo que escolhe qual aspecto de individualidade destacará como o que melhor representa a ideia que tem sobre si mesmo, em determinado momento, e que este aspecto destacado nunca será capaz de representar a infinidade de características dentre as quais ele possui que podem ser identificadas e nomeadas, isso sem falar daquelas que não tem uma classificação formal mas que estão lá, como parte integrante de sua identidade.
O ato da determinação de uma identidade não se dá apenas em relação a qual característica isolada o individuo privilegiará em detrimento das outras, é importante também notar que as circunstâncias em que ele fará essa escolha também é fator determinante nesse processo.
Outro ponto importante nessa discussão é que a determinação de uma identidade nunca apresenta um caráter puramente particular, sendo um processo que leva em consideração um espaço comum de interação das identidades, um espaço que transcende o particular. A existência e relevância deste espaço é que torna a escolha de uma identidade privilegiada um processo das interações políticas da vida cotidiana.
Se me afirmo como negro (raça), por exemplo, estou definindo uma identidade que se relaciona à outras cuja definição se dá pela chave racial, estou então em interação com estas outras identidades, e isso é um posicionamento dentro deste universo. É a partir desta posição dentro do cosmo destas identidades definidas pela mesma chave que irei enunciar meu discurso e construir minha atuação, me aproximando e me afastando de outros atores-identidades, de seus discursos e posicionamentos.
O Vazio do Signo: Um problema da determinação
Na parte anterior minha intenção era fazer compreender que a determinação de uma identidade é sempre um ato discricionário e de posicionamento. Agora minha intenção e apresentar o problema da construção de uma identidade sobre signos/conceitos cuja principal característica é a possibilidade de uma multi-determinação por serem entidades vazias. Assim sendo, o preenchimento destes signos/conceitos se dá de forma arbitrária e não definitiva.
Quando um indivíduo se define a partir de um recorte de sua identidade, sua intenção é reforçar sua adesão às características que esse recorte traz consigo, características que ele mesmo atribui ao recorte que fez. Deste modo quando dizemos que somos ‘trabalhadores’, podemos querer evidenciar mais do que o fato de que executamos um trabalho, este é apenas o primeiro nível de leitura, o nível literal, é nos outros níveis, em certos casos, que encontramos as características que se quer enunciar, porém é o contexto que determina o nível de interpretação necessário.
Em certos contextos, dizer que se é trabalhador, é o mesmo que dizer que se é, honesto, responsável, confiável, produtivo, superior, inferior, igual, etc… As características que se podem atribuir a uma única palavras/conceito são muitas, e nem todos indivíduos irão compartilhar de todas. Ressaltando o fatos de que as próprias características atreladas à palavra apresentam muitas possibilidades de determinação.
Desse modo, ao se dizer ‘trabalhador’ o indivíduo está ao mesmo tempo, fazendo um recorte de sua identidade e determinando os significados que atribui a esta palavra/recorte fazendo com que estes apareçam momentaneamente como expressão total de si, porém, para que isso seja possível o indivíduo deve agir utilizando-se de um conceito fechado do que significa ser ‘trabalhador’, ou seja, seu discurso não pode admitir que coexistam diversas interpretações sobre o que ser ‘trabalhador’ significa, porque deste modo sua interpretação não seria capaz de corroborar sua determinação identitária privilegiada com intensidade suficiente para marcar com clareza seu posicionamento frente a outras identidades do mesmo campo de interação.
A disputa pela hegemonia
No espaço da vida política o significado das palavras/conceitos estão permanentemente em processo de disputa, e essa disputa adquire um caráter muito mais intenso quanto maior for o potencial de uso político que esta palavra/conceito possua. E é nesses casos que se evidência, no campo dos significados, um processo de conflito para determinar qual interpretação se tornará mais hegemônica, qual possuirá mais legitimidade enquanto “verdadeiro” significado.
Essa disputa acontece devido ao fato de que restringir o significado de determinadas palavras conceitos em torno de características privilegiadas por determinado indivíduo/grupo é uma ferramenta muito eficaz no momento da construção dos discursos no campo político. Uma palavra/conceito hegêmonica que esteja a favor do discurso que se enuncia possui muito mais força argumentativa do que outra que seja aberta a diversas interpretações e ou seja ainda objeto de muita disputa.
Esse conflito é extremamente importante para os movimentos sociais, principalmente para aqueles que reivindicam direitos, ou contestam o poder exercido de forma desigual por outros grupos dentro da sociedade, isso acontece porque são esses movimentos, grande parte das vezes, que tem que lidar com a necessidade de fazer surgir novas interpretações das palavras/conceitos, ou de dar força a interpretações marginais que se pretendem agora hegemônicas.
Importante aqui é compreender que não existe a possibilidade de um fim para este conflito pela determinação de uma palavra/conceito, essa dinâmica é parte inerente ao campo de interação destes significantes, e um projeto de definição total e final irá inevitavelmente fracassar. Esse é um processo cultural incessante e irreprimível, e é exatamente por isso que toda determinação identitária é frágil e precária, posto que sempre estará alicerçada sobre palavras/conceitos inerentemente mutáveis e eternamente disputadas em sua determinação.
Fim da Parte I
Leituras:
Bauman, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Editora Zahar, 2005.
Saussure, Ferdinand de. Curso de linguística geral - 27ª ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
Hall, Stuart. A identidade cultural na pós modernidade — 4ªed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.