Marco Antonio Barbosa
Aug 22 · 8 min read

Publicado originalmente em setembro de 2010.

Nunca fui particularmente fã de discos ao vivo. Não sei se pela (relativa falta de) qualidade sonora, se pela implicância com o óbvio caráter caça-niqueis de nove entre 10 lançamentos do tipo. Ou talvez pelo bode causado com a superexposição a esse disco aqui, nos meus influenciáveis anos formativos. Mas, como é inevitável para todo colecionador de discos, acabei também juntando um razoável acervo de artefatos do tipo. Fato é que o disco ao vivo mudou bastante de status ao longo de 50 e poucos anos de história do pop. O live album era a princípio uma obra de exceção, um souvenir de algum momento especial na carreira do artista, um registro de uma turnê marcante… até que a viabilidade comercial do formato foi provada nos anos 1970 com discos como Frampton Comes Alive! e Alive!. Nos anos subsequentes, o ao vivo tornou-se quase uma obrigação, uma banalidade (em especial aqui no Brasil, onde a mera expressão “ao vivo” num título parece garantir sucesso de vendas… ao menos na cabeça dos executivos de gravadora).

O disco que me motivou a escrever esta lista foi o Live at the Olympia, último álbum do R.E.M. Comprei atrasado, há pouco tempo, e ainda deixei um tempinho na pilha do “a ouvir”. Quando finalmente o escutei (no iPobre, durante uma corridinha matinal), meu queixo caiu. O disco tinha tudo o que um grande álbum ao vivo tinha de ter: repertório interessante, comunhão evidente entre público e banda, grandes performances e aquele indispensável tom zoado, urgente, rústico. Como todo grande ao vivo, é um documento primordialmente para os fãs — mas que também dá motivos para qualquer um se tornar fã também. A audição me fez repassar minha discoteca em busca de meus “ao vivo” favoritos. A lista segue abaixo, classificada na ordem cronológica em que foram gravados. É uma seleção idiossincrática. Não é uma lista que contemple os favoritos tradicionais do formato — não espere encontrar Live at Leeds, nem Live at The Apollo, ou Get yer’s Ya-Ya’s Out!, ainda que eu os tenha em minha coleção.

Live at the Harlem Square Club, 1963 (1985) — Sam Cooke

Quando se fala em discos ao vivo de ícones da black music, Live at The Apollo (James Brown) geralmente é a régua com que os outros artistas precisam se medir. Eu aposto mais neste disco aqui, um suarento registro de Sam Cooke gravado em 1963 mas que ficou engavetado até os anos 80. Cooke, decano dos grandes vocalistas de soul dos anos 60, influenciou Deus e o mundo com uma fieira de hits que — com sua produção polida, com direito a violinos e backing vocals — fizeram o crossover entre o público (negro) do r’n’b e a turma (branca) do pop. Ao vivo, porém, a coisa era bem outra. A banda comandada pelo saxofonista King Curtis arrepiava e Cooke, rascante mas domado em disco, transformava-se num possesso no palco. A doçura das versões de estúdio de “Chain Gang” e “Cupid” se esvai, trocada por uma performance adrenalinada. “Twistin’ the Night Away” vira um furacão, Curtis solta os cachorros em “Somebody Have Mercy” e “Bring on Home to Me” ganha contornos épicos.

The Bootleg Series vol. 4: Bob Dylan Live 1966, The “Royal Albert Hall” Concert (1998)

Todos os discos desta lista capturam momentos históricos na carreira dos respectivos artistas. Este aqui captura um momento histórico na evolução do rock’n’roll. É o documento definitivo da turnê na qual Dylan eletrificou seu som, foi amplamente pirateado nos anos 70 e, a rigor, dispensa comentários críticos de um diletante como eu. Só digo que é um dos discos mais arrepiantes que já ouvi, ao vivo ou não, tanto em sua parte acústica (o silêncio da plateia é absoluto) quanto no cataclisma elétrico do CD 2 (culminando no xingamento de “Judas” que leva a banda a uma furiosa versão de “Like a Rolling Stone”).

