MOZIPEDIA — UMA ENCICLOPÉDIA PARA MORRISSEYMANÍACOS.

Postado originalmente em maio de 2012.

Não existem muitas enciclopédias dedicadas a artistas de rock, por mais populares que sejam. Sei que os Beatles têm mais de uma, mas outros casos não me vêm à mente de imediato. Então, quando deparei-me com a aparição da Mozipedia — The Encyclopedia of Morrissey and The Smiths, fiquei naturalmente intrigado e interessado. Afinal, mais interessante que o formato e o conceito do livro, só mesmo seu assunto: Morrissey & seu mundo. Os Smiths são um dos motivos pelos quais eu passei a me interessar por música pop. Depois que a banda acabou, seu vocalista permaneceu na minha vida, e o acompanhei através de altos e baixos, e ele (ou melhor, sua música) também seguiu meus altos e baixos. O sossego só veio quando a Amazon, numa demonstração de surpreendente agilidade, deixou na porta de casa o meu exemplar da Mozipedia, comprado ainda em pré-venda (claro).

As cifras impressionam. São 544 página e um total de 350 mil palavras divididas em cerca de 600 verbetes em ordem alfabética cobrindo aparentemente todos os aspectos da vida de Steven Patrick Morrissey, sobre o ou fora do palco, antes, depois e durante os Smiths. Parece não ter ficado coisa alguma de fora — dos “grandes temas” que regem a vida do cantor (ambiguidade sexual & celibato, New York Dolls, vegetarianismo, a parceria com Johnny Marr) a minúsculas minúcias como os programas de TV favoritos de Morrissey durante a adolescência e detalhes sobre sua dieta (basicamente “batatas, torradas e ovos”). A revista Q classificou o calhamaço como “a obra de um maníaco”. O autor, Simon Goddard, tem estofo para a tarefa. O cara escreveu The Smiths: Songs that Saved Your Life, considerado a analíse definitiva do cancioneiro smithiano (música a música, num formato similar ao de Revolution in the Head, sobre os Beatles). Há dois bons cadernos de fotos, misturando imagens de todas as fases da carreira do mancuniano e retratos de seus ídolos — Oscar Wilde, os citados New York Dolls, a dramaturga Shelagh Delaney, atores como Terence Stamp, Harvey Keitel e Dirk Bogarde.

A escolha do formato deve ter sido a forma que o autor — naturalmente um smithófilo/morrisseymaníaco juramentado — encontrou para manter o distanciamento crítico em relação ao assunto. E também para garantir a própria confecção do livro. Biografias de rock costumam seguir dois padrões. Um é o texto corridão, que garantiu narrativas já clássicas como os livros sobre Dylan, Zeppelin e, uma vez mais, os Beatles. A hipótese se provaria difícil, sabendo-se previamente que o personagem principal não colaboraria. Avesso a expor sua intimidade, Morrissey não falou nem com Johnny Rogan, autor da biografia definitiva dos Smiths (Morrissey & Marr: The Severed Alliance). E também não conversou com Goddard para a enciclopédia (os outros membros da banda falaram). No prefácio, Goddard diz que muitos dos amigos, ex-amigos e associados de Morrissey não toparam falar ou só quiseram falar em off — e vários deram para trás em cima da hora, temendo a fúria de cantor. Essas dificuldades não inviabilizariam, mas sem dúvida dificultariam o trabalho de apuração. A outra opção de formato seria a tal da história oral, que se provou válida em livros como Mate-me Por Favor e, que coisa, o Anthology dos Beatles. Ora, uma história oral de Morrissey sem falas do próprio seria… nada.

Há incontáveis referências, todas minuciosamente pesquisadas, aos filmes/livros/discos/atores/atrizes/escritores/novelas de TV favoritas de Morrissey. Todos os artistas obscuros que ele já citou como influência, especialmente nos primeiros anos dos Smiths, estão lá (com direito a alentados verbetes biográficos). Trechos das cartas que o cantor trocava com amigos nos anos 70. Excertos das resenhas escritas por Morrissey nos breves anos em que tentou ser jornalista musical freelancer. Seus jogadores de futebol favoritos. Fontes originais de onde sairam cada uma das citações, por mais crípticas que sejam, a figurar nas letras do cantor. Os fatos por trás das várias polêmicas que o artista já protagonizou, sejam inventadas por ele (como o mito do celibato ou sua sempre nebulosa opção sexual), seja aquelas para as quais foi arrastado (como as acusações de racismo, xenofobia e associação com a extrema direita britânica). É uma obra fanática, feita por um fã e dirigida apenas aos outros fãs. E nesse quesito, é irresistível e insuperável. Morrisseyianos são seres devotos, obcecados e minuciosos no que tange o objeto de sua adoração. Sim, é IMPORTANTE saber que os Smiths, em sua fase mais embrionária, pensaram em gravar uma versão da música “I Want a Boy for Birthday” (hit menor do grupo vocal The Cookies), apenas pelo potencial provocativo/andrógino do título. É FUNDAMENTAL saber que, apesar de dizer publicamente que nunca usara drogas, Morrissey batia na porta do baixista Andy Rourke pedindo o que chamava de “docinhos” — tranquilizantes e antidepressivos. É ESSENCIAL saber do paradeiro (desconhecido, aliás) de Annalisa Jablonska, moça que o cantor diz ter sido sua namorada (!) no começo dos anos 80 — e que só foi vista por Marr e o resto da banda uma ou duas vezes, tendo depois desaparecido. Se Morrissey é, para usar uma expressão criada por Wilde, uma “esfinge sem segredos”, é NECESSÁRIO apreender todos os fragmentos possíveis de sua persona, tentando capturar o incapturável: sua essência, tão debatida em milhares de entrevistas, e mesmo assim tão nebulosa.

