(3) Apagão

“Filha. Esse moço aí. Hippie — ainda existe isso, filha, hippie? — esse cabelo. Olha, tu podes gostar dele, eu mesma quando tinha a tua idade também… mas entende, deixe eu te dizer logo, por favor, ele não servirá pra tua vida. Não servirá.”

Isabela ouvia a voz de sua mãe ressoando naquela cozinha pequena, azulejos tão comezinhos, a mesa e as cadeiras de plástico, a cozinha do apartamento de quase quarenta metros quadrados que dividia com o namorado, um cabeludo riponga chamado, pasme, Caetano. Pela primeira vez havia lhe ocorrido que estava há cerca de meio ano casada para todos os efeitos com um hippie chamado Caetano e quis rir, mesmo estando com ele à sua frente, tristonho e amedrontado. Ela enxergava como ele era bonito até naquela cozinha, porém.

Isabela estava grávida de Caetano e por isso estavam os dois sentados um de frente para o outro. Ela fumava com afinco cada cigarro que conseguia, ele reclamava a cada cigarro aceso. “Apaga isso, Isabela, por favor”. Na terceira vez ela finalmente respondeu. “Foda-se. Foda-se, porra. Como se você não tivesse passado a tarde fumando maconha na sala.” Estar grávida de Caetano não era exatamente uma notícia, assim, feliz, como podemos notar. Ela não sabia como contar isso para a mãe. Ela não sabia sequer como acordar e ir trabalhar no dia seguinte. Isabela estava há meia hora, desde quando havia se sentado ali na cozinha com o namorado, se dando conta do tanto que não sabia.

Ela não sabia até como conversar com o namorado sobre a gravidez. Conseguiu apenas dizer a ele a notícia e depois acendeu o primeiro dos cigarros da noite. “A gente tá grávido”, foi como ela disse. “Descobri hoje de tarde, um mês e meio, o médico me falou”. Caetano segurou na mão dela feito um clichê de cinema mudo. E veio o silêncio e os cigarros.

A cozinha estava às escuras, bem como o apartamento porque Caetano havia esquecido de ir no banco pagar a conta de luz. Esqueceu disso há dois dias atrás, inclusive. Daí Isabela furiosa com ele de folga em casa o dia tocando violão com seu primo e queimando erva, enquanto ela estava no ginecologista descobrindo que esperava um filho daquele homem tão menino. Estava muito calor naquela noite e Isabela suava. Caetano pediu pra ela falar alguma coisa, qualquer coisa, por favor. Isabela falou.

“Eu não quero esse filho, Caetano.”

Aquilo doeu nela. Porque ela percebeu que não amava o homem que pensava amar, e descobrir essa verdade justo daquele modo também não parecia digno aos dois. Caetano era um bom companheiro, um namorado delicioso, um homem bom e um menino cativante. Mas não servia. Caetano argumentou que poderia trabalhar mais horas no estúdio — ele era músico, guitarrista e violonista com talento — e poderia aceitar mais convites para tocar em turnês, fazer uma grana. Isabela repetiu a frase. Dessa vez repetiu com os olhos firmes no rosto do interlocutor, como que definindo a questão, aquela criança que mal vivia já estava condenada a não ser, não seria o primeiro filho deles, não seria o arcabouço sobre o qual aquele namoro caminharia para ser uma família, não seria nada além de uma lembrança péssima, de um final melancólico. “Eu não vou ter essa criança, Caetano.”

Caetano, então, chorou. Chorou envergonhado de si e com raiva do mundo, com raiva da televisão na sala, com asco de todas as salas de consultórios médicos da Terra. “Eu queria tanto poder abraçar o meu filho”, entre um soluço e outro saiu de sua boca. Isabela apenas fumava e ouvia o lamento. “Eu queria tanto não te amar agora, Isabela. Tanto.”

Isabela não sabia mais o que fazer com Caetano agora. Se deu conta que na noite anterior, quando fizeram sexo com alguma graça mas já sem a urgência das primeiras vezes, que aquela provavelmente tinha sido a última vez. Ela tentou lembrar então do pau dele, o pau que a tinha engravidado há um mês e meio, endurecendo entre seus dedos e a boca de Caetano com um beijo tão particular, o beijo que anunciava a trepada no horizonte já palpável, assim como uma das mãos do amante firme em seu peito. Na noite passada em especial, sentiu a vontade de tentar fazer o namorado gozar somente com sua mão, queria sentir o pau dele pulsando e ver o rosto se retorcendo, adorava como seus olhos se abriam e ele mordia os lábios, mas Caetano veio firme para dentro dela, gostou de sentir a entrada e lhe mordeu uma orelha de alegria. Isabela queria ver o pinto mole de Caetano tão triste agora. Não achava o pau de Caetano especialmente bonito, apesar de gostoso.

“A gente não precisa de amor, não, Caetano. A gente precisa conversar outra hora. Vamos dormir.”

Isabela foi pra cama pensando em marcar uma consulta no dia seguinte com o gineco e dizer ao médico que não iria ter a criança. Não contaria jamais para a mãe. Esconderia até da irmã mais velha. Caetano ficou na cozinha, dentro do escuro, na cadeirinha de plástico, triste.