Fa-Tal: Gal a Todo Vapor (1971) — Gal Costa

Por que, Gal, por que? Você era a melhor de todas. Não havia cantora — aqui ou lá fora, no rock, na MPB, no blues, onde quer que fosse — que se comparasse. Os discos que você tinha lançado até 1971 redefiniram o cantar feminino no Brasil e são melhores que os álbuns que seus compadres baianos tinham lançado até então. Quando chegaste à icônica temporada de Fa-Tal no Teatro Teresa Raquel, você era capaz de tudo. E provou isso com este vinil duplo, no qual esparramava o vozeirão do pop (uma comovente “Sua Estupidez”) ao folk caboclo (“Fruta Gogóia”), do proto-heavy metal (“Dê um rolê”, com um Lanny Gordin nervosão) ao samba-canção (“Antonico”), dos tropicalistas do A (“Como 2 e 2″, “Coração Vagabundo”) e do B (“Vapor Barato”, “Hotel das Estrelas”), da Zona Norte carioca (“Charles Anjo 45″, “Pérola Negra”) ao sertão nordestino (“Assum Preto”). Doce e avassaladora, no disco seguinte (Índia, tão icônico quanto) você iniciava a caminhada para a terra das divas, distantes, intocáveis, duvidosas, chatas, bregas, cafonas. Por que?

The Song Remains the Same (1976) — Led Zeppelin

Nos anos 80, eu abominava o Led Zeppelin. Criado à base de pós-punk, para mim os dinossauros setentistas eram todos farinha do mesmo saco fétido. Foi justo este disco aqui, ao vivo, o primeiro álbum do LZ que tive oportunidade de ouvir mais atentamente. Uma paulada. Plant com a macaca, Page mandando ver nos solos desconjuntados, Bonzo um verdadeiro polvo na bateria (“Moby Dick”, alguém?). Curioso é que já ouvi alguns ledmaníacos ranhetas fazendo ressalvas às performances do álbum — seria eu um ouvinte desatento? Uma celebração de hard rock que me abriu as portas para a discografia do Led. E também para descobrir várias outras coisas do mesmo período que eu detestava, mesmo sem ter ouvido.

The Blow-up (1982) — Television

Este disco teve um efeito peculiar sobre mim: apesar de adorar os dois primeiros álbuns do Television, simplesmente não consigo mais escutá-los. Se preciso ouvir “Marquee Moon”, não vou à versão de estúdio, e sim à deste CD duplo, de qualidade sonora meio capenga, mas de performances inigualáveis. Idem para “Venus”, “See No Evil” e “Prove It”. E, acima de tudo, é o disco que tem a definitiva gravação de “Little Johnny Jewel”, quase 15 minutos através dos quais Tom Verlaine faz sua guitarra grunhir, guinchar, zumbir e fazer outros ruídos que uma guitarra não deveria (na teoria) emitir.

Smell of Female (1983) — The Cramps

Fato: eles são a única banda da qual eu já tive mais de uma camiseta. Quando inaugurarem o Hall of Fame das Bandas Subestimadas, os Cramps terão um trono dourado à sua espera. Aaaaah, quantas noitadas nos anos 90 não foram embaladas por uma garrafa de Dreher e A Date with Elvis rolando em repeat? (Quem tava lá lembra.) Esta pérola aqui pega Lux Interior & gangue em sua melhor forma, num clubezinho tremendamente suspeito em Nova York, encadeando hits-que-nunca-foram-hits um atrás do outro: ”You Got Good Taste”, “Faster Pussycat”, “Psychotic Reaction”, “Surfin’ Dead” (essa era bônus). E pensar que eles nunca tocaram no Brasil.