Como toda enciclopédia, a Mozipedia não foi feita para ser lida direto, e sim consultada quando em dúvida. (Mas que fã resistiria?) O retrato que emerge não é 100% agradável. Steven Patrick cresceu superprotegido pela mãe, que o influenciou a tornar-se vegetariano e o apoiou incondicionalmente em cada decisão de sua vida. Sabemos como pessoas criadas assim podem ser “difíceis” e “sensíveis”, certo? O cantor é um declarado misantropo. E ainda assim busca sempre estar cercado de amigos e colaboradores — que podem ser descartados sem aviso prévio, em geral por terceiros (e não pelo próprio Morrissey). Brigou com sucessivos parceiros (Stephen Street, Mike Joyce, Mark Nevin) por comportar-se como um unha de fome incorrigível, protelando pagamentos e negando royalties. No verbete dedicado a David Bowie, Goddard explica como Morrissey abandonou na cara dura a turnê conjunta que empreendeu em 1995 com o Camaleão… e saiu falando cobras e lagartos do (ex?-)ídolo. No relacionamento com os vários melodistas com quem compôs após separar-se de Marr, o cantor assume um papel passivo (ops): os músicos mandam constantemente ideias para novas canções em fitas-demo e o vocalista, olimpicamente, seleciona as que julga mais dignas de seus versos. Goddard sugere, mais de uma vez, que isso já causou fricções entre os guitarristas Boz Boorer e Alain Whyte, principais parceiros do cantor desde 1993 (Whyte teria até gabado-se: “Eu sei do que Morrissey gosta”).

Morrissey é um ser humano extremamente complicadinho — em todos os sentidos da expressão — e isso fica evidente em suas entrevistas e mais ainda em suas letras. O calhamaço de Goddard dá as pistas para o caminho através do qual essas complicações foram construídas. Garoto nos anos 60, “Steven” cresceu assombrado por uma Inglaterra cinzenta, empobrecida e melancólica, uma construção mental que se deve menos à observação da realidade do que à sua obsessão com os filmes, peças de teatro e livros sobre a classe operária britânica. Esse interesse por uma imagem (romantizada) do povão inglês permanece até hoje, manifesto no apreço do cantor por boxe, futebol e pubs estilo pé-sujo. A confusão/ambiguidade sexual sem dúvida foi amplificada pelosrole models que o adolescente Morrissey adotou — Bolan, Bowie, Jobriath, os New York Dolls (sem esquecer de Oscar Wilde). O advento do punk afinal permitiu que o vislumbre de uma carreira musical se tornasse realidade. Quando ele se encontra com Marr, em 1982, “Steven” já era Morrissey; e não se engane, a persona ambígua, irônica, depressiva e contraditória foi cuidadosamente construída, projetada para causar o máximo impacto num cenário pop marcado por frivolidades e fru-frus.

Minha desconfiança é de que Goddard deixou o lado fã falar mais alto. Ao “limitar-se” a apresentar os fatos, com um mínimo de interpretação e/ou de intervenção, o jornalista certamente escolheu o caminho mais exaustivo. Mas também evita a tentação de explicar o mito, algo que seria quase inevitável num livro de narrativa mais convencional. Não por acaso, na introdução ele compara seu trabalho ao do repórter que protagoniza Cidadão Kane — mas exime-se de apontar o que seria o Rosebud de Morrissey. Ele joga todas, ou praticamente todas, as peças do quebra-cabeças lá, e cabe ao leitor juntar tudo. Talvez Goddard, ao juntar as peças por conta própria, tenha chegado à mesma conclusão pouco agradável a que cheguei — a de que Morrissey é, ora essa, humano também. E por isso lavou as mãos. Admiração absoluta não rima com conhecimento absoluto. Voltando a Goddard: “Aprendi a amar Morrissey pelo grande artista que ele é”. Bem, nós também. Ou não?

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