STRIKE NO DOCUMENTÁRIO: MICHAEL MOORE E ‘TIROS EM COLUMBINE’

Marco Antonio Barbosa
Feb 4 · 6 min read

Não assisti e nem pretendo assistir a Democracia em Vertigem, o documentário brasileiro indicado ao Oscar 2020; de amarga, já basta a vida. Entretanto, é impossível ficar imune ao bafafá suscitado neste começo de fevereiro em torno do longa de Petra Costa. A cineasta foi duramente criticada por Pedro Bial e rotulada pelo governo federal como anti-patriota. O carnaval todo me fez lembrar de um texto que escrevi em 2003 para o site Scream & Yell a respeito de outro cineasta que teve suas obras questionadas por serem ~parciais~. Isentões & reaças X progressistas: a história, a repetição, a farsa.


Ganhou grande destaque, há não muito tempo, uma polêmica suscitada pela revista Forbes, e logo encampada aqui na terrinha por nomes (in)suspeitos como Álvaro Pereira Jr., Olavo de Carvalho e Ricardo Calil (do site nominimo.com) sobre o filme Tiros em Columbine, de Michael Moore. Tratava-se o caso de “desmascarar” as “mentiras” contadas por Moore na fita, que pretendia-se um “documentário”, mas que na verdade “manipulava”, “mascarava” e “omitia” vários dados e informações, com o intuito de “ganhar” o espectador.

Ora, quem sou eu para bater boca com qualquer um dos nomes citados acima. Ou com a revista Forbes. Mas existem uma ou duas obviedades gritantes sobre cinema que foram ignoradas no caso. Uma dessas coisas diz respeito ao gênero documental, no qual Moore se exercita em Tiros em Columbine.

OK, um pouquinho de semiologia tosca, pra começar: todo cinema — melhor dizendo, toda obra de arte — tem uma função discursiva subjacente, um sub-texto. No caso de um filme, isso poderia ser lido como uma espécie de, digamos, “moral da história”, uma ideia que permeia a intenção final do cineasta ao realizar a tal fita. Exemplificando, o sub-texto de Orson Welles em Cidadão Kane era: o poder e a riqueza não são garantias de felicidade, e podem mesmo levar à solidão absoluta. O sub-texto dos irmãos Wachowski em Matrix era: um comentário entre as cada vez mais tênues fronteiras entre o real e o virtual no contexto pós-moderno do terceiro milênio. O sub-texto de David Fincher em Clube da Luta era: uma caótica visão da decadência moral do homem moderno, anonimizado e embrutecido pela sociedade de consumo. O sub-texto dos irmãos Farrelly em Débi & Loide era… bom, deixa pra lá.

Eu disse DEIXA. PRA. LÁ.

Aceitando-se isso, deve-se aceitar também que todo cineasta tem um sub-texto na cabeça ao realizar um filme, ou seja, quer comunicar uma ideia que ultrapasse a mera “historinha” do roteiro e diga algo mais para os espectadores além do tríptico começo-meio-fim. E que quanto mais autoral (i.e., independente de amarras comerciais e corporativas) for o cineasta, mais pessoal, intransferível e individualizado será este sub-texto. É aí que entra o documentário.

Pois no documentário o sub-texto é o próprio texto. Um cineasta resolve fazer um documentário para comunicar, de forma ainda mais clara e explícita que num filme de ficção, uma determinada ideia. Uma “tese”, digamos. A fé do cineasta nessa “tese” e sua vontade de transmiti-la ao público são tão grandes que ele prefere abdicar das parábolas e metáforas que um roteiro ficcional ofereceria. Ele parte para coletar cenas reais, que serão usadas para enriquecer a “defesa” de sua “tese”. “Disfarçado” de registro da realidade, o documentário na verdade é o mais discursivo e parcial dos gêneros cinematográficos. Ele é pura organização de ideias em forma de cinema. O potencial ideológico disso nunca escapou a nenhum cineasta digno de seu nome. Pioneiros como Eisenstein e Leni Riefenstahl não me deixam mentir.

Já aí reside a primeira desonestidade (pois não dá para crer em ingenuidade) das críticas a Tiros em Columbine. Ora, qualquer “jornalista cultural” que valha as calças que veste deveria também ter isso tudo que expliquei acima em mente antes de dizer que Michael Moore “faltou com a verdade” em seu documentário. Porque um documentário nunca mostra “a” verdade, ele mostra uma verdade; a verdade de quem o dirigiu. Não há documentário algum que se encaixe nesse padrão de “verdade” que os críticos de Columbine cobram.

