Conto breve

Tirinha de André Dahmer.

Então, é verdade mesmo?

Estávamos distantes, quer dizer, embora todo mundo estivesse com aquele papinho bobo, dizendo todos estão cada vez mais separados por causa da tecnologia, as coisas continuavam as mesmas, sabe? Ao meu lado poderia estar uma pessoa qualquer, poderia mesmo tocar, beijar, até mesmo morder, continuaria não cabendo nada entre eu e essa pessoa. O nada prevalece como sempre. Empatia está faltando no mercado, nas igrejas então, nem me fale.

Mas vamos pensar assim, fazia muito tempo que não nos víamos presencialmente. Ah, nem mesmo por internet.

Eu tinha que contar a ele, o novo presidente do Brasil era um idiota.

“Todos os políticos são imbecis.”

“Dessa vez é diferente, Isaac.”

“Sim, eu vi a reportagem no N Times… Cuidado, querida. A cautela de sempre… Sei lá. A gringarada tá também se metendo por aqui, acham que estamos loucos.”

A conversa era digital, mas ele sempre gostava de escrever como se não estivesse na rede. Não conheço o motivo, mas deixo o jogo recíproco, apesar dos anos virados.

“Sou mulher, não posso esconder. E minha pele…”

“Apenas morena, não?”

“Você sempre foi um isentão, vai tomar no cu.”

Algumas respirações depois, uma ligação de áudio. Não atendo.

“Foi o corretor, quis dizer: Você é um pão. Já o tomar no cu, esse se mantém, seu babaca.”

A distância… mesmo que metafísica — é uma dádiva.