Vida virtual após a morte

A morte é um tema delicado para ser tratado de qualquer forma. Seja pessoalmente, casualmente, ou mesmo através de interfaces digitais. Contudo, discutir o tema na internet tem se tornado cada vez mais comum, e o tema tem sido alvo de diversos serviços online.

São postadas online inumeras informações pessoais sobre pessoas de todo o mundo diariamente. E estas publicações não desaparecem após a morte de quem a postou. É muito comum se perguntar o que acontecem com essas informações, e a resposta mais ouvida é que nada é feito, as informações continuam disponíveis para qualquer um que queira ver, mas isso é um equivoco.

Na rede social Facebook por exemplo, existem diversas opções do que se fazer com a página dos entes falecidos. Com algumas informações sobre a pessoa e dados de sua morte, é possível desde criar um memorial partindo das informações da página, até apagar o perfil. Também existem funções de ter domínio suficiente da página para adicionar novos amigos, ou comentar publicações, mas não para ver arquivos pessoais antigos, como conversas, o que poderia não ser de desejo do falecido. Então é só mandar as informações da pessoa e se pode ter direito de todas essas alternativas? Não é tão simples assim, o Facebook só aceita a solicitação do pedido com a certidão de óbito, ou outros tipos específicos de documentações de identificação.

Isso não poderia se tornar mais fácil se tivesse uma forma de simplismente conseguir todas as informações digitais do falecido? Não só poderia, como pode. Para os que não se importam em dividir suas contas com alguém, existem diversos serviços online que apresentam uma forma de unir as senhas de quaisquer redes sociais e repassa-las para pessoas de confiança.
Um exemplo disso é a Legacy Locker.

Serviço online de segurança para passagem de senhas digitais.

Também existem serviços online especialmente criados para a morte. As ideias base partem de criar uma especie de memorial com informações pessoais, para que amigos e familiares possam acessar após a morte do dono do memorial. São sites e aplicativos que funcionam de várias formas diferentes. Alguns contam com upload de fotos, vídeos e publicações de texto, como a maioria das redes sociais de hoje; outros tem galerias de áudio só para matar a saudade do som da voz do falecido; e outros possuem inclusive informações sobre o possívelfuneral. O site The Digital Beyond possui uma grande lista de serviços como esses, dentre eles o Remember Me, que trata da morte como uma forma de celebração da vida.

O site Remember me é um dos que oferece esses serviços. Com um nome bem sujestivo inclusive.

As redes sociais estão mudando a forma de se lidar com a morte. Mas até onde isso pode ser positivo, ou negativo? Psicólogos explicam que é natural do ser humano se procurar por algo quando isso lhe faz falta, buscar o que foi perdido. É o que acontece quando se sente saudade de alguém, são buscadas imagens, sons ou figuras que passem a lembrança da pessoa. Porém o médico Evaldo D’Assumpção alerta que o luto costuma durar até dois anos, passando disso pode ser considerado um luto patológico e precisa ser tratado.

As informações pessoais de entes queridos ficam à disposição online 24 horas, por período indeterminado, e isso pode causar uma certa dependência. A saudade e o luto são sentimento completamente naturais, mas até onde eles podem ser tolerados? O filme Transcendence passa um pouco dessa ideia.

Filme Transcendence

O filme retrata um pesquisador de inteligência artificial que se esforça para criar uma máquina que possui sensibilidade e inteligência coletiva. Ao sofrer uma tentativa de assassinato que quase o matou, pede ajuda à sua esposa e seu amigo para aplicarem a experiência que transfere sua consciência para a máquina. Quando a operação começou a ter sucesso, o amigo do pesquisador começou a se mostrar relutante a ideia, porém a necessidade que a esposa do falecido tinha da presença de seu amado era muito maior que qualquer medo ou incerteza que o amigo pudesse ter em relação ao experimento. Ao decorrer da história, diversos fatos extremos parecem assustadores para a realidade, porém a dependencia da esposa perante seu marido continuava maior.

Esse exemplo retrata perfeitamente o quão viciante a presença de uma pessoa pode se tornar, ainda depois de sua morte. Além da possibilidade de contato ser existente apesar da morte, ele pode ser feito à qualquer momento. É possível ter a presença de alguém 24 horas por dia, o que não é possível nem mesmo com a pessoa ainda viva.

Filme Transcendence

Outro filme que provoca a morte de forma digital é o Source Code onde um soldado assume a mente de um homem nos últimos oito minutos de sua vida, antes da explosão de um trem. Sua missão é voltar diversas vezes ao mesmo momento e descobrir quem plantou a bomba e como impedir a tragédia. Aqui a utilização da tecnologia perante a morte é tratada de uma forma diferente, não como um sintoma de saudade ou afeto, mas apenas uma especulação.

Filme Source Code

Enquanto isso, na série Black Mirror, original Netflix, o episódio Volto já retrata o uso da tecnologia para “trazer de volta” um falecido de forma ainda mais afetuosa que a citada anteriormente, no filme Transcendence. Durante o funeral de seu namorado, a personagem recebe a informação sobre uma plataforma que promete trazer os que já se foram de volta ao seu dia a dia. Primeiramente ela nega por completo a ideia, mas ao aceita-la, vai buscando mais e mais o serviços. Através de uma especulação nas redes sociais do falecido, a companhia consegue reproduzir exatamente seu comportamento. Inclusive foi capaz de desenvolver chamadas de voz com a própria voz do falecido, e o mais surpreendente, uma forma corpórea que recria a pessoa fisicamente, sendo possivel edita-la intelectualmente e moralmente.

A série trata de uma ficção, mas nada impede que futuramente existam serviços como esses. Com as redes sociais se tornando cada vez mais presentes e mais intrusivas, qualquer informação pessoal pode ser encontrada através de uma boa pesquisa. E uma vez que esses dados sejam coletados e reunidos, em um futuro não tão distante será possível manter não só a memória de falecidos, mas também sua personalidade virtual.

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