Morte representada na cultura

Uma investigação sobre quais expressões culturais a única certeza que temos em vida assumiu ao longo da história.



Enquanto sociedade, não nos sentimos confortáveis com a ideia de mortalidade. Talvez por isso, a morte — e a tentativa de prorrogação da sua chegada — seja um assunto tão enraizado em nossa cultura. Crescemos em meio a intervenções cirúrgicas, rituais religiosos ou artifícios científicos para atingir a imortalidade. Conforme envelhecemos, refletir sobre a morte se torna uma constante inevitável.

Uma playlist com músicas sobre a morte e suas diversas representações para degustar durante a leitura. Aperte o play!

Apesar dessa reflexão ser mais comum em circunstâncias fúnebres, ela bate à nossa porta em diversos outros momentos por meio das produções culturais — arte, literatura, música, cinema, moda, fotografia e televisão.

Qualquer produto da cultura, naturalmente, é resultado de um contexto histórico. Entre os séculos 14 e 19, por exemplo, quando a expectativa de vida foi afetada por epidemias que assolaram o mundo de maneira descontrolada, a morte teve participação cativa em parte considerável das criações artísticas e literárias do período.

As produções variam de acordo com o contexto. Com isso em mente e observando obras de datas distintas, vamos mergulhar numa breve análise das identidades que a morte assumiu ao longo da história. Vem comigo!

“Para uma mente bem estruturada, a morte é apenas uma aventura seguinte.”
— J.K. Rowling, Harry Potter e a Pedra Filosofal
"A Single Man" (2009), de Tom Ford

Consciência e aceitação do óbito como fato irrevogável.

Aqui a analogia funciona como assistência ao luto pessoal. É o caso do primeiro filme de Tom Ford, A Single Man (2009), maravilhosamente carregado de metáforas visuais sobre a separação súbita de um casal apaixonado. De belíssima fotografia, figurino impecável e desfecho trágico, a trama acompanha 24 horas da vida de um professor que deseja superar a perda de seu amado.

Ainda sobre luto, só que de um modo lírico, Eric Clapton concebeu a primorosa “Tears in Heaven” para lidar com a tristeza causada pela partida de seu filho. A canção evidencia a saudade de Eric, mas ao mesmo tempo vislumbra um bem-estar que parece distante. Um fato curioso: Clapton retirou a música de seu setlist em 2004 por não conseguir se conectar com ela como quando a lançou, em 1992.

No papel de admissão do fim na qualidade de inelutável, a série Ghost Whisperer (2005–2010) cumpre bem a representação. Ela conta a história de Melinda Gordon (Jennifer Love Hewitt), uma jovem que consegue se comunicar com os espíritos perdidos no plano terrestre que, de alguma forma, ainda não conseguiram aceitar a própria morte. Melinda ajuda não só quem passou dessa para melhor, como também as pessoas que eles eram conectados em vida.

A dicotomia morte/vida e suas implicações religiosas e científicas.

Registros escritos sobre a relação inerente entre morte/vida existem desde as primeiras civilizações. É o caso do Livro dos Mortos, um conjunto de feitiços e orações criado pelos Egípcios para ajudar o falecido em sua viagem para outro estágio de existência. Daí a importância de conservar o corpo por meio da mumificação, porque eles acreditavam que o morto tomaria posse do mesmo em sua nova etapa.

Em 1818, a autora Mary Shelley deu origem a uma das criaturas mais conhecidas da literatura romântica — Frankenstein — em seu romance O Moderno Prometeu (1818). Entre as múltiplas interpretações, pode-se dizer que o embate morte/vida está presente do início ao fim da narrativa. Tais significados são trazidos à tona na trajetória de Victor Frankenstein, a qual alude ao dom divino da criação/fim da vida.

“I’m not afraid of death; I just don’t want to be there when it happens.”
― Woody Allen

Outro mistério encontrado no livro de Shelley é a pós-morte. Até hoje, tanto a ciência quanto a religião não conseguiram afirmar o que acontece depois que alguém morre. Existem sim sugestões, o que depende de cada cultura. O costume de juntar pedaços de teorias para compor uma resposta plausível a antigos questionamentos pode ser considerado característica latente da sociedade pós-moderna. Esses remendos de verdades que constroem nossa crença estão diretamente ligados aos remendos de carne e restos de defunto usados para criar o próprio Frankenstein.

Gustave Doré, “Death on a Pale Horse” (1865).

E quando falamos em crença, não dá para não mencionar a personificação da morte em várias culturas. A mais famosa delas é o Ceifador, seja como coletor de almas ou como causador da morte literal. De álbuns de heavy metal à pinturas sinistras, a sua estética geralmente tem base na imagem da caveira. Veja a ilustração acima de Gustave Doré, “Death on a Pale Horse” (1865).

Morte, vida, amor e luxúria na Comme des Garçons de Rei Kawakubo, SS15

A passagem inexorável do tempo.

Cercado pelo onírico e o macabro, o suicídio das irmãs Lisbon em As Virgens Suicidas (1993), apesar de desastroso, revela outra tragédia: a austera passagem do tempo como morte cotidiana. Em seu primeiro romance, Jeffrey Eugenides estampa a tortura da alma causada pelo desgaste da rotina em um relato na primeira pessoa do plural, recurso pouco usado na literatura.

