De Hong Kong a Barcelona: efeitos sociais das tecnologias digitais?

Por Victor Vicente e Juliana Rangel*

Victor Vicente
Nov 6 · 8 min read

Desde ao menos a Primavera Árabe, mídias sociais vêm sendo reconhecidas como poderosas plataformas para articulação de movimentos revolucionários ao redor do mundo. Na última década, acompanhamos fenômenos como o Occupy Wall Street, Jornadas de Junho de 2013, Black Lives Matter, grupos a favor do aborto na Argentina, marchas feministas pelas ruas do Chile, dentre outros.

Em 2019, parece que ciclos de insatisfação popular ganharam novo fôlego global. Tudo está acontecendo ao mesmo tempo, de novo. Cada movimento carrega particularidades próprias, mas tem muita gente que começou a apontar para a Internet e outras tecnologias digitais como vetores-chave desse novo ciclo de mobilizações.

Parece fazer sentido, mas há um perigo para essa linha de raciocínio: atribuir uma explicação técnica (a hiperconectividade) para as revoltas pode acabar por reduzir a importância das motivações políticas. Antes de ser a causa da articulação, as mídias sociais são espaços para tal. Compreendê-las desse modo ajuda a esclarecer algumas confusões.

De qualquer forma, tecnologias digitais se tornaram cruciais para compreender os fenômenos de insurgência popular que vivenciamos hoje. Não no sentido de oferecer uma origem, uma causa. Antes, observar esses fenômenos a partir da perspectiva da tecnologia nos ajuda a enxergar cenários emergentes no que diz respeito aos impactos sociais das tecnologias digitais.

Compartilhamos abaixo algumas análises rápidas e sugerimos leituras de aprofundamento.

HONG KONG

RESUMO:

Depois das primeiras manifestações, Carrie Lam, chefe do Executivo de HK, concordou em suspender o projeto de extradição, mas as demonstrações se ampliaram para incluir demandas por plena democracia e um inquérito sobre violência policial.

DISPUTA DE VISIBILIDADES:

A China já é líder mundial em inteligência artificial e tem planos de se tornar dominante no setor. Diversas startups chinesas de Inteligência Artificial já valem bilhões de dólares, incluindo as gigantes de reconhecimento facial Sensetime (US$ 4.5 bilhões) e Megvii (US$ 4 bilhões).

Em grandes cidades da China continental, a tecnologia de reconhecimento facial é virtualmente onipresente. Em Hong Kong, essa tecnologia é muito menos prevalente no cotidiano. Isso até haver a eclosão do novo ciclo de protestos. Manifestantes estão cada vez mais preocupados com o fato de a polícia usar o reconhecimento facial e outras ferramentas de rastreamento para fazer prisões, em parte porque a força policial de Hong Kong negou pedidos de divulgação de informações sobre o uso da tecnologia.

As controvérsias sobre o uso de tecnologias de vigilância biométrica estão sendo elevadas a uma escala histórica nos protestos de Hong Kong. Manifestantes usam máscaras, guarda-chuvas, lasers (daqueles que todo adolescente que cresceu na década de 90 tinha) e outras tecnologias para tornar suas feições irreconhecíveis pelo aparato estatal.

É comum ver, ao final de uma noite de protestos, câmeras nas estações de metrô e em outras áreas públicas obscurecidas com tinta, esmagadas ou penduradas em seus fios. Isso porque se o governo perfilar o manifestante este poderá ter algumas liberdades cerceadas.

A lição: se o debate sobre privacidade tem enfocado plataformas digitais nos dias atuais, a China mostra que a próxima fronteira dessa disputa será a rua.

CONTROLE DE CONTEÚDO:

“Enquanto nossos serviços como o WhatsApp são usados por manifestantes e ativistas em todos os lugares devido a fortes proteções de criptografia e privacidade, no TikTok, o aplicativo chinês que cresce rapidamente em todo o mundo, as menções a esses protestos são censuradas, mesmo nos EUA”, disse Zuckerberg em referência aos protestos em andamento em Hong Kong.

