A morte do autor

Rafaela Aparecida
Nov 24, 2018 · 6 min read

Por trás da criação de qualquer conteúdo, seja ele uma pintura ou um livro, há a presença de um personagem chamado de autor. Ele é o responsável pela concepção de uma obra que será apresentada para diferentes públicos, para ser lida e interpretada, sendo assim, é natural pensar que o seu significado nasce da vontade da figura do autor. Até esse ponto, estamos discutindo a ideia que caracteriza a vertente da intencionalidade autoral.

Intencionalidade autoral diz respeito a noção de que o autor é o imperador do conteúdo criado por ele, com total direito e controle sobre seus significados e a forma como ele deve ser interpretado. Além disso, a sua história, valores e sentimentos devem ser levados em consideração no momento de analisar o que foi produzido por ele. Não só um pintor tem total domínio da forma que sua pintura deve ser observada, como sua vida deve ser entendida como uma maneira de acrescentar novos significados a sua criação.

“O autor ainda reina nos manuais de história literária, nas biografias de escritores, nas entre- vistas dos periódicos e na própria consciência dos literatos, ciosos por juntar, graças ao seu diário íntimo, a pessoa e a obra; a imagem da literatura que se pode encontrar na cultura corrente está tiranicamente centralizada no autor, sua pessoa, sua história, seus gostos, suas paixões; a crítica consiste ainda, o mais das vezes, em dizer que a obra de Baudelaire é o fracasso do homem Baudelaire, de Van Gogh é a loucura, a de Tchaikovski é o seu vício: a explicação da obra é sempre buscada do lado de quem a produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o autor, a revelar a sua confidência.” (BARTHES, Roland. 2004, p.58)

No entanto, toda essa ideia da relação do autor com a obra é criticada por Roland Barthes em eu ensaio “A morte do autor”, de 1967. Primeiro de tudo, é necessário entender que, segundo Barthes, qualquer conteúdo é produzido se utilizando de elementos precedentes ao próprio autor, o que inclui os elementos, as ferramentas e até as ideias. Pensando dessa maneira, um livro é constituído por um conjunto de palavras, cada um com seus significados pré-determinados, organizadas de uma forma já concebida nesse meio e que carregam conceitos provindos de lugares diferentes. Nada disso é criação do autor, seu papel foi o agrupamento dessas informações de maneira a produzir uma obra que possui um caráter inovador.

Ainda por cima, a ideologia de ver o autor como um deus de seu conteúdo já possui grandes falhas, uma vez que ele nada mais é que um ser humano. Sendo assim, muitas vezes ele mesmo não é consciente de possíveis significados que possa estar atribuindo a sua obra, ou com o tempo a maneira que ele interpreta suas criações pode acabar mudando.

Entregar toda a significação da obra para o autor é, de certo modo, impor um limite e uma finalização a ela. Não há nada que possa ser aproveitado de maneira crítica ou construtiva, o discurso de quem a criou é a última palavra. É uma noção que a própria critica se beneficia, cita Barther, já que a sua única preocupação acaba por se focar em encontrar o autor, pois entende-lo e entender sua obra.

Entretanto, se não o autor, quem seria o responsável pela atribuição de significado para obra?

Para Barther, essa função seria parte do papel do leitor. Ao entrar em contato com um conteúdo, cabe ao público se utilizar de pensamento crítico para analisar a obra. Consequentemente, toda a significação da obra só existe a partir do momento em que se interpreta a obra, e isso acontece inúmeras vezes de maneiras diferentes por cada um.

“Assim se desvenda o ser total da escritura: um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar onde essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se disse até o presente, é o leitor: o leitor o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que feita uma escritura; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino, mas esse destino já não pode ser pessoal: o leitor um homem sem história, sem biografia, sem psicologia; ele apenas esse alguém que mantém reunidos em um mesmo campo todos os traços de que constituído o escrito.” (BARTHES, Roland. 2004, p.64)

É importante entender que, a partir do momento em que a obra sai das mãos de seu criador e entra no domínio de seus leitores, ela se torna independente. A opinião do autor, então, se torna só mais uma em meio a tantas outras, uma diversidade de interpretações surge de uma forma que nenhuma está exatamente certa, e nenhuma exatamente errada.

Pequeno vídeo que resume a ideia de Morte do Autor

A Morte do Autor abre espaço para a validação de todo o conteúdo produzido por fãs, incluindo fanfics, fanarts e fancomics, que são, respectivamente, histórias, ilustrações e histórias em quadrinhos não oficiais baseadas em uma obra pré-existente. Essas criações são feitas como uma forma de entreter e manter viva a comunidade, também chamada da fandom, ou fan kingdom. No entanto, é importante lembrar que todo esse conteúdo é carregado de interpretações dos fãs, que muitas vezes usam esses meios como forma de apresentar sua opinião ou explorar aspectos que não foram, por exemplo, tratados de forma superficial no original.

Toda a produção de fãs acaba por resultar em uma maior divulgação da obra original, e também serve como uma maneira para os criadores desses conteúdos praticarem sua arte e ganharem reconhecimento, uma vez que muitos deles têm a intenção de criar as suas próprias obras no futuro. Sendo assim, a validação que a Morte do Autor traz para esse material acaba por ser de grande importância.

Procurando o termo “fanart” na plataforma Tumblr.

Outro incentivo que os ideais da Morte do Autor trazem para essas comunidades, é no quesito de criação e compartilhamento de teorias, seja de filmes, livros ou jogos. As interpretações das obras originais muitas vezes resultam em suposições e possibilidades dentro delas, ou seja, muitas coisas podem ser vistas como sendo implicações de algo que não está explicito, mas pode estar subentendido. As teorias dos fãs surgem dessa ideia e, consequentemente, o desejo por expor e discutir elas é o que acaba fazendo com que sejam compartilhadas com toda a fandom.

Canal do “Inside A Mind”, criador de conteúdo relacionado a teorias, análises e ‘solução de mistérios’ de jogos, animações e filmes.

Roland Barthes e a Morte do Autor trazem uma vertente de grande importância, já que promove tanto o pensamento crítico quanto a criação independente de conteúdo criativo por parte do público. Como já dizia Barthes: “(…) para devolver escritura o seu futuro, preciso inverter o mito: o nascimento do leitor deve pagar-se com a morte do Autor. ”

FONTES:

https://www.youtube.com/watch?v=A6qJXLNL8Ik

BAERTHES, Roland. A Morte do Autor. Texto publicado em: O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004

Tendências Digitais

Observatório de Tendências Digitais da PUCPR foi mantido entre os anos de 2016 e 2018 pelos estudantes da disciplina Laboratório de Tendências de Design Digital e pelo Prof. Dr. Frederick van Amstel (@usabilidoido).

Rafaela Aparecida

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