O álbum visual
“O álbum visual é um meio híbrido entre videoclipe e cinema; como o videoclipe, ele promove um álbum musical, e como o filme, é concebido como uma obra artística. O álbum visual empresta formatos, técnicas e teorias de gêneros, tais como diálogo direcionado e o olhar voyeurista, e usa-os de uma forma híbrida.“
Abstrato traduzido do artigo “The visual album as a hybrid art-form: A case study of traditional, personal, and allusive narratives in Beyoncé”, de Cara Harrison (2014).
Em agosto deste ano, Frank Ocean, rapper norte-americano conhecido por seu aclamado e premiado álbum Channel ORANGE (2012), terminou o seu hiato de quatro anos afastado das mídias e sem lançar nenhum álbum novo. Uma semana após começar um live streaming em seu site, que atraiu toda a atenção da mídia e dos fãs para o que lançaria em seguida, Frank construiu ele mesmo uma escada em espiral de madeira num galpão sem identificação. Enquanto isso, ele tocava seu novo álbum no fundo, em grandes alto-falantes. O álbum visual foi lançado no dia seguinte à transmissão, chamado Endless.
Em 2013, Beyoncé foi o grande nome do álbum visual. Sem nenhum anúncio prévio, ela lançou seu novo álbum BEYONCÉ exclusivamente no iTunes, entregando de uma só vez 14 músicas e 17 vídeos, um para cada música e alguns extras. Ela não foi a primeira a fazer o feito, mas foi o primeiro e mais marcante álbum visual. Ao fazer seus próprios clipes para cada uma de suas canções, a cantora norte-americana, negra e feminista resgata suas próprias lembranças e faz das letras não só um relato cotidiano, mas um manifesto íntimo de luta e reconhecimento.
O expoente máximo da construção de uma experiência sonora mais completa e visual na carreira de Beyoncé foi com sucessivo álbum Lemonade. Estreado na HBO em horário nobre, a cantora expõe a sua vida pessoal através de temas como traição, auto-reconhecimento feminino e cultura negra. As análises elogiam muito bem não só a parte musical do Lemonade, mas também a obra cinematográfica e conceitual que é o álbum, que tem uma hora de duração. Com uma estrutura artista e documental, Beyoncé retrata os cinco estágios da dor segundo Klübler-Ross sob a perspectiva da sua própria vivência, linkando com sua infância no Texas e também sua carreira tumultuada.
“Eu vejo música. É mais do que apenas o que eu escuto.” KNOWLES CARTER, Beyoncé.
Esses três exemplos, ainda que poucos, são pontos chaves na evolução do álbum visual. A experiência da música mudou muito, encolheu e se compactou durante os anos com a chegada da mídia digital. Mas alguns artistas perceberam e reagiram à essa mudança. Todos eles pavimentam o caminho que a música pop está trilhando rumo a um produto mais polido, complexo e real. Björk (com Vulnicura), iamamiwhoami (com BLUE), Frank Ocean (com Endless) e Beyoncé (com BEYONCÉ e Lemonade) estão entregando não só músicas, mas também suas formas imagéticas, seus contextos e impulsos que concretizaram a trilha sonora. Essa é uma tendência que começou nos encartes dos discos de vinil e nos folhetos dos CDs. Embora nesses casos as imagens exclusivas da mídia física eram conteúdos adicionais, o audiovisual em um álbum visual é imprescindível. É a liga que dá sentido e complementa a narrativa, localizando-a (ou não) em um tempo/espaço.