“Essa é a internet que queremos?”, ele questionou.

Sabemos que praticamente todas as mídias sociais massivas, como Facebook e Instagram, têm uma política de regulação e filtram conteúdos. Fotos de nudez são proibidas no Facebook, por exemplo. A questão é: quais são os critérios da restrição de conteúdos? Para Zuckerberg, a ameaça é um governo ter a capacidade de impor uma linha editorial restrita para o resto do mundo.

Ao mesmo tempo, o problema das fake news, discursos de ódio e instabilidade social também vêm fazendo aumentar demandas no Ocidente por maior controle de conteúdo. Juntos, esses fatores acabam por criar um cenário de provável crescimento do número de casos de censura a discursos legítimos.

Lição: censura e liberdade de expressão serão questões cruciais para os próximos anos. As disputas acerca da governança de comunidades online e conteúdo em plataformas serão protagonistas do debate coletivo.

O QUE LER:

CATALUNHA

RESUMO:

O FIM (E RENASCIMENTO) DO INTERMEDIÁRIO:

O Tsunami Democràtic criou três grandes canais de comunicação: uma conta no Twitter, um canal na aplicação de mensagens Telegram e um aplicativo modificado para Android. Como Sandra Cohen mencionou:

O movimento se lançou no início de setembro com uma carta de apresentação: “Não somos uma organização nova, somos uma campanha constante, contínua e inesgotável. Uma nova onda começa e você é o protagonista. Você é o tsunami.”

Vale lembrar que as promessas de descentralização por meio de tecnologias não são novas. Getúlio Vargas já falou à época do Estado Novo que ali acabariam-se os “intermediários entre o governo e o povo”. Quem viveu sabe que não foi bem assim. Mesmo hoje, é comum escutar que a blockchain entregará essa mesma promessa de desintermediação radical. O movimento Tsunami Democrático articulou um ideal semelhante para mobilizar a população, ainda que tenha visibilizado claramente a estrutura política da organização (separatista).

Lição: as possibilidades técnicas para distribuição e anonimização de intermediários tendem a ser cada vez mais aplicadas (e questionadas), em especial no que tange a coordenação e governança de redes para mobilização social.

A REPÚBLICA DIGITAL:

Esse embate entre a política do mundo físico e as possibilidade técnicas de liberdade do mundo digital é, digamos, clássico. Desde a década de 1990, vivemos esse confronto de ideais (vale ler a Declaração de Independência do Cibersespaço, de Barlow). Na prática, o que a história mostra é que as capacidades técnicas de liberdade (blockchain, redes peer-to-peer) raramente são suficientes para que a autonomia se realize. O professor e ativista Lawrence Lessig resume bem essa relação a partir do modelo teórico Pathetic Dot Theory (referenciado abaixo).

*Vicente é mestre em Tecnologias da Comunicação e Estéticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Se interessa por aplicações tecnológicas que proporcionem impacto social positivo e distribuído. É graduado em jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e especializado em Marketing e Design Digital pela ESPM. Trabalhou por dois anos no Grupo In Press e possui experiência de seis anos na área de Comunicação Institucional. Foi coordenador de mídias do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), onde estruturou e liderou a área de comunicação ao longo de três anos. É estrategista do TEMPLO.cc, pesquisador convidado do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) e pesquisador visitante do MediaLab.UFRJ.

*Juliana Rangel é jornalista, formada pela PUC-Rio, e pós-graduanda em Crítica e Curadoria de Arte pela IUPERJ, Cândido Mendes. Tem experiência nas áreas de cultura, mídia e entretenimento, com foco em pesquisa, produção de conteúdo e marketing digital.

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LAG | Product Owner @templo.cc | Data and Cities, Tech and Policy

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