eu também nasci veada,


e eu também sou a ovelha desgarrada do rebanho desse deus. com a diferença que eu nunca senti a pecaminosidade da carne, ainda que nesses anos todos. eu não amei Ele, eu amei Elas, centenas, sem provar dos lábios todos nem beber dos vários suores. as Elas que se apiedam da aberração que eu me tornei.

Você!, um adendo, antes de tudo: eu também não posso garantir a linearidade do relato, sequer unicidade no tom da fala. eu nunca pude garantir ordem na erupção dos sentimentos. mas Você vai saber, de tudo, ou quase, ou até onde houver o que saber.

então eu sou ovelha e não tenho lugar nos vastos campos verdes e cercados do criador. mas não sou do lado liberta e desafiador de fora; sou dos cantos, dos buracos, das muradas, dos esconderijos. eu sempre tive a certeza da vida breve, e é nisso em que eu acredito, essa é minha cota de fé. eu nunca ouvi falar da bíblia que ampara, promete e celebra. eu deito pra dormir e o coração precisa apressar as coisas; o peito dói por ser. e na febre dos dias ruins, eu desejo deixar de resistir às chamas do meu paraíso.

eu tive deus à sombra de Mamãe; a Mamãe maiúscula e o deus minúsculo, também. uma Mamãe que logo se tornou minúscula perto do Medo, onipresente, onipotente, senhor dessa vida. Ele nunca ouviu de mim que sei que gosto de bocetas, mas Ele sabe, sem precisar que eu diga. Ele destruiu a Mamãe e tomou conta do trono, mas deus ainda se espreita nas suas sombras. mas mais do que o jugo de deus, temo o jugo dos olhos das ruas, das bocas das casas, dos ouvidos das esquinas. eu decidi rejeitar o amor do deus; daquela forma, não!, mas, de novo, ele ainda anda pelas bordas, se esquiva das jorradas de fúria e permanece ali.

Mamãe, Papai, esqueceram do amor, da semente pr’eu me tornar gente. e eu cresci assim, achando normal não dar amor ao mundo, vivendo pra mim e só pra mim. até que nas urgências, a carne clama por mais carne e suspiros mornos e abraços involuntários e afagos e palavras e ouvidos e bocas. mas nunca encontra. nunca põe o pé pra fora da porta; tem medo dos raios, dos pingos d´água, do vento. não encontra amor, nunca. e assim fica, com o sem, até o sempre da carne. por deus que esse sempre seja efêmero.

ainda que eu não tivesse nascido veada, ser ovelha seria irremediável. graças a deus existem ovelhas — as negras, aquela dos verdes pastos para além das cercas — espalhadas pelos feixes do cosmos: ovelhas com seus paus que gostam de bocetas, com suas bocetas que gostam de paus, com seus paus que gostam de paus, com suas bocetas que gostam de bocetas, com seus paus e bocetas que gostam de paus e bocetas, com suas bocetas e paus que gostam de coisa e de nada.

eu vou orar a deus pra que Mamãe leia isso. ela vai saber. e que Ela tome o lugar do reinado de agora, e nos jogue nos púlpitos. que assim seja.

eu também sou ovelha. amém.

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obrigado, Ovelha, pela coragem do primeiro passo: escrever o que eu sou, ainda que sem a figura nem o semblante. na escrita você domina a palavra, na leitura você é dominado por ela. eu anunciei a dominação de uma vida. que assim seja.

obrigado, gustavo, por não ter deixado o ovelha numa cama de hospital, inerte à iminência da morte, passivo e covarde.

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falamos de

ovelha — memórias de um pastor gay, de g. magnani

geração editorial, dois mil e quinze