Coligações a prefeito e as relações partidárias no Brasil

Na rede de coligações para a disputa de prefeituras nas cidades com mais de 200 mil eleitores o PT aparece bem isolado. A rede do PSDB é a mais ampla, sendo este também o partido que mais agregou apoio às suas candidaturas. O PMDB aparece descolado do PT, mas também do PSDB. Na raia de fora, o PSOL foi o que mais lançou candidatos nas maiores cidades do Brasil e, pra isso, aceitou apoios não programáticos.

Olhar para as coligações partidárias feitas para a disputa do cargo de prefeito nas cidades brasileiras com mais de 200 mil eleitores, além de explicar como estão as relações interpartidárias neste conjunto das maiores cidades, parece representar bem a divisão política atual do Brasil pós-golpe.

A política vem sendo tratada no país de modo altamente bipolarizado, mas uma análise da rede de coligações aponta que entre pró-golpe e anti-golpe, ou petralhas e coxinhas, há alguns matizes mais.

Considerando os partidos que mais receberam coligações de outros partidos em suas próprias candidaturas é possível identificar a existência de até cinco blocos partidários nas disputas ao executivo destes municípios, liderados por PSDB, PMDB, PSB, PT e PSOL.

Neste primeiro grafo, os maiores nós, do lado de fora, são os hubs. São os partidos que mais tiveram adesões de outros partidos às suas candidaturas. Já as linhas indicam de quais grupos vieram as alianças que sustentaram suas candidaturas.

De cara, é possível dizer que a oposição se encontra num período de isolamento, além de segregada. O bloco liderado pelo PT, conhecido pela amplitude de suas coligações, é bastante reduzido, o que indica um movimento dos demais partidos de tentar dissociar sua imagem do PT nos municípios e uma retração da força do partido.

O bloco do PSOL destaca-se como um grupo de oposição sem muitas conexões com a base partidária que antes compunha o governo de Dilma Roussef, nem com ninguém. Ao mesmo, tempo, é possível verificar que o PSOL recebeu coligações de fora do seu espectro ideológico em candidaturas suas, como professa a narrativa tradicional.

Embora unidos no movimento para retirar o PT do poder, é possível visualizar uma divisão entre o PMDB e o PSDB. Ao menos no que diz respeito às articulações municipais, os dois agrupam bases partidárias distintas no conjunto de suas candidaturas municipais. O PDT, embora tenha declarado oposição ao governo Temer, estabeleceu mais relações com a base do PMDB nos municípios do que com a oposição.

Entre eles há um grupo liderado pelo PSB e composto, entre outros, pela Rede e o PSD. Em maior parte, corresponde ao grupo de partidos mais divididos em relação ao impeachment.

Mas interessante olhar também de outro modo. Invertendo a lógica para os partidos que mais apoiaram candidaturas alheias, fica claro que os partidos menores tendem mais a apoiar do que se lançar em disputa. Os menores nós, neste caso, são os que menos apoiaram candidaturas de outros partidos, justamente os principais.

Mas além desta obviedade, interessante a comparação das relações. No outro grafo, as relações dos principais partidos eram mais heterogêneas, havia mais relações extra bloco. Isto é, quando o assunto é apoiar outros partidos, a tendência é priorizar o bloco, mas quando o assunto é receber apoio este critério parece mais fluído.

O PSOL apareceu inexpressivo nos grafos, dado seu isolameno em termos de relações interpartidárias. Porém, o PSOL foi o partido que mais lançou candidaturas nas cidades com mais de 200 mil habitantes. Das 92, o partido pleiteou o cargo do executivo em 79 cidades.

É possível, com isto, considerar que o PSOL tenta se projetar nas grandes cidades como uma alternativa progressista. Seu isolamento quantitativo, porém, destoa do isolamento qualitativo. Conforme já apontado acima, a base de apoiadores de candidaturas do PSOL contou com relevante quantidade de apoios de fora do seu bloco ideológico. Isto é, seu esforço de expansão está relacionado também com o desafio de manter coerência com o discurso.

Edição em 10/10/2016

Dados

Esta análise foi feita no Gephi a partir de conversas com o Prof. Wagner Pralon, sobre uma análise feita pelo O Globo para todas as cidades do país. Aqui foram consideradas apenas as 92 cidades com mais de 200 mil eleitores. Os dados compilados e usados estão disponíveis para download e livre reutilização. Por favor, avise-nos caso reutilize os dados.