O Caçador, O Cão e A Mariposa

Aisha nunca havia estado nas savanas africanas antes. Sempre fora uma garota de cidade grande, de altos prédios e shoppings de intermináveis lojas. Agora estava ali, completamente nua, caminhando vagarosamente. E sob seus pés descalços sentia a terra crua.

A brisa do entardecer atingia seu corpo fazendo seu cabelo esvoaçar da mesma maneira que curvava a relva. Ela afastou os braços do corpo e abriu as mãos como se quisesse aproveitar ao máximo essa sensação.

Mas o momento durou pouco. Algo lhe incomodou, uma intuição aguda que lhe atinge a mente, e ela olhou para trás. O pôr do sol ofuscava parte da sua visão, mas mesmo assim ela podia ver a silhueta de um homem se esgueirando no campo aberto. Ele segurava em uma mão uma lança e na outra um grande escudo, era um guerreiro, um caçador. E ela sua presa.

Não pensou duas vezes antes de disparar em fuga ao mesmo tempo que via os pássaros levantando voou. Olhava para trás freneticamente e constatava o óbvio: a distância entre ela e seu predador só diminuía. Correu e correu, com todas as suas forças, com toda a sua vontade.

Correu tanto que de repente se viu em outro cenário, um lugar escuro e frio. Um lugar de cores cinzas e deprimentes. A sua frente uma enorme construção se levantava imponente e intimidadora. Era uma igreja com grandes portas e sinuosas estatuas religiosas.

Com a força que lhe restava, empurrou a pesada porta dupla até abrir uma fresta suficiente para se espremer para dentro. Quando finalmente passou, fechou a porta atrás de si e deixou a pesada haste cair e sela-la. Estava segura novamente.

Apoiada contra a porta respirava de maneira frenética e ofegante. Sentia seu coração bater de tal forma que poderia pular do seu peito. A medida que sua adrenalina baixava sentia mais frio. Um frio cortante e opressor. Ela precisava se cobrir.

Aflita começou a procurar algo na nave da igreja. Agora podia ver toda a sua imensidão em estilo gótico. Todas aquelas esculturas lhe encarando davam a clara sensação de que ela não era bem-vinda ali.

O gélido silencio da assombrada igreja foi quebrado por passos. Mas não os passos quase silenciosos dos pés descalços de Aisha, mas os passos de uma criatura quadrúpede que avançava sem pressa pelo corredor principal.

Aisha se virou lentamente para encara-la e quando o fez quase caiu sentada com o susto. A criatura tinha a forma inconfundível de um cachorro, mas não parecia ter pele nenhuma, sua carne estava toda exposta e pulsava lentamente enquanto escorria uma secreção viscosa contaminando o chão por onde passava. Seus caninos, também expostos, salivavam chamas e seus olhos crepitavam como fogo.

Aisha rastejou recuando o máximo que pode até encontrar uma parede. Estava encurralada e petrificada de medo. O cão se aproximava cada vez mais e de tempos em tempos rosnava iluminando a nave com seu hálito flamejante.

Sem saída, Aisha começou a escalar a parede até uma rachadura no telhado por onde podia ver a luz prateada da lua. Por lá saiu o mais rápido que pôde, deixando para trás a criatura infernal.

A noite ao relento estava ainda mais fria que a assombrada igreja, então se encolheu em seus próprios braços procurando se esquentar.

Enquanto flexionava suas mãos nos braços sentiu algo posar em seu ombro. Assustada se virou para constatar que era apenas uma mariposa de asas grandes e douradas. Seu toque foi reconfortante, mas isso não durou . Sentiu uma picada e por reflexo afastou o inseto que por sua vez levantou voo.

Enquanto Aisha verificava a picada que havia levado mais insetos começaram a lhe cercar. Assustada ela balançou seus braços para afasta-los, mas eram tantos, tantos, que isso era impossível.

As mariposas pareciam se multiplicar e rapidamente a envolveram. Ela sentiu sua respiração se esvair, sufocada pelos insetos. Foi tomada por uma escuridão completa quebrada apenas pela dor de centenas de picadas e uma risada esganiçada ao fundo. A risada era sincera e antiga, tão antiga quanto o próprio tempo. Até que em meio a essa escuridão abriu seus olhos…

Estava em seu quarto no internato. Olhou para o lado assustada e viu Diana dormindo na cama ao lado. Então respirou aliviada.

Sentiu seu corpo completamente molhado de suor por debaixo das cobertas e se perguntou o que significava aquilo. Vinha tento esse mesmo pesadelo todas as noites há quase uma semana, desde o misterioso sumiço do grupo de alunos.

O sonho era o mesmo, as vezes mudando a ordem dos ataques, mas sempre terminava com ela sucumbindo ao som de uma risada e as vezes o vislumbre de um homem negro tirando suas luvas…