Objeto quase… social

“O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável.” — John Stuat Mill, 1868.

Não se sabe ao certo quando o evento conhecido como ‘a inflexão’ começou.

Há algum tempo já havia deixado de fazer sentido se relacionar no território dos microblogs. “O espaço é muito limitado”, começaram a dizer alguns. “O que de fato importa se perde no meio de tanta interação inútil”, argumentavam outros.

Com suas breves biografias de 160 caracteres embaixo dos braços, todos já haviam embarcado rumo à novas terras no mundo digital. Lá a vida era um livro aberto e a imaginação o limite. Todos podiam expressar de variadas formas o quão felizes eram. Registravam suas opiniões e convocavam amigos, mesmo os mais distantes, através de um aviso instantâneo, quase telepático, para comentá-las. Mesmo sem muito assunto, facilmente, todos podiam tornar sua refeição mais recente assunto do dia ou, sem esforço, tornar seu animal de estimação motivo de comoção geral. Com tantos incentivos e intermédios — vistos quase como intervenção divina — se relacionar parecia mais fácil. E, por um tempo, todos curtiam isto.

Mas então começou a acontecer. O início foi tímido. Alguns entraram em contato com o assunto do dia e simplesmente decidiram não reagir, simplesmente por achar que não tinham nada a acrescentar. Mais que isso, decidiram continuar com suas rotinas e também não criticar os que comentavam. Tão pouco avisar que não tinham nada a dizer sobre.

Passado algum tempo, outros escolheram cancelar as atualizações e avisos de novas conversas em seus aparelhos de conexão digital, retornando apenas vez ou outra para saber o que era novidade naquele lugar onde tudo acontecia. Olhavam ao redor, cumprimentavam alguns conhecidos de vida agitada por ali, e se desligavam. Sim, se desligavam.

Com o passar do tempo, surgiram outros ainda, que informavam aos mais próximos alguma forma de contato, e simplesmente apagavam todo e qualquer sinal de sua existência por ali. Foram considerado loucos. “Como esses indivíduos acham possível sobreviver isolados?” esbravejavam alguns, recebendo em resposta grande quantidade de apoio e comentários. “Nenhum homem é uma ilha!”, parafraseavam outros, com enorme número de compartilhamentos.

Nesse meio tempo surgiram alguns aproveitadores que anunciavam a todos que passariam um período sabático em uma viagem de libertação daquela prisão digital… mas que em breve voltariam para conferir quantas curtidas sua missão havia recebido, prometendo transformá-la em um grande reality show digital.

Mas então vieram mais. O número de pessoas escolhendo por vontade própria sair não fazia sentido. Se antes aquele povo se considerava mais evoluído por serem quase ⅓ da população mundial sempre conectados, agora esse número caia vertiginosamente. E nem sequer apagavam sua contraparte virtual. Apenas a abandonavam, de uma hora para outra.

Em uma corrente exponencial, todos começaram a deixar a terra prometida de lado. Por um tempo, os poucos que restaram por lá tinham medo do que encontrariam do lado de fora. “CORRÃO para as montanhas!” ironizavam os que ainda tratavam tudo como um grande parque de diversões, cientes da grafia errada que usavam. A verdade é que mesmo eles não viam mais sentido em estar ali, sem audiência, sem amigos.

***

Os que viveram antes da inflexão jamais imaginariam que esse dia chegasse. E ainda demorariam mais alguns anos até que os portões da antiga meca fossem abandonados definitivamente. Mas o fim já não era encarado com medo, e sim como um novo e vibrante recomeço. Enfim havia chegado o dia em que todas as pessoas decidiram deixar de se importar com as redes sociais e dedicar suas vidas simplesmente… a viver.

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