Herman Bessler: “Fiasco do Enem mostra a urgência da Transformação Digital na Educação”

Juliana Rangel
Feb 5 · 9 min read

Na primeira quinzena de janeiro de 2020, milhares de participantes do ENEM tiveram os resultados das suas provas comprometidos por erros do MEC. A falha ocorreu durante a impressão do exame, que resultou na troca entre a cor da prova e do gabarito. Mais de 170 mil pessoas solicitaram revisão de suas notas. O INEP confirmou que o erro foi detectado em quase 6 mil dos 3,9 milhões de participantes do exame. Depois da “correção” do erro, funcionários do MEC ainda afirmam que o resultado não é 100% confiável e a classificação do Sisu pode ser afetada. Ontem (04/02), o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, foi convidado a prestar esclarecimentos sobre o ocorrido pela Comissão de Educação do Senado, mas ainda não respondeu ao convite.

O caso gerou bastante debate sobre educação e novas tecnologias. Aqui no TEMPLO.cc, o tema acabou virando entrevista com Herman Bessler, nosso CEO, que trabalha com educação e facilitação há mais de uma década.

Levando em consideração que o ocorrido foi uma falha gráfica, como a transformação digital poderia resolver esse problema, especificamente? Quais são as tecnologias que poderiam ser implantadas para melhorar o funcionamento de um exame nacional?

Quando falamos sobre transformação digital na educação no sentido de digitalização dos processos, essa é uma questão do século XX e do século XXI. A questão do século XX está ligada a algo que já foi resolvido em diversos países, que é a aplicação de uma prova digital — que poderia, por exemplo, ser realizada em casa, com um registro em blockchain, de forma a ter não só o resultado instantâneo, mas que efetivamente diminui muito as possibilidade de falha, além de reduzir imensamente o custo desse exame. A gente sabe que teve uma troca de gráfica no último momento porque a gráfica original do exame faliu e a gráfica nova que assumiu, se eu não me engano, cobrou em torno de 150 milhões de reais para imprimir as provas para o Brasil inteiro. Sem falar na logística, no custo de pessoal, na ocupação dos espaços, etc. Tudo isso gera custos adicionais extensivos e dificuldades logísticas.

Muitos acham o ENEM um modelo ineficaz de avaliação de conhecimento. Mas também é um modelo que está de acordo com um sistema educacional ultrapassado, que não dá mais conta de ensinar uma sociedade que já é por si só multidisciplinar (ou indisciplinar). Você pode falar um pouco sobre isso?

Quando falamos em transformação digital da educação, estamos tratando do uso de tecnologias digitais para atingir objetivos específicos. Então a gente precisa dar um passo atrás e perguntar “qual é o objetivo da educação formal?”, “qual o propósito de existência da educação formal?”. A educação formal, no modelo atual, foi constituída institucionalmente no final do século XIX, na Prússia, para atender às demandas do Ministério da Indústria, porque não existia Ministério da Educação. Era uma forma de produzir trabalhadores melhores para a indústria. Para formar também uma camada de gerentes, que não existia, mas que passou a ser muito importante a partir da escalabilidade que foi ganha com a Era Industrial. O modelo foi corroborado e estandardizado no início do século XX, nos EUA, onde formou-se o que a gente conhece hoje como a divisão padrão das grandes disciplinas, mais ou menos igual em todos os lugares. Um currículo adotado no Brasil até hoje, e em grande parte do mundo, que foca a educação como uma educação conteudista, disciplinar, punitiva, que divide o conhecimento em caixinhas, na qual o objetivo é o acúmulo de conhecimentos sobre diversos campos do saber e, desenvolvimento de algumas linguagens.

Hoje a gente quer pessoas mais inovadoras, mais empreendedoras, capazes de lidar com resolução de problemas complexos, que têm inteligência emocional, pensamento crítico, são resilientes,, mudando de rota o tempo todo, com flexibilidade cognitiva, que mudam de carreira ao longo da vida porque trabalham durante muito mais tempo e vivem muito mais, que exercem trabalhos que não podem ser substituídos por máquinas, por robôs, que não podem ser automatizados por softwares, bots, por inteligências artificiais — esse perfil de profissional não é formado com acúmulo de conteúdos.

