QUAL É A SUA FONTE DE (DES)INFORMAÇÃO?

Depois de oito anos de um governo de tendências razoavelmente progressistas, um líder político de oposição, sem experiência prévia no Poder Executivo, ganha a eleição presidencial. Seu discurso é populista e ele afirma que vai devolver ao povo desassistido a riqueza que foi negada pelo governo anterior. A quase totalidade dos grandes meios de comunicação abre fogo intenso contra o novo governante, bombardeando-o com questionamentos, denúncias e críticas incessantes. O presidente rebate com críticas igualmente incisivas sobre a (im)parcialidade dos meios e chega mesmo a afirmar que a imprensa é um “partido de oposição” a seu governo. É claro que me refiro a…

a) Donald Trump?

b) Lula?

Cartas para a redação.


Tempo negro. Temperatura sufocante. Etc.

Tá bonita de se ver a marcação cerrada que os grandes veículos de comunicação nos EUA vêm impondo aos primeiros dias do governo Trump. NY Times, Washington Post, CNN, ABC, HuffPost, Slate, Vox, The Atlantic, MSNBC; o fogo cruzado é brutal. Apenas no dia em que comecei a escrever este post, o novo presidente republicano foi questionado sobre a falta de diversidade em seu gabinete; sobre sua escolha equivocada para a Secretaria da Educação; sobre a truculência de suas posturas na diplomacia; sobre como tem contrariado decisões judiciais a respeito do veto à entrada de muçulmanos no país; e sobre como seus subordinados têm recorrido a, aham, fatos alternativos para justificar decisões polêmicas. Mas a Casa Branca não tem deixado barato, não. Trump diz que está em guerra declarada contra a imprensa. Seu principal assessor, Steve Bannon, afirmou que a mídia é o “partido de oposição” a Trump. O porta-voz Sean Spicer tem acumulado seguidos arranca-rabos com jornalistas, desde o primeiro dia no cargo.

Eu acho isso tudo realmente ótimo. Quando se trata da relação entre imprensa e governo, meus santos padroeiros são Orwell (“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer ver publicado. O resto é relações públicas”) e Millôr (“Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”). Uma imprensa que seja dura (mas justa) com o governo sempre será preferível a outra que apoie o estado incondicionalmente. E mais; acredito que uma imprensa que declara guerra a um governo é algo ruim. Mas o inverso é ainda pior. É obrigação primordial e permanente da mídia ficar de olho nos atos e opiniões dos governantes. É possível cumprir essa obrigação de forma responsável, com a observação das boas práticas de apuração, edição e redação. A imparcialidade total é um espantalho que sempre vai pairar sobre a cabeça do jornalista, mas se ele conseguir manter o foco nos fatos — e não em fatores extra-jornalísticos, como os compromissos ideológicos e financeiros do veículo para o qual ele trabalha — a verdade, ou algo próximo dela, vai surgir.

Tenho visto muitas pessoas aqui neste Brasilzão de Deus elogiando essa postura combativa da mídia ianque. O engraçado, ou triste, é que boa parte dessas pessoas, levadas por afinidades ideológicas, desancam sistematicamente a mídia local quando ela cumpre o mesmo papel desempenhado pela imprensa americana. Em miúdos: quando a mídia lá fora ataca Donald Trump, merece aplausos por “fazer a coisa certa”. Quando é a imprensa brasileira que parte para o ataque contra os companheiros, segue-se um festival de impropérios. Tanto lá quanto aqui, o discurso oficial do partido que até pouco ocupava o poder é de que a mídia é o maior inimigo e que a grande imprensa é 100% corrupta e sem credibilidade. Ora, tanto aqui quanto lá, qualquer veículo de comunicação tem sua agenda específica, suas simpatias e antipatias, suas razões para estar contra ou do lado do governo, e nenhum deles é totalmente isento. Mas ao que parece, alguns estão do “lado certo” da batalha e outros nem tanto.


Uma tarefa árdua e cansativa.

