AINDA SOBRE O SERTANEJO E AS MÚSICAS MAIS TOCADAS DE 2016

Meu modesto post com uma análise sobre as músicas mais tocadas de 2016 bombou. Participei de várias discussões e testemunhei várias polêmicas em torno da supremacia do sertanejo contemporâneo nas ondas do rádio brasileiro: nove entre 10 canções do Top 100 do ano pertencem ao gênero. Resolvi expandir o tema e tecer considerações sobre algumas reações ao fenômeno (que li em redes sociais).

Matheus & Kauan (ou seriam Kauan & Matheus?): 2º vídeo mais tocado no YouTube, 3º artista brasileiro mais ouvido no Spotify, 12ª canção mais executada no ano. Prazer em conhecer!

1: “Isso é o sintoma da decadência da nossa música popular. Onde estão os grandes poetas, os compositores geniais etc?”

O filtro da nostalgia é uma merda. Muitos dos que se horripilam com o naipe da atual música pop brasileira radiofônica esquecem de um detalhe: 99% da música pop radiofônica mundial é e sempre foi descartável. Repare, descartável, não necessariamente ruim: feita para ser consumida rapidamente, sem muita reflexão, e para ser dispensada em velocidade semelhante. O sertanejo contemporâneo é produzido nesse esquema de linha de montagem, visando apenas explorar a predisposição do público ao gênero e a receptividade inercial da mídia. Historicamente, música feita nessas condições não tem a ambição de durar mesmo. Mas muitos dos mais iluminados momentos do pop mundial foram feitos em moldes semelhantes — early Beach Boys, a geração Brill Building, early Motown, Phil Spector. Tudo depende do talento de quem está puxando as cordinhas.

Já os poetas e compositores estão por aí, onde sempre estiveram: à margem. Estilos “sérios” e “profundos” como a MPB e o rock nunca foram realmente populares, a não ser em surtos espasmódicos. Enquanto os engajadões derramavam lágrimas ao verem Chico no exílio, o Brasil “real” chorava com Waldick Soriano e Odair José. E no mesmo 1986 em que o BRock chegava ao seu auge criativo, com Dois, Cabeça Dinossauro e Selvagem, o disco mais vendido do ano foi o Xou da Xuxa Vol 1. Então não adianta chorar as pitangas pelo passado glorioso do pop radiofônico brasileiro: esse passado é pura memória afetiva. O sertanejo contemporâneo não é nem pior, nem melhor que a média dos sucessos populares VERDADEIROS dos últimos 35 anos.

2. “É preconceito chamar o sertanejo de ‘música de dor de corno’”.

Não é preconceito, é constatação. Há quem prefira o termo “sofrência”; os mais tradicionalistas chamariam de “música de fossa”. Também aí não há originalidade no modus operandi. Letras com alguma variação sobre o tema do amor que leva ao sofrimento já eram entoadas na Idade Média. De lá para cá, romances fracassados nunca deixaram de ser assunto preferencial do cancioneiro popular. Claro que há versadores que conseguem compor uma “Idiot Wind” ou uma “Nervos de Aço”, enquanto outros só alcançam “Estou indo embora, por favor não implora / Porque homem não chora”, mas até aí, cada cabeça uma sentença.

3. “Os dados compilados são confiáveis? A dominação das paradas pelo sertanejo chegou mesmo a esse nível de hegemonia?”

Há alguns anos, o levantamento da Crowley (no qual o post original se baseou) é considerado pela grande mídia um termômetro confiável da execução em rádios brasileiras. Outros serviços similares, como o da Connectmix , apontam resultados muito semelhantes entre as músicas mais tocadas. Um levantamento preliminar do Ecad mostrava seis sertanejos entre as 10 mais tocadas. Entre os cinco vídeos mais tocados do ano no YouTube, dois eram sertanejos. No Top 5 de artistas mais ouvidos do ano no Spotify, quatro são sertanejos; entre os cinco álbuns mais acessados, quatro são sertanejos. Quer dizer, se a porcentagem real não chegar aos 90% apontados pela Crowley, tá muito perto.