Nenhum currículo escolar é capaz de suprir a capacidade de acúmulo de conteúdo que a pessoa pode encontrar em uma busca do Google. Por isso, o que a gente precisa cada vez mais é ensinar as pessoas a buscar o conhecimento, a ter alfabetização digital profunda, que gera capacidade de entender o que são fontes confiáveis, de analisar e criticar aquele conteúdo, criar sua própria visão, articular aquela visão e aplicar ela a projetos que resolvem problemas reais.

Nessa perspectiva, quando a gente fala de transformação digital da educação, é preciso pensar em uma transformação digital que passa não só pela digitalização dos processos educacionais atuais, mas por novos projetos pedagógicos e andragógicos que estão mais adaptados a nova era digital .

E até na digitalização das pessoas, porque se pensamos no Brasil como um todo, muita gente ainda não tem acesso a essas tecnologias.

Na verdade, o acesso à internet já é bastante difundido, seja 3G ou Wi-Fi. Mas, por outro lado, falta digital literacy , que é a capacidade de usar informação e tecnologias de comunicação para achar, avaliar, criar e comunicar tanto no sentido técnico quanto cognitivo.. Tem uma camada que é sobre entender como essa perspectiva crítica funciona dentro do universo digital, quando a gente está falando de informação na Internet.

Em especial, é sobre a capacidade das pessoas de compreender o nível de profundidade da informação, a veracidade da informação, como a fonte está relacionada com a opinião, que implica muito nas fake news, mas que também implica em um modelo educacional de larga escala. Se eu preciso que as pessoas sejam mais autodidatas e que a educação seja contínua, ao longo da vida toda, preciso que essas pessoas sejam capazes de discernir o que são conhecimentos, ferramentas e processos com qualidade de aplicação adequada, daqueles que são conteúdos feitos na verdade como má informação, desinformação ou propaganda.

Existe algum modelo referência de sistema que você acha que poderia ser implementado no Brasil?

Existem vários bons experimentos. Já existem algumas escolas que vêm trabalhando com aplicação de aprendizado peer to peer, entre os alunos; challenge based learning, que é o aprendizado baseado em desafios — os alunos escolhem desafios que estão engajados e buscam conhecimento necessário para vencer aquele desafio.

Mas a discussão deve ser uma discussão sobre o modelo público de educação, que é o modelo que vai chegar na grande maioria das pessoas e que determina, no final das contas, que tipo de profissional está entrando no mercado de trabalho em larga escala. Nesse sentido, ainda temos um modelo bem atrasado, bastante conteudista, baseado em punir o erro, que é absolutamente anti-inovação, anti-transformação, e muito baseado no professor como um depositário do conhecimento no aluno, um modelo de educação bancária como melhor diria Freire.

Por outro lado, você tem exemplos interessantes, como é o caso da 42, uma escola de programação francesa, que está se espalhando pelo mundo, na qual você não tem professores, mas tem orientação em projetos. E também temos alguns modelos públicos que vêm fazendo bastante sucesso. A gente admira muito a educação finlandesa, e falamos muito sobre ela. É uma educação que, no fim das contas, mescla uma abordagem da educação formal com não-formal, que tem um currículo fluido, que foca em objetivos educativos muito mais que em conteúdos, que não privilegia aplicação de provas, um modelo que no Brasil muitos provavelmente veriam como algo solto, que falta disciplina, mas que no final das contas atinge resultados na formação de pessoas. Acho que a gente tem muito a aprender com o modelo finlandês e com o modelo dos países nórdicos como um todo. O modelo israelense, apesar de ser conteudista, já é mais flexível, com aplicação de aprendizados com temas modernos como empreendedorismo e inovação dentro das escolas de educação básica e secundária. Se pegarmos a pesquisa mais recente da OCDE tem um tanto de países que figuram na frente do Brasil que estão mais avançados em termos de experimento de modelos para servir de Benchmark. É uma questão mais política do que de falta de teoria e prática.

E aqui vamos um pouco na direção contrária, em um caminho de estandardização de exame, com mais foco em conteúdo e isso não depende necessariamente de orçamento. O modelo educacional pode ser feito de uma maneira inteiramente diferente, com o mesmo orçamento. Claro que quanto melhor você paga, melhores profissionais você atrai, claro que a infraestrutura da escola é muito importante, mas a educação formal não precisa acontecer só no muro da escola. Já estamos vendo experimentos em larga escala nos Estados Unidos com a sala de aula invertida, a partir do experimento do Salmon Khan, do Khan Academy que agora já está em grande número de escolas públicas nos EUA, aplicando esse modelo no qual o conteúdo expositivo é realizada online, em vídeo e artigos, e a sala de aula é usada para colaboração entre os alunos, debates, exercícios, etc.