Todo documentário se organiza de acordo com as regras fundamentais do cinema, uma das quais é a montagem — o processo de escolher e organizar as imagens do material bruto filmado. Só nesta etapa, o cineasta já pôs o dedo na “verdade” mostrada na tela e a filtrou. Ao escolher um determinado ângulo ou movimento de câmera, ou fundo musical, ou ao preferir o depoimento A ao depoimento B, o cineasta já não colocou toda a “verdade” em seu filme. Portanto, em maior ou menor medida, todo documentário “manipula”, “mascara” e “omite” a realidade, ou fragmentos dela. Moore não fugiu a essas premissas e tratou de pinçar momentos, diálogos e situações que mais se adequassem a seu sub-texto: um panorama de como a fixação da América branca por armas é um sintoma da truculência e do conservadorismo tacanho do ianque mediano, com reflexos na própria política exterior dos EUA.

Sendo assim, os únicos filmes realmente dignos do termo “documentário” seriam as radicais fitas rodadas por Andy Warhol nos anos 60 — ele pegava a câmera, mirava para um ponto fixo e deixava, deixava, deixava… Saíram desse método filmes como Empire, composto de um único plano (de oito horas de duração!) mostrando o topo do Empire State Building. Isso é documentário. Mas quem quer ver isso?

Não é possível que os críticos de Columbine ignorem essas questões. Sobraria então uma certa má-vontade com o filme, decorrente, óbvio, de desacordos ideológicos com o que está sendo colocado na tela. Até aí, beleza. Ninguém é obrigado a concordar com as idéias de Moore. É a hora então da segunda desonestidade. Sabendo-se que o documentário é por definição um gênero que dá margem a discursos politizados, e conhecendo-se de antemão a virulência de Moore contra o conservadorismo direitista da(s) era(s) Bush, o que mais poder-se-ia esperar de um filme como Tiros em Columbine? Porrada no establishment, é claro.

Acho mesmo que Moore nem quis “catequizar” ninguém com o filme, e sim, mais uma vez, pregar para os já convertidos. Imbecil seria o crítico que saísse surpreso com o conteúdo do filme. Mas os críticos da fita demonstram-se indignados com a forma do filme. (No caso dos brasileiros que ecoaram as críticas da Forbes, à desonestidade pode-se juntar a uma tremenda vontade de ser “do contra” só pra aparecer — e também de macaquear a imprensa gringa.)

Levantar questões como “traição à verdade” em relação a Columbine é chover no molhado; é rebater com um discurso conservador outro discurso pseudo-subversivo (pseudo sim, pois afinal Moore depende das corporações que ele tanto xinga para fazer seus filmes chegarem aos cinemas). Mas usando argumentos desonestos e distorcendo noções de linguagem cinematográfica para detratar a obra de Moore. Pior ainda, ficar esperneando que “ah, tal cena não aconteceu na vida real como foi mostrado no filme” é manter-se ao nível da picuinha, do detalhezinho revanchista. (Releia o quinto parágrafo, se ainda não ficou claro o que acho sobre o gênero documental.)

Discuta-se o quanto quiser as bandeiras levantadas pelo cineasta com seu filme; mas não se pode fechar os olhos para os méritos artísticos e a coerência do discurso de Columbine. Michael Moore provou ser um dos cineastas mais inteligentes em ação nos EUA hoje, fazendo um filme tão divertido e ágil quanto eficaz e convincente no plano ideológico. Cabe à direita não discutir os méritos do filme, e sim correr atrás do tempo perdido e achar um “Michael Moore” disposto a divulgar as ideias deles com tanta contundência e bom humor.

Telhado de Vidro

Jornalismo & etc.

Marco Antonio Barbosa

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Escrevendo coisas que ninguém lê, desde 1996 (Jornal do Brasil, Extra, Tribuna da Imprensa, Rock Press, Cliquemusic, Gula, Scream & Yell, Veja Rio, Bula)

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Jornalismo & etc. por MARCO ANTONIO BARBOSA. Reportagens e artigos sobre cultura, sociedade, política, comportamento, humor, em textos inéditos e republicados.

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