Antes de prosseguir, gostaria de deixar claro que não entendo coisa alguma de política. Entendo um pouco de jornalismo. Dum ponto de vista jornalístico, eu não só acho a postura da imprensa nos EUA ótima, como também acredito que o “modelo antigo” de jornalismo, cada vez mais combalido, ainda é a forma menos falha de produzir e divulgar informação. Por “modelo antigo”, leia-se:

  1. veículos que não estejam explicitamente comprometidos com causas ideológicas e/ou econômicas e…
  2. …com um modelo de negócio baseado na separação entre quem o sustenta (os anunciantes) e quem o consome (os leitores).

Não chamo este modelo de “antigo” por acaso. Na verdade, “moribundo” ou “agonizante” seriam termos mais adequados. Num panorama no qual a concentração dos meios só aumenta, as verbas de publicidade só diminuem e há uma concorrência brutal de múltiplos tipos de conteúdos gratuitos, o modelo antigo de jornalismo faz água por todos os lados. Isso sem falar na ascensão de fenômenos como o branded content — que cheira como jornalismo, se veste como jornalismo, se penteia como jornalismo, mas não é jornalismo — e o vale-tudo da internet, movido a fake news, desinformação explícita via redes sociais e demais estratégias caça-cliques. Mas acredito que, com todas as suas falhas, vulnerabilidades e deficiências, o “modelo antigo” ainda é o que proporciona um jornalismo mais justo.

No Brasil, a coisa anda particularmente feia. O holocausto do jornalismo enquanto carreira é notório, o que só colabora com a piora na qualidade dos veículos. A crise acabou com o que restava da saúde financeira do setor, que se vê forçado a produzir mais, com menos gente. E para não fechar as portas, veículos outrora respeitados se entregam a tenebrosas transações político-financeiras, sobre as quais é melhor nem entrar em detalhes. É desnecessário elaborar aqui sobre as afinidades ideológicas e econômicas dos grandes grupos de comunicação brasileiros. Igualmente inútil é entrar em detalhes sobre a guerra de opiniões, versões e contra-versões travada entre veículos que, supostamente, seguem os preceitos do bom jornalismo, mas que não disfarçam a propaganda a favor dessa ou daquela causa.

Ainda assim, precisamos nos informar. Mas onde? Como filtrar os interesses, como saber em qual veículo confiar? Meu princípio básico é: leia/assista de tudo. Quem só se informa pela rede Globo não vai saber de todos os ângulos da história. Quem só se informa pela Carta Capital, idem. Outra regra importante: mantenha sempre os dois pés atrás. Compare as coberturas, analise o tom que veículos diferentes usam para abordar o mesmo tema, tente entender a razão de uma notícia sair de um jeito no site X e dum jeito diferente no jornal Y.

A partir dessa ideia, fiz um modesto infográfico relacionando os veículos que costumo acessar com alguma frequência, classificando-os pela qualidade de seu conteúdo (eixo Y) e por sua tendência ideológica (eixo X). Inspirei-me neste bom post, que trazia um info semelhante sobre a mídia nos EUA. DISCLAIMER: Trata-se de um trabalho sem qualquer pretensão científica e que reflete unicamente a minha opinião, como jornalista e como consumidor de jornalismo. Também não advogo fé cega em qualquer um dos veículos citados.

Grosso modo, quanto mais alto o veículo estiver no eixo Y, mais aprofundado e equilibrado será seu conteúdo. E quanto mais próximo do centro do eixo X, menos comprometida ideologicamente será sua cobertura dos fatos. A preocupação principal sempre deve ser com as boas práticas do jornalismo e não com o alinhamento ideológico do veículo (ainda que, quanto mais radical seja o posicionamento, mais difícil seja a manutenção da isenção). Partindo desses pressupostos, eis como eu classifico (grosso modo!) o conteúdo dos veículos que costumo acessar:

Então: eu leio tudo isso aí, alguns com mais frequência, alguns com menos frequência. Mas o crédito que eu dou ao que leio vai depender do posicionamento que o veículo ocupa no gráfico. E também do tema em questão. O importante é entender que A) não existe veículo que monopolize a VERDADE; B) um veículo que considero ideologicamente desprezível pode muito bem trazer informação de qualidade e C) outro veículo com o qual concordo politicamente pode muito bem distorcer e manipular fatos em favor de interesses extra-jornalísticos.


E vocês, como fazem para se informar (ou se desinformar?) Levam esses fatores todos em consideração? Ou apenas buscam links para contextualizar e confirmar crenças pré-formadas? Cartas para a redação.