O MITO DA ‘NOVA’ MPB: QUEM VAI CHUTAR ESSE BALDE?

Publicada originalmente em maio de 2012.

O brasileiro é um povo cordial. Em todos os sentidos da palavra. Sim, um chavão, facilmente desmentido pelas estatísticas sobre crimes violentos. E, como todo chavão, também é rigorosamente verdadeiro. Essa cordialidade, nem sempre genuína, nem sempre produtiva, deveria ser um traço positivo de nossa personalidade coletiva. Mas às vezes atrapalha. Criatividade artística, por exemplo, não tem nada a ver com cordialidade. Na verdade, em muitos casos é necessário romper, agredir, bater de frente, para que uma expressão cultural possa florescer da maneira adequada. A iconoclastia e o confronto sempre acompanharam a evolução da música popular. Quem procura a adequação, a conciliação, a reverência se coloca, voluntariamente, à sombra daqueles que já passaram. E, com isso, atrasa a evolução do cenário. Imagine se Elvis ingressasse no exército antes de lançar o primeiro single, alinhando-se com o establishment antes de causar qualquer impacto sobre a juventude. Ou se Dylan acatasse a vontade dos puristas folkeiros e nunca tivesse empunhado uma guitarra elétrica. Ou se os jovens Caetano & Gil apenas abraçassem, sem questionamentos, as tradições musicais que os antecederam — as quais, devidamente digeridas (“antropofagizadas”?), ajudaram a formatar o tropicalismo?

Fiquei matutando sobre essas e outras ao ver essa matéria da revista Serafina, da Folha de São Paulo, retratando os caminhos da geração de artistas que vêm construindo a (pela falta de rótulo melhor) nova MPB. Na verdade, o que pegou nem foi o texto, e sim o ensaio de fotos, que pode ser visto no link citado. Pegaram a jovem guarda — Criolo, Mallu Magalhães, Rômulo Fróes, Emicida, Marcelo Jeneci — e puseram-na para recriar fotos icônicas da velha guarda. Criolo posando de Cartola, Mallu de Rita Lee, etc., tudo culminando na recriação da capa do disco Tropicália (uma ideia pra lá de manjada). Ora bolas. Ficou legal, interessante, por que não fazer? Destaque na edição de domingo, uma levantada boa na moral da rapaziada, etc. E, pombas, não há nada de errado em querer se espelhar, mesmo que para um fugaz ensaio fotográfico, em gigantes do passado. Certo?

Não sei. Não consigo deixar de comparar a atitude da rapaziada que chega agora com a atitude de quem os precedeu — e que conquistou seu espaço justamente por oferecer alternativas ao que estava estabelecido. Não consigo imaginar Caetano em 1968, imitando uma pose de Francisco Alves. Ou os Mutantes fantasiados de Bando da Lua (a menos que fosse para sacanear). Ou Ney Matogrosso comportadinho, reprimido, tal e qual Cauby Peixoto trancado no armário com suas macacas de auditório. Eles, no passado, romperam com os padrões. E nossos novos emepebeiros vão na contramão: buscam a aprovação do (e a comparação com o) cânone sagrado. Não quero dizer com isso que os artistas novos devem cair na tentação barata da polêmica vazia, do xingamento-pelo-xingamento. Nem que a grandessíssima obra das gerações passadas — e digo isso sem ironia alguma — não possa servir de referência básica e fundamental para quem está chegando. Negar o passado apenas por negar, por ideologia ou por pura oligofrenia, é estupidez. O negócio é que a forçada política de boa vizinhança que pauta nossas relações cotidianas ajuda a pasteurizar a evolução de nossa música, e atrasa o estabelecimento de novos ícones — que, antes de provar que têm valor próprio, precisam submeter-se ao ritual de aprovação.

Na verdade, isso vem de longe, e remete ao caráter cordial de que falei lá em cima. Estamos na terra da conciliação (mesmo que transitória), do tapinha nas costas (mesmo que hipócrita), do adesismo (mesmo que por interesse). É um dado que marca nossa identidade nacional. O dissenso é malvisto e o consenso deve ser procurado a qualquer custo, mesmo que implique em atraso e conservadorismo. Essa atitude tem ônus e bônus, e repercussões que permeiam toda a sociedade, do trocado dado ao flanelinha “pra ajudar” às mamatas tramadas entre os líderes da oposição e da situação no Congresso (aliás, que “oposição”?) Enfim, a vida é dura no Brasil para quem pensa diferente da maioria, ou para aqueles que questionam a ordem estabelecida. Beijar a mão, procurar um lugarzinho no coro dos contentes, cercar-se dos amigos dos amigos dos amigos, abrir a tampa da panelinha: eis a receita do sucesso.

E isso vale também, mais do que nunca, para a música popular. Um ramo no qual, todo mundo sabe, proselitismo e camaradagem podem te levar muito, muito longe. A geração do tropicalismo veio, quebrou tudo, subverteu expectativas, afrontou o establishment. E pagou caro por isso: o exílio londrino de Gil & Caê foi a ponta mais visível. Num país essencialmente anti-pop como o Brasil da virada dos anos 1960 para os 70, com um governo militar de olho em qualquer manifestação dissidente e um povão feliz com o mito do “Brasil Grande” e Odair José tocando na AM, era foda tentar reinterpretar os valores da contracultura sob uma ótica nacional. Caetano & cia foram em frente, ralaram e venceram. A próxima onda jovem que chegou ao mainstream — o BRock dos anos 80 — nasceu amigada da geração anterior, já então entronizada como a realeza da MPB. Não houve ruptura: Cazuza era o afilhado (aham) de Ney Matogrosso, Paulo Ricardo cantava ombro a ombro (aham-aham) com Caetano, Paralamas ajoelhavam-se diante de Gil. O mito da destruição dos totens, que sempre pautou a evolução da música pop, aqui não frutificou. Refastelavam-se todos, veteranos e calouros, numa festa sem fim ditada por outro mito, o da inata cordialidade brazuca, traduzido em intermináveis panelas e beija-mãos.

E a toada seguiu pelas próximas décadas, com a geração de cantoras ecléticas (quase todas lésbicas, né? Estranho), Chico Science pedindo a benção a Gil, os mineiros Skank & Jota Quest reverenciando/referenciando o Clube da Esquina. Nos anos 2000, Caetano seguiu soberano como eminência parda, especialmente após a reinvenção roqueira de e seu apadrinhamento a mais uma geração de jovens artistas pop. A cobra mordeu o próprio rabo com a adesão de Criolo — marrento, durão — ao cortejo, circulando, cantando, fotografando com Caetano e Chico. O ensaio da Serafina então nem chega a ser uma sacada inteligente. É apenas a constatação do óbvio: não há troca de guarda na MPB, há apenas o referendo da geração passada aos novos postulantes, que não postulam nada, apenas o direito de postarem-se ao lado do trono, esperando por um olhar benevolente da realeza.

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