Isso é problemático, não pelo sertanejo em si, mas pela massificação que gera empobrecimento. É ruim ter 90% do airplay dominado por um único estilo, seja ele rock, eletrônica, pagode ou sertanejo. Não me lembro de ter visto uma ocupação tão maciça e unificada do mainstream; nas outras ondas popularescas recentes (a primeira onda sertaneja no início dos 1990, a lambada, o pagode romântico, o axé, Mamonas e seus imitadores), bem ou mal sempre havia algum contraponto. Mas em 2016 o sertanejo virtualmente varreu toda a competição.

Quanto mais hegemônico é o sucesso de um gênero, menor é o incentivo da indústria para ousar e divergir da norma. A lógica dos empresários e gravadoras é aumentar a oferta de duplas cada vez mais parecidas umas com as outras, tentando capitalizar sobre a febre vigente. Com isso, a tendência é o nivelamento por baixo, até chegar a um ponto de saturação que abra caminho para uma nova moda musical. Mais uma vez, isso não é exclusividade da indústria sertaneja. Todo modismo musical inicia-se com pioneiros legítimos, que são sucedidos por artistas genuinamente influenciados por eles, que são sucedidos por clones descarados e comercialóides. Resta saber em qual ponto da curva o sertanejo está neste momento.

Outro questionamento sobre a extensão real do domínio sertanejo envolve a música gospel. Todos os levantamentos citados acima não consideram a execução de canções gospel, apesar da crescente presença de rádios 100% dedicadas ao gênero em praticamente todas as cidades brasileiras. Neste post, há um ranking compilado pela Crowley apenas sobre os hits gospel de 2016. Mas é impossível comparar com o levantamento sobre o pop “secular”, pois a pesquisa evangélica 1) se restringiu a 30 rádios, enquanto a secular abrangeu mais de 300 e 2) rádios gospel obviamente só tocam música gospel, o que causa uma natural distorção nos dados.

4. “O sertanejo é o novo pop brasileiro?”

De fato, é. De direito, ainda não. Musicalmente, tá quase lá. As composições do sertanejo moderno incorporaram levadas dançantes influenciadas pelo axé, pelo forró eletrônico e pelo funk e investem em refrões grudentos que poderiam se encaixar em lambadas ou pagodes. É, sem dúvida, o estilo mais popular do momento, mas apresenta certos problemas estéticos/líricos que se traduzem na rejeição de grande parte do público que consome música “séria” (e que já abandonou as rádios FMs há tempos). Por investir em uma imagem e uma poética tão estritas (a vestimenta country, o vocal característico, as letras monotemáticas), o sertanejo acaba limitando seu poder de expansão — de tal modo que chega a ser visto como “o inimigo” por quem se interessa por outros tipos de pop mais refinado. Para se tornar o real novo pop brasileiro, tem que expandir essas fronteiras, tanto poéticas quanto musicais.

5. “Nossa, nunca ouvi falar de qualquer desses artistas. Ainda bem, né?”

Aí temos aquela atitude bizarramente popular em redes sociais: o autoelogio da ignorância.

Não é façanha alguma desconhecer esses artistas; pelo contrário, é muito fácil. Eu mesmo, que me interesso muito por todo tipo de música popular, nunca tinha ouvido falar da grande maioria deles. O segredo? Não ouço rádio e praticamente não assisto à TV aberta. Aí fica fácil. Ninguém deve ser obrigado a ouvir música que não lhe agrade. Mas ostentar tamanha desconexão com o estilo de maior sucesso do momento e ainda pedir aplausos por isso me parece um pouco de elitismo. Meu conselho: dê uma ouvidinha, tente entender o negócio, identificar os motivos que tornam o gênero tão amado pelo povo. Não precisa gostar, não.

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