A fotógrafa Ana Oliveira retratou a passagem do tempo em sua série “Personalidade”. Para ver mais, clique na imagem!

A lamentável certeza de que o instante passado não volta mais pode ser encarada como alusão à morte. Ela possui viés motivacional no poema “O Tempo” de Mário Quintana:

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas… Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo.
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Todo dia acima do chão é um bom dia.

A morte, por vezes, assume um caráter indireto ou coadjuvante, não sendo necessariamente citada, mas ainda assim presente em referências relacionadas. Para celebrar a vida, algumas produções culturais imaginam realidades utópicas em que a humanidade vive em paz. John Lennon e sua transcendental “Imagine” (1971) é uma dessas obras que aspiram um mundo melhor, no qual as pessoas não tenham razão para matar, seja pela falta de ganância e guerras ou pela gratidão de estar vivo.

Neste mesmo caminho, o filme Restless (2011), de Gus Van Sant, nos conta o encontro de Annabel e Enoch, dois jovens que se conhecem em um funeral. Enoch, ainda compensando a perda de seus pais, conhece Annabel, uma jovem com câncer terminal e três meses de vida. A atmosfera mórbida que paira sobre as personagens influencia o comportamento delas. Se a morte junta os dois, é a vida que os fazem se apaixonar. Aliás, Van Sant é dono de outros longas sobre a morte, esses mais contemplativos, como “Elefante” e “Paranoid Park”, mas que valem sua atenção.

LOST (2004–2010) entra para a safra polêmica dessa representação. A história dos sobreviventes da queda de um avião em uma ilha enigmática teve um final divisor de opiniões. Há quem pense que toda a experiência se passou no purgatório, enquanto outros pensam que os eventos da ilha realmente aconteceram, mas o purgatório era a realidade paralela em que as personagens viviam. Todavia, a série tem como ingrediente catalisador a vida. É nela que vemos pessoas errarem e aprenderem. No fim, o que importa mesmo é a experiência obtida em vida.


“Everything, everyone, everywhere ends.”
— Six Feet Under

Representação simbólica de questões sociais.

Enquanto crítica à sociedade, esse papel tomado pela morte teve origem no final do século 19, quando o fim da escravidão, a luta de classes e o liberalismo de fachada se instauraram. Da época, um representante categórico, conhecido dos brasileiros, é o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis.

O fato do protagonista estar morto possibilita a sua isenção e distanciamento da sociedade. Tal separação do mundo físico concede o direito a Brás Cubas de zombar e criticar o que e quem ele quiser. A ironia marca a obra inteira, a começar pela dedicatória encontrada na abertura que exprime a revolta pela vida ou a insignificância do ser humano diante da natureza:

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas.” — Brás Cubas

Uma das séries mais icônicas da televisão, “Six Feet Under” (2001–2005), também usava a morte como veículo para debater temas sociais cabeludos. Carregado de humor negro, o show tinha uma dinâmica de narrativa bem sólida. O arco central trazia o falecimento de alguém, que servia para explorar tabus como homossexualidade, drogas, racismo, infidelidade, entre outros.

“The Walking Dead” (2010-presente) ironicamente sugere zumbis como cura para uma sociedade doente. O pior vilão, no caso, é o homem.

Fim iminente como propulsor narrativo.

Calcado no romantismo sombrio, Edgar Allan Poe utilizava a morte e seus aspectos físicos — a decomposição de cadáveres, pessoas enterradas vivas, reanimação de mortos — como tema recorrente em suas criações. Edgar se opunha aos significados óbvios na literatura, por isso suas ideias eram calculadas e dosadas, tendo um único efeito como objetivo.

Apesar dos muitos elementos que o trabalho de Poe trouxe à literatura universal, um em especial contribui para nossa causa: morte como objeto de investigação e a figura do detetive. Em Os Assassinatos da Rua Morgue (1841), o detetive C. Auguste Dupin, considerado o primeiro da ficção, apura uma série de assassinatos brutais. O conto deu início ao gênero policial, o qual seria desenvolvido melhor posteriormente por outros autores célebres, como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie.

Morte como ser iminente em ambientes assustadores, causada por serial killers, fantasmas ou outras criaturas sobrenaturais, é a representação favorita dos filmes de horror e suspense. Este recurso narrativo, que funciona bem para prender a atenção do público, provavelmente é a expressão mais atual em relação às outras apresentadas neste artigo.

Christopher Lee em “Drácula” (1958)

Se você chegou até aqui, deve ter percebido que não importa a dimensão ou protagonismo que a morte tenha nas diferentes obras, ela sempre vai servir de fomento para representações maiores. E apesar do contexto, do formato e do meio definirem essas estruturas narrativas e a frequência com que o tema é abordado, uma única coisa é certa: a mórbida constatação de que ela tem papel garantido em qualquer história ficcional a ser contada, porque faz parte da história real das nossas vidas.

Quais outras máscaras a morte ostentou na cultura?

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