O diretor de estratégia política da organização Todos Pela Educação, João Marcelo Borges, afirmou que o erro pode ter a ver com o acúmulo de dificuldades na gestão do Inep ao longo de 2019 — foram quatro presidentes. Você acha que isso é uma questão política ou de transformação organizacional?

Certamente existe uma questão política, no perfil de indicação completamente sem critério do governo, e da forma como acontece o equilíbrio de forças nesse governo. Não que a educação fosse muito melhor antes, acho que a gente tem um histórico muito ruim de modelos de educação de base, pelo menos até agora. Inclusive na pesquisa da OCDE deste ano a gente vê que estamos bem mal rankeados. A gente sabe que o ensino público de base está destinado aos municípios e que a capacidade de entregar um ensino de alto nível é pequena. Os resultados mostram isso.

E isso é particularmente preocupante quando a pensamos num futuro do trabalho de automação em larguíssima escala nos próximos 15–20 anos. E como os países emergentes vão ser os principais a sofrer com isso, com a necessidade de realocar profissionais em larga escala muito rapidamente. O tempo que leva para formar as pessoas em termos de educação de base é em torno de 10–11 anos, então a gente tem aí um desafio que pode levar a um colapso social nunca visto antes por desemprego massivo friccional. E isso é muito grave .

E sobre possíveis transformações organizacionais na estrutura pública de gestão da educação?

Falando das possibilidades de transformação organizacional, das metodologias de transformação organizacional aplicadas ao INEP e a máquina pública como um todo, existem diversos modelos muito interessantes de transformação organizacional e transformação digital no governo. Quando a gente fala de DemoTech, de CivicTech, já existem ao redor do mundo, inclusive no brasil, diversas ferramentas interessantíssimas de gestão participativa, com uma maior capacidade de participação da população nas discussões, nas decisões, um modelo mais distribuído que leva a um uso melhor da inteligência coletiva. Outra opção é o uso de fiscalização por inteligência artificial dos orçamentos. Para além dos casos específicos, das referências, das ferramentas, necessariamente essa transformação organizacional passa por um governo que é mais ágil, que testa mais rápido, mais barato, e que cria mecanismos que usam a tecnologia para ouvir a população em larga escala, uma coisa que hoje em dia é bem possível e que não era há poucos anos atrás, com um custo muito baixo e alta eficiência.

E se isso de fato quisesse ser feito, quanto tempo você acha que levaria para ser feito?

Se encararmos uma mudança educacional estrutural de maneira estratégica, poderíamos pensar na construção de um cenário futuro de consenso entre diversas camadas da sociedade pública e privada num período de 1 ou 2 anos, com uma implementação faseada ao longo de 5 a 10 anos, deveríamos ter resultados altamente tangíveis. O problema é que isso não bate com o calendário eleitoral. Então, isso tem que vir de uma pressão da sociedade civil, porque cada real investido em educação retorna muito pouco em voto, cada real investido em fazer estrada, por exemplo, retorna muito em voto. Por isso, existe um argumento aí a ser defendido, que é da articulação multiregional entre diversas camadas da sociedade e organizações da sociedade civil para fazer a mudança acontecer. Até lá, ficamos no limbo.

Acho que uma discussão importante é o entendimento de que, se o que a gente quer são profissionais melhores para o mercado e pessoas mais realizadas nas próprias vidas, com uma diminuição global de desigualdade e crescimento econômico, então talvez o que a gente deva medir não é a capacidade das pessoas de responder de memória conteúdos específicos, mas a capacidade das pessoas de articular conteúdos que estão disponíveis no mundo, construindo soluções para problemas que são muito complexos e sistêmicos. Estimulando isso de forma coletiva e não individual. Eu acho que esses princípios são fundamentais quando a gente fala de qualquer planejamento para educação no século XXI.

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Juliana Rangel

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Jornalista, formada pela PUC-Rio, e pós-graduanda em Crítica e Curadoria de Arte pela IUPERJ, Cândido Mendes.

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