Viva (1986) — Camisa de Vênus

Escrevi uma vez que o Camisa era a única banda honesta do mainstream roqueiro oitentista. Porque enquanto Legião, Titãs, RPM, Paralamas et al copiavam todo mundo enrustidamente, os baianos não apenas escrachavam o plágio: reescreviam músicas alheias e assinavam como criações próprias. Este disco ao vivo é o momento mágico de Marcelo Nova & Cia, duplamente audacioso — primeiro por ousar uma gravação ao vivo em uma época de precárias condições técnicas, e segundo por ter tantos palavrões em suas letras que oito de suas 10 músicas vetadas para radiodifusão. Poucos registros de shows, brasileiros ou não, colocam o ouvinte tão “na cara” do palco, com direito à participação enfática da plateia (“BO-TA-PRA-FU-DEEER!”). O repertório é um best-of do Camisa, com destaque óbvio para as únicas aparições em disco das épicas ”My way” (“Eu me fodi / Mas resisti”) e “Silvia” (“Vive dizendo que me tem carinho/ Mas eu vi você com a mão no pau do vizinho”).

Live at the 19th Montreux Jazz Festival (1986) — João Gilberto

Quando O MITO gravou este álbum (vinil duplo), ele não era mais o João da bossa nova, nem o João da temporada mexicana, nem o João de Amoroso. Era simplesmente João Gilberto, o elo vivo que ligava as músicas populares brasileiras pós- e pré-Chega de Saudade. Bastava ele e o violão e uma seleção de canções que detinha-se na bossa, claro, mas também vasculhava o cancioneiro da era dourada do rádio, sacando Assis Valente, Ary Barroso e Haroldo Barbosa. E ainda ia além, incluindo um Caetano niuevoso (“Menino do Rio”) e uma pérola italiana (“Estate”), tudo num registro que combinava precisão milimétrica (de voz e de instrumento) e emoção contida, mas marcante.

Rank (1988) — The Smiths

Lançado um ano depois que a banda se dissolveu, Rank pega os Smiths no topo de sua forma e popularidade: era a turnê de lançamento de The Queen Is Dead. O disco se encarrega de dissolver alguns clichês sobre o então quinteto (a formação contava com a fugaz presença do guitarrista Craig Gannon). Não há chiliques, lamúrias ou “sensibilidade” aqui. A banda ataca as canções com agressividade quase punk, o que teria levado Morrissey a sugerir como título original The Smiths in Heat. “The Queen Is Dead”, “His Latest Flame/Rusholme Ruffians”, ”What She Said/Rubber Ring”, “London”, “Bigmouth Strikes Again” e principalmente “Still Ill” soavam aceleradas e cuspidas, com as guitarras em primeiro plano e os vocais rasgados. Quebrando o clima, uma suspirante versão de “I Know It’s Over” e a rara instrumental “The Draize Train” (é a única inclusão da canção, b-side do single de “Panic”, num álbum oficial; a versão ao vivo é muito melhor que a de estúdio). Ah, e a capa é linda.

Live (2000) — Built to Spill

Banda criminosamente ignorada por aqui, o BtS mostra aqui todo seu poder de fogo. Capaz de criar composições intrincadas e cativantes, o líder Doug Martsch também é um guitarrista interessantíssimo, não só nos solos mas também nas harmonias. Este álbum ao vivo serve como cartão de visitas do complexo e ruidoso indie rock do grupo, ao trazer canções emblemáticas como “I Would Hurt a Fly”, “Randy Described Eternity”, “The Plan” e “Car”. E ao mesmo tempo apresenta viagens que não cabem nos discos de estúdio, como a cover de “Cortez the Killer”, de Neil Young (batendo nos 20 minutos de duração) e a recriação de “Virginia Reel Around the Fountain”, dos Halo Benders (projeto paralelo de Martsch).

Telhado de Vidro

Jornalismo & etc. por MARCO ANTONIO BARBOSA. Reportagens e artigos sobre cultura, sociedade, política, comportamento, humor, em textos inéditos e republicados.

Marco Antonio Barbosa

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Escrevendo coisas que ninguém lê, desde 1996 (Jornal do Brasil, Extra, Tribuna da Imprensa, Rock Press, Cliquemusic, Gula, Scream & Yell, Veja Rio, Bula)

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