Este texto vai frustrá-lo

Quando o entretenimento vira paranóia

Cedo ou tarde, todo mundo se sente perdendo tempo na vida. É como se estivéssemos jogando a existência fora, seja ativamente drenando nossos recursos vitais ou simplesmente assistindo seu esgotamento.

Surge um mal-estar persistente, um descontentamento contínuo, acompanhado de uma ansiedade genérica (“tenho que fazer alguma coisa”, “tenho que mudar de curso”). Uma encruzilhada existencial.

Há quem passe por isso somente algumas vezes na vida. Talvez num desses grandes ciclos de mutação pessoal reconhecidos pela nossa cultura (adolescência, meia-idade, mudanças de emprego, fins de relacionamentos amorosos).

Porém, após a Segunda Guerra — com a criação e constante transformação da chamada Indústria Cultural —, a partir da rápida popularização até a atual onipresença da ideia de entretenimento, as encruzilhadas existenciais parecem surgir com cada vez mais frequência.

Quando tudo, de alguma forma, se transforma em entretenimento, o fantasma do descontentamento se solidifica ainda mais. Ficamos extremamente sensíveis, como crianças superprotegidas que desenvolveram sistemas imunológicos fracos.

A fórmula parece ser: quanto maior o entretenimento, maior o tédio, a ansiedade e a paranóia. Junkies de diversão, procuramos novas telas, outros amores, sensações mais radicais, novas religiões ou qualquer coisa que possa ser “entretenimentalizada”. E, claro, usada para gerar dinheiro.

Comportamento compulsivo

Quantas vezes você se pegou dando reloads compulsivos em telas, procurando… qualquer coisa? E-mails, notificações, até mesmo uma querela em redes sociais. Algo que o tirasse daqui.

Nesse estado de aceleração mental, as nuances, as sutilezas, a dinâmica e os ritmos da vida vão perdendo o colorido, se tornando um chapado sistema dualista — preto versus branco, feliz versus fundo do poço, doente versus saudável. E você se acostuma a viver num estado de auto perseguição, de autoanálise e comparação simplista: “por que, afinal, não estou feliz?”, “isso me faz feliz ou não?”

Você pode até mesmo cercar-se de aparelhos para medir e classificar a si mesmo (wearables, smartphones). E, depois, de gadgets para medir a eficiência deles. Pode mesclá-los com sistemas mais sutis de autocomparação, como filosofias, religiões, ciências e, claro, profissões. Até mesmo a família pode se tornar uma bizarra tentativa de entretenimento — suas brigas, sua manutenção, suas mudanças ao longo dos anos.

De novo, o mal-estar

No meio disso, algo em você se rebela e declara: “estou perdendo tempo”, “minha vida está passando”. É o microgerenciamento cotidiano do entretenimento, que começa a pesar. Torna-se, também, parte da paranóia.

E nosso hábito é o de nos engajarmos novamente em mais atividade: “preciso mudar”, “pra onde correr agora?”.

Esse é o problema: o desejo de fugir. De buscar mais entretenimento. Ainda mais numa sociedade que, a alguns séculos, aprendeu a acreditar que mudar significa necessariamente progredir. Que parar para respirar significa decair. Estagnar = horror.

E agora? Onde está a resposta? Onde fica o botão do reload? Onde devo me engajar? Quem vai me conceder um update? Quem vai nos salvar? A Apple? O Google? Alguma startup? Um super-herói de franchising? Diga-me alguma coisa clara. Tire-me daqui.

Talvez agora seja o melhor momento para cortar o pensamento. Radicalmente aqui. Deixar o leitor (e o autor) sentindo a suprema abertura de uma não-resposta. Que também não é o romantismo da dúvida. Suspensos no ar, tentaremos apenas relaxar. Sem entretenimento.

Quanto tempo vamos aguentar até abrir o próximo link?