O VÍCIO DA PELE

Tandra
Tandra
Aug 31, 2018 · 5 min read

Meu corpo está viciado. Doses excessivas de uma mesma droga. Droga? Não! O conceito só serve para demonstrar o quão dependente minha pele está da dele. Minha mente Freudiana apenas imagina. Eu quero só sexo, mas meu corpo o ama, e ele ainda nem o experimentou.


Acredito que ele esteja dizendo coisas muito importantes. Sua expressão séria, a rouquidão da sua voz grossa, o jeito como molha os lábios para não ressecar, seu balbuciar que as vezes parece pronunciar meu nome, é… ele definitivamente está falando algo muito sério. Seu terno feito sob medida por um alfaiate, sua boca carnuda, esse cabelo por arrumar, essa barba feita no dia anterior, e até mesmo como franze a testa me requeriam mais atenção que qualquer assunto.

- Doutora? Doutora? Está tudo bem? A senhora quer conversar outra hora?

- Não, não, perdão, estou aqui pensando em… em tudo isso (“em tudo isso que é você” — pensei). Por favor, prossiga

- ok, como eu dizia, nesse sentido o lucro da Sociedade Coligada oriundo do exterior irá entrar aqui pelo regime do Lucro real, o problema é que…

E se aqueles lábios encostassem nos meus? Sua boca parece tão macia, seus olhos negros seriam a única escuridão que poderia me engolir. Sua pele morena parecia combinar tão bem com a minha pele branca amarelada. E se suas mãos de repente encontrassem meu corpo? Ou se seu corpo resolvesse fazer parte do meu? Seria a única bagunça de entre e sai que eu gostaria de ter…

- Com isso Dra, quando atualizarmos o valor contábil do investimento ao valor equivalente à participação societária da sociedade investidora no patrimônio líquido da…

Eu poderia lentamente desabotoar o único abotoado do seu terno e todos os botões de sua camisa. Passaria lentamente minhas mãos em seu abdômen até abraça-lo nas costas. Chegaria seu corpo para mais junto do meu, enquanto ele ia descobrindo seu paladar em cada linha da minha pele, começando pela nuca, e descendo, chegando aos seios, parando, aproveitando, se esbanjando, chupando e mordiscando, e descendo, umbigo, e descendo…

- Por fim, acredito que é por essa linha que deveríamos seguir, sem claro, se esquecer do Transfer Princing, o que acha?

Porra! Transfer Princing? Que dose amarga de realidade. Me recompus.

- Dr. Precisarei dá mais uma estudada, apenas por preciosismo se não se importar, posso te encaminhar um parecer logo mais à noite?

- sim, sim claro. Ficarei até mais tarde para cumprir um prazo para aquela empresa americana. Então não se importe com o horário, desde que seja ainda hoje. Pode ser?

Acenei que sim e ele saiu da minha sala. Seu perfume o fazia ainda presente. Ombros largos, costas largas, alto e esguio. Que delícia de homem e eu nem sei o porquê de sentir aquilo por ele. Ele nem era o cara mais bonito que já vi. Mas ele tinha algo que me chamava, que me cobrava respostas. Era algo de pele, carnal, animal, intenso só de pensar. Isso me preocupa, não se pode confiar em quem te faz arrepiar a pele sem nem mesmo te tocar. É foda! Na carne tudo é mais forte.

Deus! Preciso trabalhar.

Já se passava das onze da noite quando terminei meu parecer, enviei para seu e-mail e comecei a me aprontar para ir embora. Mandei mensagem para alertar sobre o e-mail e me despedindo, ele logo respondeu:

“ se importa de dá uma lida na peça de defesa que te falei mais cedo?”

Não poderia negar, ele era meu chefe e era gostoso. Ah!! Como eu queria aquele corpo.

“posso, claro, poderia imprimir e trazer em minha sala por favor?”

Minutos depois estava ele lá novamente na minha frente, agora aguardando minha opinião.

- Acho que está ótimo, só mudaria essa parte aqui e explicaria melhor a equivalência patrimonial deficiente do caso concreto. De resto, perfeito.

Entreguei o documento como quem queria segura-lo, prender no corpo apenas para ele vir pegar. Ergui a mão para entregar, ele ergueu para pegar e ficamos os dois ali parados, calados, nos olhando. Bastou poucos segundos para perceber sua respiração descompassada, ou seria a minha? Ele disparou a me olhar. Eram olhos nos olhos, mas que comiam o corpo. Borboletas brincando no estomago, gelei. Desviei o olhar, peguei minhas coisas e fui rumo a porta. Ele veio atrás, também para ir embora. E num súbito momento de loucura eu parei, ao invés de abrir a porta eu tranquei. Ele entendeu o que eu quis naquele mesmo segundo e no segundo seguinte já estávamos nos beijando.

Tateando sem pudor cada canto do meu corpo. Hora presa na parede de frente para ele, suas mãos em arabesque num ritmo de ballet para cegos de minha pele. Hora de costas para ele, sentindo sua protuberância rígida em minha bunda, que agora ele apertava para sentirmos ainda mais o roçar tão rítmico de nossa dança. Tirei seu terno. Abriu minha blusa. Desafivelei seu cinto. Me virou para frente e tirou meu sutiã. Desabotoei sua calça. Subiu minha saia. Parou a me olhar, admirar. Admiração mútua. Como ele era gostoso. Se ajoelhou na minha frente e de repete começou a orar em línguas para “Deusa” que existe entre minhas pernas.

Levantou com a boca cheia do meu impudico sabor escorrendo em seus lábios e compartilhou comigo. Que delícia! Nos escoramos na mesa e então eu senti. Senti ele todo dentro de mim. Idas e vindas. Meu corpo era sua estrada. O que outrora fora ballet agora era rock. Quem diria que um dia iria pedir com ardor um rock pesado.

Entre o respeito e o vil. Torpor, furor, suor e malicia. Pelos, peles e apelos. Uma ode ao nosso tão divino e sagrado quanto profano, momento. Eu poderia descrever mais detalhes, poderia ser grossa e dizer que só cabia a mim e ele, mas, a verdade é que não tenho forças. Estou desfalecida em prazer orgástico. Ele está aqui ao meu lado, brincando de desenhar com o dedo em meu corpo. Talvez amanhã bata a dor do arrependimento, por isso é melhor aproveitar, já que é para se arrepender então que valha a pena.

Começamos a nos beijar de novo…


Tandra

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Tandra

Nem sempre escrevo tudo aquilo que sinto. Mas, sempre sinto tudo aquilo que escrevo.

EuLírico

EuLírico

A subjetividade do escritor. Quando o mundo exterior se converte em vivência interior.

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