Três fatores para amadurecer o empreendedorismo no Rio de Janeiro

Em 2016 se encerrou um ciclo de quase uma década na qual o Rio de Janeiro sediou grandes eventos, incluindo a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos (2016). Isso gerou mudanças significativas na paisagem urbana carioca, um volume de investimentos inédito na história recente da cidade e um legado estrutural volumoso, com mobilidade urbana ampliada entre bairros mais afastados e regiões centrais. É um ótimo momento para o Rio.

E é justamente neste momento positivo que precisamos falar do ecossistema empreendedor da cidade. O ambiente é favorável, mas ainda precisamos discutir algumas grandes necessidades do Rio que quer ser um polo de empreendedorismo e inovação. Destacamos aqui 3 fatores que é preciso olhar de perto.

Diminuir a burocracia

Em 2016 (último ano com dados), o Brasil perdeu duas posições no ranking Doing Business, criado pelo Banco Mundial para monitorar o ambiente de negócios dos países e a facilidade de empreender neles — estamos na 123a. posição, entre 190 países analisados. Esse ranking nos diz que ainda precisamos andar muito para criar um ambiente saudável para uma empresa viver e crescer no Brasil.

Não é mistério que temos problemas na nossa legislação regulatória para pessoas jurídicas, mas a vida do empreendedor carioca é mais desanimadora. Em pesquisa feita pela Endeavor e SAP em 2014, 18% dos empreendedores do Estado se arrependem de de terem aberto uma empresa em função do excesso de burocracia. Essa desmotivação é um problema. Ainda mais com todo o ambiente estrutural e criativo que temos na cidade.

É preciso repensar as facilidades para empresas nascerem no país e terem uma vida tributária sustentável (a capacidade de cumprir com suas obrigações e buscar lucro, sem que uma interfira na outra)— ainda mais no momento em que o Brasil vive, onde cada vez mais dependemos do empreendedorismo para gerar novas oportunidades para todos. A gestão municipal tem feito movimentos nesse sentido, e precisa continuar nesse caminho com mais força.

Mais palcos e programas para startups e novos negócios

Nisso o Rio de Janeiro está no caminho certo. Espaços de coworking (falaremos mais detalhadamente deles em um post futuro) já convivem com a cena carioca há anos.

Também temos várias incubadoras por aqui. Uma boa incubadora dá suporte a empreendedores para que eles possam desenvolver ideias inovadoras e transformá-las em empreendimentos de sucesso. No Rio podemos destacar as incubadoras da COPPE/UFRJ e o Instituto Gênesis da PUC-Rio, bem como a incubadora Rio Criativo, mantida pelo Governo do Estado (focada em economia criativa).

A cidade também tem dois Parques Tecnológicos, sendo um deles o Parque do Rio, o maior da América Latina, localizado na Ilha do Fundão, abrigando centros de pesquisa de várias multinacionais. Nesses parques há toda a estrutura tecnológica que um negócio precisa para alavancar.

Mas é preciso irmos além pra não perder o ritmo nem iniciativas importantes. Não há iniciativas suficientes de aceleradoras no Rio. Elas vão além das incubadoras em termos de rapidez: apoiam e investem no desenvolvimento e rápido crescimento de startups, ajudando-as a obter novas rodadas de investimento ou a atingir seu ponto de equilíbrio (break even), fase em que elas conseguem pagar suas próprias contas com as receitas do negócio. Uma boa ideia pode ver a luz do sol muito mais rápido.

E justamente no Rio programas como o Startup Nave foram encerrados, mesmo depois de acelerar mais de 60 startups. É compreensível a mudança de direção da instituição, mas quando você tem algo como programas de aceleração gratuitos que podem conceber e transformar ideias em bons negócios é sempre uma perda gigantesca.

Também faltam palcos para networking e iniciativas de fomentos, como hackatons (maratonas de desenvolvimento) e encontros de empreeendedores como o Geeks on Beer. Não falamos apenas das atividades em si, mas também dos espaços físicos que podem ser ocupados.

Reconhecer e fomentar o empreendedorismo social

Quando falamos em empreendedorismo social, a ideia é que negócios utilizem mecanismos de mercado para, por meio da sua atividade principal, buscar soluções de problemas sociais. Quer exemplos?

— Startups estão usando painéis solares para captar energia limpa e bem mais barata para comunidades do Santa Marta.

— Refugiados empreendem para gerar renda.

— Espaços são reaproveitados para uso coletivo de bens e ressignificação de negócios.

E por aí vaí.

É um mundo amplo e cheio de possibilidades que desperta cada vez mais o interesse dos cariocas. De acordo com o Sebrae-RJ, o número de interessados nos programas da instituição relacionados ao tema vem crescendo. Em 2014, o órgão orientou 238 empresas e 470 potenciais empresários, além de ministrar 251 minicursos e dois cursos para formar empreendedores sociais.

É importantíssimo o apoio a esses empreendedores. A necessidade de empreendimentos sociais em um momento de crise pode minimizar muito a desigualdade social e gerar impactos econômicos positivos na cidade. E o Rio é um terreno fértil para esse tipo de empresa com foco nos problemas sociais. Claro, as dificuldades de negócios como esses são maiores, mas é natural do ambiente inovador em que estão inseridos.

E uma curiosidade: empreendedorismo social encontra muito fôlego na geração que acaba de entrar no mercado de trabalho! A segunda edição da pesquisa Juventude Conectada, da Fundação Telefonica, revela que 21% dos jovens já empreenderam no meio digital e 49% afirmam que querem abrir um negócio com o uso da internet em até cinco anos. Falaremos sobre essa nova geração empreendedora em alguns dias.

E você? O que você faria para fortalecer o ecossistema empreendedor no Rio de Janeiro?